Paulo Whitaker/Reuters
Tensão. Em um dia, ações de empresas caíram R$ 432 bi Paulo Whitaker/Reuters

Em dia de pânico, gestores tentam acalmar investidor

Investidores em Bolsa devem ter paciência, mas é difícil manter o sangue frio com o mergulho registrado na Bolsa, dizem analistas

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2020 | 04h00

Foi mais um começo de semana infernal para o investidor em Bolsa, naquele que parece ser o novo normal dos mercados financeiros desde que a crise do novo coronavírus se alastrou pelo mundo. Ao longo do dia, os gestores de algumas das principais instituições financeiras se dividiram na missão de minimizar o prejuízo nos portfólios, ao mesmo tempo que acalmavam os clientes, alguns deles enfrentando seu primeiro grande revés na vida no mercado de renda variável.

Em um único dia, as ações das empresas negociadas na B3 perderam R$ 432 bilhões em valor de mercado, segundo dados da Economática. Em cifras, esse é o maior prejuízo da Bolsa em um único dia desde o início do Plano Real, em 1994.

No Itaú Unibanco, o diretor de investimentos, Cláudio Sanches, bateu na tecla da paciência, discurso que vem sendo usado desde fevereiro para o mercado. Para ele, por pior que a situação se apresente, é melhor deixar o dinheiro onde está e manter a calma. “As pessoas ficam preocupadas. Mas para o cliente que está com a alocação bem posicionada, a gente está falando para manter o dinheiro na Bolsa”, diz. “A única recomendação diferente é para aquela pessoa que percebeu que não tem estômago para risco tão forte quanto imaginava. Nesse caso, é bem melhor sair do que ficar sofrendo”, afirma. 

Para o executivo do Itaú, o investidor precisa encarar a Bolsa como uma aplicação de, pelo menos, 12 meses. “E em até um ano acreditamos que as coisas vão se acalmar”, afirma.

O sócio e chefe de investimentos da gestora TAG, Dan Kawa, diz que seus clientes passaram o dia “muito desconfortáveis, mas ainda serenos”. Acostumado a lidar com famílias com pelo menos R$ 10 milhões aplicados, Kawa diz que seu público encara os solavancos da renda variável com um pouco mais de naturalidade. O que não acontece com boa parte do mercado. “Conversei com muitos colegas e eles estão se matando para segurar os investidores, que querem sair correndo da Bolsa.”

No Indosuez, o diretor-geral da área de investimento, Fabio Passo, realizou uma conferência com os investidores às 16h, no momento em que o Ibovespa ampliava as perdas para além de 10% (o índice fechou o dia com queda de 12,16%). “Falei que sim, que a situação é grave, que o impacto que o coronavírus deverá ter na produção global vai gerar recessão e que a falta de acordo entre a Opep e a Rússia na questão do preço do petróleo teve um peso enorme na crise do dia. Mas, ao mesmo tempo, falei que não podemos ser irracionais nas nossas decisões e que fundamentos sempre prevalecem”, lembra ele, que ainda prefere esperar para traçar um cenário para os ativos brasileiros nos próximos meses. “Em Bolsa, é preciso fazer as coisas com cuidado.”

2021

Para a coordenadora do curso de Economia do Insper, Juliana Inhasz, apesar dos esforços dos gestores, parte do novo investidor pessoa física que vinha participando da alta da Bolsa nos últimos meses deve deixar a renda variável. “Eu vejo um efeito manada, que é quando todos correm juntos para o mesmo lado”, diz. “É preciso esperar as coisas se acalmarem. Mas quem entrou na Bolsa na alta, só deve recuperar seu dinheiro no ano que vem.”

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‘Ainda gosto da Bolsa como investimento para 2020’, diz diretor do Itaú  

Diretor de investimentos do Itaú Unibanco, Cláudio Sanches diz que deve reduzir as expectativas para a Bolsa, mas ainda acredita nela como principal investimento para 2020

Entrevista com

Cláudio Sanches, diretor de investimentos do Itaú Unibanco

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2020 | 04h00

O diretor de investimentos do Itaú Unibanco, Cláudio Sanches vinha recomendando o investimento em ações na Bolsa de Valores desde o início de 2019. Ontem, depois do tombo histórico das empresas na B3, que perderam R$ 432 bilhões em valor de mercado em um único dia, ele pedia paciência aos clientes e insistia em sua recomendação. "A única recomendação diferente é para aquela pessoa que percebeu que não tem estômago para risco tão forte quanto imaginava. Nesse caso, é bem melhor sair do que ficar sofrendo". 

Leia abaixo os principais trechos da entrevista. 

Qual o impacto dessa crise nos ativos brasileiros? E a duração?

A gente não tem perspectiva para uma solução de curto prazo. Tem muita incerteza ainda, principalmente, com a questão do coronavírus. Acho que o que teve de novo nesta segunda-feira foi justamente a crise do petróleo. E aqui é o mercado olhando e dizendo: ‘Puxa vida, se esses caras estão fazendo isso com o petróleo, é porque eles estão tendo uma leitura de que a economia vai desacelerar muito’. A verdade é que economia vai desacelerar tanto quanto ela já iria na sexta-feira. 

O investidor faz o que agora?

Para quem está bem alocado em Bolsa, o momento é de manter. Ainda gosto da Bolsa como investimento para 2020. Para aquele dinheiro novo, o que a gente recomenda é colocar muito mais num fundo multimercado, que tenha renda variável, e deixar o trabalho de realocação para um gestor profissional caso aconteça alguma novidade.

Vocês contam com o Ibovespa a quantos pontos até o final do ano?

A gente está revendo tudo, PIB, revendo Bolsa... não terminamos ainda de fazer todos os nosso cenários. Mas o que posso dizer é que vai ser revisado para baixo e, claramente, a Bolsa será um pouco para baixo. No início do ano, esperávamos a Bolsa com 132 mil pontos, depois caiu para 127 mil pontos. Pode ser que caia um pouco mais.

Vai demorar quanto para recuperar esse tombo acumulado das últimas semanas?

Estão faltando dados para ter alguma estimativa do período que isso deve pegar. Hoje a gente tem uma convicção de que em pelos menos em 12 meses as coisas devem estar normalizadas. Isso significa que, para quem tem uma perspectiva de investimento de 12 meses, a gente continua entendendo que renda variável é uma das nossas melhores recomendações.

Agora, uma coisa importante. Quem entra agora na Bolsa está entrando com um preço muito mais baixo. A Bolsa ficou barata. Então, você tem os dois lados. Se a pessoa já está posicionada em Bolsa e não está super exposta, é o momento de ficar, não de trocar. A não ser que a pessoa percebeu que o estômago dela para risco não era tão forte quando ela imaginava que fosse. Nesse caso, é bem melhor você sair do que ficar sofrendo. Mas para quem está entendendo e consegue aguentar essa volatilidade, a gente entende que sair da Bolsa não é a opção.

Correr para a renda fixa nem pensar?

Não é a nossa recomendação. Existe a possibilidade de uma nova redução de juros Selic, então a renda fixa não é recomendável. Se a pessoa tem a reserva de emergência, aquele dinheiro para alguma despesa extraordinária, tudo bem alocar em um investimento líquido de renda fixa, mas só. Mas, claro, tem de querer ter um pouco mais de liquidez agora para esperar um pouco a poeira abaixar. Essa pode ser uma estratégia interessante.

O dólar vai chegar a R$ 5?

Não dá para prever isso. Vai depender muito da interferência do BC, de como as pessoas vão reagir. Pode ser que chegue a R$ 5 e depois volte... 

O BC está fazendo tudo que poderia para controlar a desvalorização do real? 

Aparentemente, estão fazendo o dever de casa muito bem feito. Acho que a discussão é um pouco sobre a efetividade que a venda de dólares e as interferências atuais podem ter no câmbio. Mas eu diria que estão fazendo tudo aquilo que o manual manda.

 

 

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