Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Em encontro no Instituto Lula, Barbosa defende ajuste fiscal e retorno da CPMF

Em meio à pressão do PT pela saída de Levy da Fazenda, ministro conversa com representantes do partido e dos movimentos sociais

Alexa Salomão, Ricardo Grinbaum , O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 21h44

SÃO PAULO - O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, esteve nesta segunda-feira no Instituto Lula, em São Paulo, e durante mais de duas horas falou sobre o desempenho da economia para integrantes do PT, lideranças sindicais, além da diretoria do instituto. Na plateia, entre os presentes, estavam o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e Rui Falcão, presidente nacional do PT. Ambos têm feito críticas contra a atual política econômica, em especial contra o ajuste fiscal e a gestão de Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda.

A apresentação de Barbosa, a qual o Estado teve acesso, trazia mais de 30 tabelas para mostrar a evolução da economia. Um dos dados que chamam a atenção é o desempenho da receita do governo federal, em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB), sem incluir a arrecadação da Previdência. A projeção é que a receita feche o ano em 13,4% do PIB, igual ao resultado de 2014. Sendo assim, a receita de 2015 vai se equiparar à de 2001, quando a arrecadação federal foi de 13,6% do PIB. 

O argumento do governo para defender os cortes e o ajuste fiscal é que é praticamente impossível que, no curto ou médio prazo, a receita volte ao patamar elevado registrado entre 2002 e 2007, quando Lula era presidente. Naquele momento, o boom global na compra de matérias-primas elevara a exportação de produtos como minério de ferro e petróleo, engordando a coleta de impostos federais. Em 2007, a arrecadação federal chegou a 15,4% do PIB. Ou seja, o atual governo vai ter algo como 2 pontos porcentuais do PIB a menos no caixa.

Para complicar, o governo enfrenta dificuldades para votar itens importantes do ajuste, como a volta da CPMF. Segundo o Estado apurou, já avalia, inclusive, rever a meta do resultado primário (sem levar em conta os gastos com juros) das contas públicas. Estaria considerando, inclusive, assumir um déficit em 2015. 

Mesmo assim, sindicalistas e políticos ligados ao PT reclamam que está complicado apoiar um ajuste que leva ao "arrocho." Quem participou do encontro diz que o tom foi de questionamento. Lula mais ouviu do que falou, mas ao se manifestar disse que o governo precisa "propor alternativas para o crescimento" e buscar um "novo olhar sobre o País." 

Barbosa é velho conhecido no Instituto Lula. Foi integrante do grupo para quem proferiu a palestra nesta segunda. Frequentou as reuniões da entidade no intervalo em que esteve afastado do governo. Em junho de 2013, ele deixou o cargo de secretário executivo do Ministério da Fazenda. Retornou apenas neste ano, como ministro do Planejamento. Depois de assumir a pasta, participou de apenas uma reunião no Instituto.

Quem acompanha a rotina por lá, diz se tratar de "coincidência" Barbosa se manifestar justamente após Lula e Rui Falcão falarem na saída de Levy da Fazenda. Fontes ligadas ao PT dizem que Barbosa já havia sido convidado para proferir palestras, mas que não conseguiu se afastar de Brasília porque é muito requisitado pela presidente Dilma Rousseff. Teria conseguido agenda nesta segunda porque Dilma está fora do País. 

Mudanças. Ao deixarem o encontro, lideranças de movimentos sociais manifestaram apoio a Rui Falcão, em sua fala recente por mudanças na política econômica. "Estamos com Rui", disse João Paulo Rodrigues, líder do Movimento dos Sem Terra. Também estavam presentes o dirigente estadual, Emídio de Souza; o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad; o de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho; o líder do MST, Gilmar Mauro; Rafael Marques, do sindicato dos Metalúrgicos do ABC; o deputado federal do PT Arlindo Chinaglia, entre outros.

Na saída, Barbosa falou com a imprensa. Reforçou que "faz parte da política econômica ouvir todas as pessoas" e que "o Partido dos Trabalhadores, o presidente Lula, as lideranças presentes também representam uma parte importante da população." Também explicou que fora ao instituto "ouvir as críticas e sugestões e também apresentar ações, justificar o que estamos fazendo, e ouvir ideias novas."

Barbosa defendeu a importância da CPMF para reforçar a arrecadação. Também falou que o Executivo trabalha em reformas estruturais. Destacou que o governo está trabalhando "para a retomada do crescimento", puxada pelo investimento. "O primeiro passo é estabilizar a situação macroeconômica." Segundo o Estado apurou, já há esboço para uma reforma da Previdência, que começaria com a elevação da idade mínima para a aposentadoria. /COLABORARAM RICARDO LEOPOLDO E ANA FERNANDES 

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