Em dólar, salário sobe 154% desde o Real

Valorização do real e reajustes salariais elevam o poder de consumo dos trabalhadores, mas afetam a competitividade da indústria

Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Os salários pagos pela indústria paulista, em dólares, estão 154% acima de junho de 1994, quando começou o Plano Real e a economia se estabilizou. O real forte e o mercado de trabalho aquecido elevaram a remuneração dos trabalhadores em moeda forte para o maior nível em 16 anos.

O cálculo da relação entre câmbio e salário foi feito pela consultoria Rosemberg & Associados, com base na série de câmbio do Banco Central e de emprego da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em relação a setembro de 2002, quando o real se desvalorizou antes da eleição de Lula, a alta dos salários em dólares chega a 286%, quase três vezes mais.

O fenômeno provocou dois efeitos: aumentou o poder de compra da população, mas elevou os custos das indústrias. "Os salários subiram de maneira espantosa em dólares. É claro que tem efeito na competitividade das empresas", diz José Pastore, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Graças ao câmbio forte, os brasileiros têm acesso a mais produtos importados, como carros e celulares de última geração. As importações de bens de consumo cresceram 50% de janeiro a setembro, absorvidas por uma população que tem mais dinheiro no bolso. Os economistas preveem expansão de 7% da massa de salários este ano.

"Com o desemprego em seu nível mais baixo, o poder de barganha dos trabalhadores aumentou", ressalta Fábio Romão, economista da LCA Consultores. Conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 2010 será o ano com recorde de reajustes salariais de mais de 5% acima da inflação.

A preocupação dos especialistas é com o impacto do aumento dos salários em dólares na indústria. Os exportadores ficaram menos competitivos e até empresas focadas no mercado interno perderam força para competir com os importados.

"Com um real forte por um período tão longo, perdemos muito espaço no exterior", diz Otmar Müller, diretor da Eliane Revestimentos Cerâmicos. A fatia da produção para exportação caiu de 50% em 2004 para 11% hoje. Em igual período, os custos da empresa aumentaram 158%.

Importação. A Eliane contornou o problema com ganhos de produtividade e vendas mais robustas no País, mas agora está preocupada com as importações. Muller conta que o porcelanato importado, que chegava por R$ 20 o metro em 2004, hoje custa R$ 11,80. Para Sérgio Vale, economista da MB Associados, o custo da mão de obra se tornou a principal preocupação da indústria, agora que a oferta de crédito a juros mais acessíveis aumentou. "A dificuldade de encontrar trabalhadores, principalmente qualificados, está grande."

A fabricante de roupas infantis Brandili enfrenta esse problema. No fim do ano passado, a empresa abriu uma filial em Otacílio da Costa (SC), cidade próxima de sua sede. Das 350 vagas disponíveis, 150 estão em aberto. Segundo Germano Costa, diretor de marketing, a empresa será obrigada a reajustar os preços em 13% a 15% no próximo ano, para compensar os custos, apesar da maior concorrência de importados vindos da China.

Uma das estratégias que as empresas adotaram para compensar o real forte é importar mais insumos e máquinas. Segundo André Bevilacqua, supervisor de controladoria da autopeças Fupresa, o aumento dos salários provocou uma corrida para mecanização, mas vale mais a pena trazer a máquina do exterior.

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