Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cautela com novo governo faz Bolsa cair 1% e dólar fechar a R$ 3,74

Investidores reagiram à falta de clareza sobre qual será a proposta de reforma da Previdência a ser submetida ao Congresso e à indefinição sobre quem comandará o Banco Central em 2019

Paula Dias e Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2018 | 11h01
Atualizado 07 Novembro 2018 | 19h10

O Ibovespa, principal índice de ações do País, teve dois momentos distintos nesta quarta-feira, 7, registrando alta superior a 1% pela manhã e queda na mesma proporção no período da tarde. Se na primeira etapa dos negócios os resultados da eleição parlamentar dos Estados Unidos favoreceram uma percepção mais favorável aos mercados de maneira geral, na segunda metade do pregão as incertezas e ruídos do cenário doméstico acabaram por incentivar as ordens de venda de ações. Ao final da sessão, o Ibovespa marcou 87.714,35 pontos, com baixa de 1,08%.

No mercado cambial, em dia de forte volume de negócios, o dólar também teve uma sessão volátil no País, caindo pela manhã, subindo no começo da tarde e voltando a cair em seguida, com os investidores acompanhando o mercado externo, onde a moeda americana caiu entre vários emergentes. As mesas seguem monitorando o governo de transição de Jair Bolsonaro (PSL) e continua causando desconforto no mercado as informações desencontradas da equipe, principalmente sobre a reforma da Previdência e o comando do Banco Central. No mercado à vista, o dólar fechou em baixa de 0,54%, a R$ 3,7395.

Bolsa

Contribuíram em boa parte para a virada os papéis da Petrobrás, que inverteram a alta da manhã e terminaram o dia com perdas de 2,21% (ON) e de 3,27% (PN). Ações do setor financeiro, bloco de maior peso na composição do índice, terminaram o dia com perdas que superaram os 3%, como no caso de B3 ON (-3,39%).

"Não houve um fator macro que tenha justificado as oscilações no dia, mas houve muito ruído interno, uma vez que o mercado não vê muita clareza sobre o que será o novo governo. Há declarações desencontradas na equipe e o fato é que o mercado não sabe bem como será a política econômica", disse Camila de Caso, economista da Spinelli Corretora.

Camila chama a atenção para o fato de o Ibovespa ter andado na contramão dos demais mercados acionários pelo mundo hoje, tanto entre os emergentes como entre os desenvolvidos. No final da tarde, o MSCI Emerging Markets, que mede a variação dos índices de ações de 24 países emergentes, tinha ganho de 1,64%. 

Outro fator que contribuiu para as incertezas ao longo do dia foram as especulações em torno da permanência de Ilan Goldfajn na presidência do Banco Central. Ele evitou falar com a imprensa na saída da reunião que teve à tarde com lideranças de partidos na Câmara, onde foi tratar sobre o projeto de autonomia do Banco Central. No encontro, o presidente do BC fez um apelo para que os deputados avancem na discussão.

Na avaliação do chefe de análise de uma grande casa ouvido pelo Broadcast, a votação da autonomia do BC ainda neste ano tem potencial significativo para renovar o otimismo do mercado neste período pós eleição, uma vez que a aprovação da reforma da Previdência no curto prazo é algo considerado de possibilidade muito pequena. "Entre as questões com chances reais de serem aprovadas este ano, a autonomia do BC é a que tem poder para manter a chama acesa (do otimismo) no mercado", afirmou.

Mesmo com as últimas duas quedas (-1,04%), o Ibovespa contabiliza ganho nominal de 6,55% em 30 dias e de 14,81% no acumulado de 2018.

Dólar

Quando o dólar bateu na máxima do dia, a R$ 3,78, operadores relatam que exportadores entraram no mercado vendendo a moeda, o que ajudou na virada. Pela manhã, na mínima do dia, a R$ 3,7233, houve um movimento de compra por importadores, o que contribuiu para a queda da moeda perder força. No mercado externo, o dólar caiu ante a maioria dos emergentes, com as principais exceções ficando com o México e a Argentina. Mais cedo, este movimento da moeda americana ante o peso mexicano e o peso argentino chegou a pressionar o câmbio aqui, mas perdeu força na parte da tarde.

O Congresso dividido nos Estados Unidos, após a conquista da Câmara pelos democratas, com os republicanos permanecendo no Senado, deve enfraquecer o dólar no mercado internacional pela frente, avaliam os estrategistas do Morgan Stanley em relatório. O resultado da eleição veio dentro do esperado, mas a tendência é que a divisão do Congresso dificulte o avanço de mudanças mais significativas propostas por Donald Trump. Ao mesmo tempo, o banco americano ressalta que a tendência é que a trajetória da política comercial e fiscal da Casa Branca provavelmente vai permanecer inalterada.

No Brasil, seguiu causando ruídos no mercado a dificuldade do governo de Bolsonaro em mostrar um discurso mais claro sobre a reforma da Previdência. Na avaliação do sócio-diretor da Schwartsman & Associados, Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, o mercado estava muito otimista e agora começa a ver o "tamanho da encrenca", com a dificuldade do governo em definir a estratégia para a Previdência. "Tem vários ruídos nesta história", disse ele, destacando que é relativamente recente a mobilização por parte do Bolsonaro e seu economista, Paulo Guedes, para aprovar a reforma da Previdência proposta por Michel Temer. A proposta foi recentemente criticada pelo futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Com isso, ressalta o economista, fica difícil ter uma visão clara de qual empenho ele teria para aprovar as medidas agora.

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