No WhatsApp, a força de líderes individuais entre os caminhoneiros

No WhatsApp, a força de líderes individuais entre os caminhoneiros

Para sociólogo que estudou a Primavera Árabe, política tradicional ainda não descobriu como lidar com novo cenário criado pelas redes sociais

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2018 | 12h55
Atualizado 28 Maio 2018 | 23h29

Em mais de 20 anos de liderança, o presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), José Araújo Silva, o China, diz que nunca viveu situação semelhante e não faz ideia de como o governo vai resolver a greve. “Virou uma situação sem controle”, diz ele. Nos 15 pontos de paralisação sob a bandeira da entidade, nenhum quis encerrar os protestos, apesar das ponderações de China sob o acordo anunciado pelo presidente, Michel Temer.

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Para ele, uma das marcas dessa greve é ampla utilização do WhatsApp, que criou um “monte de líderes” no movimento. Ao contrário do que ocorria em paralisações passadas, desta vez a voz do sindicato e das entidades de classe tem sido questionada e abafada pela disseminação das opiniões no aplicativo. Nos últimos dias, a cada anúncio do governo, milhares de caminhoneiros tinham respostas imediatas em mensagens disparadas nos grupos da categoria.

O sociólogo Massino Di Felice, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor de vários livros sobre comunicação digital, afirma que esse é o resultado de uma grande passagem para o que ele chama de democracia direta. Por meio dos grupos de WhatsApp, as pessoas passam a organizar as informações sem a necessidade de um representante. 

“Ninguém representa ninguém. Todos podem emitir suas opiniões e organizar as informações”, diz ele, que estudou os protestos da Primavera Árabe, em 2010, no Oriente Médio, e as manifestações no Brasil, em 2013, organizados pelas redes sociais. Na avaliação do sociólogo, o problema é que a política tradicional ainda não descobriu uma forma de lidar com esse novo cenário.

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As últimas ações do governo mostram uma dificuldade enorme para controlar a situação já que os manifestantes não se sentem representados pelas lideranças. Ontem, nos grupos de WhatsApp, os caminhoneiros chamavam os representantes que aceitaram o acordo de traidores e excluíram a atuação de cada um deles. “Se renderam e se venderam”, afirmava um participante, em áudio. Na mensagem, o manifestante incitava os demais para se juntarem e “darem um pau” no sindicalista. 

China, da Unicam, afirma que a situação foi agravada pelo descaso dos governos em relação aos motoristas de caminhões. “Nos últimos anos, passo, pelo menos, dois dias em Brasília para tentar criar um marco regulatório para o setor e nada foi decidido. Agora o governo tem um abacaxi no colo para resolver.” Junta-se a isso o fato de os caminhoneiros sentirem que tem o poder nas mãos. Isso está claro nos grupos de WhatsApp. 

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A cada concessão que o governo faz uma nova reivindicação surge nas redes. Ontem, a justificativa dos participantes era de que a greve ia continuar por que as medidas do governo atingiam apenas o diesel e não a gasolina – o que não estava contemplado nos pedidos iniciais. “Não podemos deixar o povo na mão. Se reduzir o diesel, o governo vai pesar no preço da gasolina e punir a população que nos ajudou tantos nas estradas.” 

Com a queda do apoio da sociedade à greve, ontem a estratégia nos grupos era tentar mostrar que tudo estava sendo feito por um Brasil melhor, para beneficiar toda a população. E isso só aconteceria com uma intervenção militar. Para isso, eles apelam para que o povo faça sacrifícios. “Não custa ficar quatro, cinco dias sem carro”, dizia um deles, num grupo de quase 300 pessoas. Ao mesmo tempo, eles elevavam o tom em relação aqueles que tentavam retomar o transporte de mercadorias. “Nada que uma pedra não resolva; vamos apedrejar os caminhões.”

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