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Em forma de ‘L’

Depois da divulgação, na semana passada, de resultados bastante negativos em abril e maio, o pessimismo com o futuro da economia subiu mais um degrau. Indicações de maior contração trazidas pelo IBC-Br de abril, o índice mensal de atividade econômica calculado pelo Banco Central como uma espécie de prévia das variações do PIB, juntaram-se aos sinais também ruins do IPCA-15 de junho, que antecipa a inflação do mês, e aos números idem do mercado de trabalho formal em maio, ajudando a deteriorar ainda mais as expectativas.

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2015 | 03h00

O clima tem piorado, se é que isso é possível, com os sinais de que o governo ensaia rever a meta de superávit fiscal fixada para este e o próximo ano, em razão da frustração já perceptível na arrecadação e da resistência do Congresso em reduzir despesas, inclusive na Previdência. Com a eventual diluição no tempo do esforço de reequilíbrio das contas públicas que isso acarretaria, aumenta, na visão de muitos, o risco da perda do grau de investimento que as agências de rating ainda concedem aos títulos emitidos pelo Tesouro e, de carona, ao conjunto dos papéis de dívida privados.

É nesse quadro já bastante adverso que se somam outras dificuldades, principalmente de natureza política, que operam contra o equacionamento e a reversão dos desajustes, impedindo uma retomada mais rápida e mais consistente da economia. Desde a instalação de seu segundo mandato, obtido por margem estreita de votos à custa da negação de problemas hoje escancarados, a presidente Dilma Rousseff enfrenta a hostilidade dos partidos que formam a sua dita base aliada, incluindo resistências não só no próprio PT, partido pelo qual foi eleita, mas também nos movimentos sociais historicamente a ele alinhados.

Não bastassem os já apontados, existem mais complicadores. No plano externo, diferentemente do ocorrido no primeiro mandato de Lula, quando, na onda de um período de farta liquidez internacional e excepcional demanda por commodities exportadas pelo Brasil, um ajuste rápido antecedeu longo período de crescimento, o contexto internacional do momento é de restrição de demanda e baixo crescimento, queda nas cotações de commodities e retração no comércio exterior, com o acirramento da competição entre exportadores. 

Fustigada, no plano interno, pelos desdobramentos do escândalo de corrupção na Petrobrás, que afeta o investimento como um todo na economia, Dilma também se vê às voltas com uma cobrança do Tribunal de Contas da União, que ameaça, de modo inédito, rejeitar as contas do último ano de seu primeiro mandato. São muitos, em resumo, os fatores que contribuem para fragilizar o governo e minar a capacidade de reação, refletidos nos recordes de desaprovação da política econômica e na instalação de forte desconfiança em relação à recuperação econômica em prazo relativamente curto.

Tudo isso ajuda a concluir que, se alguém nutria esperança de um início de retomada mais rápida e mais firme, melhor moderar expectativas, se for o caso de se prevenir para evitar decepções. As melhores projeções atuais indicam piora dos indicadores de crescimento, inflação e emprego até o início da primavera e depois uma acomodação, com ligeiro viés de alta, mas em níveis abaixo do desejável e persistente no tempo. Pode-se, enfim, imaginar que a economia brasileira descreva, na soma dos dois mandatos de Dilma, uma trajetória em forma de “L”. 

Ao longo desse período, só em um cenário benigno, mas menos provável, de recuperação mais rápida da confiança na retomada, a economia voltaria a crescer em torno de 4%, em 2017, no mesmo ritmo previsto para a economia mundial. Tanto no cenário básico, o mais provável, quanto no adverso, em que haveria perda do grau de investimento e risco de racionamento de energia, com mais chances de ocorrer do que o benigno, o PIB avançaria menos do que a média do resto do mundo.

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