Panagiotis Tzamaros/Reuters
Panagiotis Tzamaros/Reuters

Em dia de fúria, gregos reagem ao novo pacote

Governo coloca 5 mil policiais para tentar conter protestos violentos de 20 mil gregos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA

A crise da dívida na Europa se degenera pela primeira vez em um caos social e deixa políticos em alerta em relação ao impacto das exigências feitas por reformas.

Nas ruas de Atenas, a aprovação de maiores impostos, eliminação de 150 mil postos de trabalho e cortes nos gastos sociais mergulhou imediatamente a cidade na violência, com centenas de feridos, incêndios e protestos por parte da população que se diz "exausta" de pagar para tirar o país da crise. O centro da capital se transformou em uma zona de guerra e, perto da meia noite, a polícia chegou a perder o controle de certas áreas.

Sindicatos, o movimento de jovens conhecido como Indignados e grupos radicais iniciaram o dia de ontem tentando impedir que deputados conseguissem chegar ao Parlamento para votar. Para os sindicatos, o projeto aprofundaria a recessão na Grécia, jogaria milhares pessoas para fora do mercado de trabalho e ainda reduziria ainda mais os níveis sociais do país.

Há uma semana, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que medidas de austeridade levariam a uma crise social ainda mais profunda, em uma crítica direta às exigências do FMI. Os próprios líderes europeus já admitiram nesta semana que não terão mais como convencer seus cidadãos a pagar pela crise, se mais uma recessão atingir a UE.

Ontem, as cenas de violência invadiram as casas de europeus em todo o continente, em um alerta a todo continente do que pode ser o impacto da crise. Faixas traziam ofensas contra a UE, o FMI, Alemanha e França, tidos como os responsáveis pelas exigências fiscais.

Em Berlim, o governo alemão insiste que não tem como pedir que os contribuintes do país paguem pelos erros dos gregos. A chanceler Angela Merkel não esconde que teme ser penalizada nas urnas por adotar uma posição de exagerada solidariedade com Atenas. Ontem, porém, os europeus descobriram que a população grega não irá apenas assistir a implementação dos cortes e elevação de impostos.

Repressão. O governo grego foi obrigado a enviar 5 mil policiais para garantir a segurança dos edifícios públicos, diante da passeata de cerca de 20 mil manifestantes. Mas foi depois de saberem que o pacote havia sido aprovado que um grupo de manifestantes radicalizou sua manifestação. Agências bancárias, delegacias, lojas, lanchonetes do McDonald"s e prédios públicos foram depredados. Uma agência do correio foi incendiada e o Ministério das Finanças foi em parte invadido. Um deputado também saiu ferido, ao tentar deixar o Parlamento.

Nas proximidades do Parlamento, as bombas de gás lacrimogêneo dominavam o ambiente. O próprio metrô de Atenas acabou invadido pelo gás e postos de saúde foram obrigados a atender mais de 500 feridos e pessoas afetadas pelo gás. Quase 40 pessoas chegaram a ser levadas de emergência aos hospitais.

Deputados que votaram contra o projeto alertaram que o governo estava abusando da força e usando gases em um nível inaceitável. O ministro de Finanças, Evangelos Venizelos, defendeu a ação das autoridades. "A polícia tem o dever de proteger a lei e a ordem e reprimir todas as provocações violentas", disse.

Nas ruas. Manifestantes que participaram dos atos em Atenas contaram ao Estado pelo telefone que as máscaras para respirar que traziam permitiam que continuassem os ataques, apesar da ação da polícia.

Lojas foram destruídas, assim como carros. Os manifestantes usaram tudo o que encontraram para atacar a polícia, atirando mesas, garrafas, pedras e paus. No início da noite de ontem, mais de 20 pessoas já haviam sido detidas.

"Não sairemos das ruas. Não temos mais nada a perder", afirmou Panos, um economista de 29 anos de Atenas, por telefone ao Estado. Ele procura e não encontra emprego há dois anos.

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