'Em dois ou três anos, Brasil pode estar melhor'

Para o executivo do FMI, País será favorecido com a mudança na políticafiscal e realização dereformas estruturais

Entrevista com

José Viñals, diretor do Fundo Monetário Internacional

RICARDO LEOPOLDO, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2014 | 02h03

SANTIAGO - O governo da presidente Dilma Rousseff tem uma grande oportunidade para colocar o Brasil numa trajetória de bom crescimento em dois ou três anos, com a adoção de políticas fiscal e monetária sólidas, além de reformas estruturais.

A avaliação é do diretor do departamento monetário e de mercado de capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), José Viñals, que esteve no último fim de semana em Santiago, no Chile, para participar da conferência "Desafios para assegurar o crescimento e uma prosperidade compartilhada na América Latina".

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Viñals se mostrou entusiasmado com a indicação de Joaquim Levy - um amigo de muitos anos - como ministro da Fazenda a partir de 2015. Veja os principais trechos da conversa:

Como as políticas fiscal e monetária no Brasil devem se preparar para o início da alta de juros nos EUA pelo Federal Reserve (o Fed, banco central americano), que poderá ocorrer ao redor de junho, como avalia o FMI?

Há dois cenários potenciais. O central é de um movimento suave, no qual o Fed atua de maneira gradualista e comunica as suas ações de forma muito clara. Neste contexto, a reação dos mercados financeiros é relativamente suave. Se isso ocorrer, será um bônus para o Brasil porque haverá maior crescimento vindo dos EUA, com o aumento de exportações para aquele país. Com a subida dos juros pelo Fed ocorrerá uma depreciação do real em relação ao dólar, o que vai aumentar a competitividade do Brasil. Neste cenário há um ganho líquido para o País.

E qual é o outro cenário?

O outro cenário seria mais desafiador. Nele há duas possibilidades: uma delas é que podem ocorrer surpresas, como uma velocidade maior da alta de juros pelo Fed. Isso poderá gerar pressões muito rápidas no Brasil, especialmente na taxas de juros futura e no câmbio. A melhor maneira para uma economia importante como a do Brasil enfrentar circunstâncias mais desafiadoras é ter uma boa macroeconomia, com vigorosa política monetária, para levar a inflação para a meta. O Banco Central tem adotado medidas nessa direção. Em adição a isso há a prudência fiscal, que dá algum espaço de manobra para prover medidas contracíclicas, caso necessárias. E para reforçar a confiança é preciso a adoção de reformas estruturais, importantes para ampliar o potencial de crescimento do País.

Como o senhor avalia a indicação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?

O governo do Brasil tem agora um novo mandato da presidente, com uma indicação excelente para o Ministério da Fazenda. Joaquim Levy é um amigo de muito tempo. Quando ele foi Secretário do Tesouro, eu era vice-presidente do banco central da Espanha. Acredito que ele é uma pessoa extraordinariamente capaz. Eu realmente estou muito esperançoso que neste mandato da presidente ela vai fazer o que for necessário para colocar o Brasil num caminho de alto crescimento, o que trará benefícios para toda a população.

Caso o Brasil adote uma nova política econômica, com robustas medidas fiscais e monetárias, como será o desempenho da economia em dois anos?

Se o Brasil de fato adotar uma política econômica de médio prazo que levará o País para um aumento da confiança do consumo e das empresas, torne mais favorável o ambiente de negócios, estes fatores serão um reforço importante para a economia, inclusive porque vai ajudar a demanda e a oferta. Em dois ou três anos, o Brasil poderá estar numa situação muito melhor.

O sr. tem uma boa expectativa de que o governo vai harmonizar as políticas fiscal e monetária?

Quanto mais ele entregar de forma decidida, mais confiança haverá. É uma resposta que dependerá de ações do Estado.

Qual a avaliação do sr. sobre o nível de alavancagem (endividamento) das empresas no Brasil?

Esse é um tema importante. Tem ocorrido expressiva alta da alavancagem de empresas e o Brasil não foi exceção. O descasamento cambial inspira atenção. Por outro lado, a parte referente à alavancagem das companhias gera preocupações, especialmente no caso de empresas cujas receitas são baixas em relação ao pagamento do serviço da dívida. Se ocorrer uma alta dos juros dos empréstimos, como consequência do aperto das condições de financiamentos internacionais, junto com menores receitas por causa das piores perspectivas de crescimento, será mais difícil pagar a dívida. O BC está atento e vem fazendo um bom trabalho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.