Reuters e Mindaugas Kulbis/AP
Reuters e Mindaugas Kulbis/AP

Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

Em março, dólar e euro estabelecem novo patamar, atingindo R$ 5 pela primeira vez

Moedas americana e europeia estabeleceram respectivos novos patamares nominais - quando não se desconta a inflação - na primeira quinzena deste mês

Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 08h00

Neste mês de março de 2020, em meio ao caos econômico que o mundo se encontra por conta da pandemia do novo coronavírus, causador da covid-19, tanto dólar (moeda dos Estados Unidos) e euro (moeda da União Europeia) ultrapassaram, pela primeira vez, desde o início do Plano Real, em 1994, o patamar de R$ 5. 

Ambas as moedas têm valorização superior a 25% neste ano. No caso do dólar, 29%, e, para o euro, 26%. A primeira vez que o dólar alcançou R$ 5 foi em 12 de março, quando, logo na abertura das negociações, a cotação chegou a R$ 5,02. O primeiro dia que a moeda americana fechou acima de R$ 5 foi no dia 16. Após isso, o recorde nominal, quando não se desconta a inflação, foi estabelecido dois dias depois, em 18 de março, quando a cotação atingiu R$ 5,2570. Além disso, o dólar ainda sofre com uma volatilidade muito alta. Depois de bater em R$ 5,25, a moeda americana chegou a voltar ao patamar de R$ 4,97 no meio do mês. Mesmo assim, no último dia do mês, flutuou na casa de R$ 5,20, fechando em R$ 5,19. 

Já o euro atingiu esse patamar um pouco antes em relação ao dólar. Foi no dia 2 de março. Sendo que, a primeira vez em que se fechou as negociações com o euro acima de R$ 5 foi no dia seguinte, 3 de março. O maior valor já registrado para a moeda europeia, nominal, foi registrado em 31 de março, quando a cotação bateu em R$ 5,7489. 

De acordo com o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, há três pontos para levarmos em consideração na explicação sobre a depreciação do real frente a essas moedas. O primeiro deles é que, quando há uma aversão ao risco, ou seja, receio de adquirir ativos que podem dar prejuízo, os investidores buscam coisas mais seguras, como dólar e ouro.

Neste momento, a aversão se dá muito por conta das incestezas do mercado frente ao avanço do novo coronavírus. Ainda não se sabe quanto tempo a pandemia vai durar e quais os impactos efetivos nas economias globais. Essa incerteza fica nítida quando se observa o efeito de "sobe e desce" das Bolsas, tanto no Brasil, quanto nos mercados internacionais. 

O segundo motivo, segundo ele, é a saída em massa de investidores estrangeiros do país. Somente nos últimos três meses, de acordo com informações do Estadão/Broadcast, R$ 60,5 bilhões saíram da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3

O terceiro, que também causa saída de investidores do País, é a política monetária mais expansionista, quando se baixa juros, por exemplo, que vem sendo adotado pelo Banco Central há um tempo. Por conta da covid-19, houve uma necessidade de reação por parte do BC, que baixou ainda mais a Selic, que chegou a 3,75%, menor patamar histórico, para que haja estímulos a empresários. "Estimamos que o Copom baixe até o fim do ano a taxa para 2,5% ao ano", diz Arbetman. "A moeda depreciada veio pra ficar e será uma companheira na nossa recuperação econômica", ressalta. "O novo tripé econômico nacional compreende juros baixos, inflação baixa e moeda depreciada", completa. 

O gestor da Rio Verde Investimentos, Eduardo Cavalheiro, explica que, no mercado financeiro, a depreciação do real afeta estratégias de investimentos. Segundo ele, ativos comprados em dólar têm ganhos com essa subida, mas, para os vendidos em dólar, há perda de dinheiro. "Vale ressaltar que o mercado financeiro brasileiro não é muito exposto à moeda estrangeira, uma vez que a maior parte do financiamento da dívida do tesouro é feita em reais", conta. 

Além disso, há um efeito semelhante para exportação e importação. Quem exporta, logo, recebe em moeda estrangeira, é beneficiado, pois, na hora de pegar os ganhos em real, terá mais vantagem. Agora, para quem compra em dólar ou euro, importação, fica no prejuízo, já que tudo acaba ficando mais caro. 

Parceria com a China 

Há motivos adicionais, segundo Arbetman, da Ativa, para o País estar afundando um pouco mais na depreciação do câmbio e na Bolsa, com quedas relevantes. Uma delas é a dependência comercial com a China, maior parceira comercial do Brasil. A retomada no país asiático está começando agora, mas ainda não há uma certeza de quanto tempo vai demorar para se recuperar totalmente. Lá, houve os primeiros casos de covid-19 do mundo, em Wuhan. O outro ponto é, de acordo com ele, atraso para passar reformas. "Estamos em abril e que passo foi dado esse ano ?", questiona. 

Inflação 

Além de tudo colocado, há  um impacto na inflação. Se os preços ficam mais caros, consequentemente, pode haver uma puxada para cima da inflação, se isso persistir por um período mais longo. De acordo com Arbetman, da Ativa, quando a poeira se assentar, ou seja, quando se tiver maior noção dos impactos da pandemia e de quando ela vai começar a acabar, o dólar deve reduzir um pouco a alta, atingindo algo em torno de R$ 4,70, mas não vai chegar ao patamar anterior da crise, que era por volta de R$ 4,20. No começo do ano, para se ter uma ideia, a moeda era cotada próxima de R$ 4. 

Petróleo 

Um outro ativo que pode ter incidencia na inflação é o petróleo, que vem baixando de preço nas últimas semanas. Na segunda-feira, 30, o preço do barril do tipo WTI chegou a ser cotado abaixo de US$ 20. No início do ano, estava cotado próximo a US$ 60. A desvalorização chega a 65%.  Com o óleo tipo Brent não é diferente. A faixa de cotação para esse índice nesta segunda-feira é de, aproximadamente, US$ 25. No começo do ano, era US$ 64, uma perda de 60% somente neste ano.

Há, basicamente, dois motivos principais para o que está acontecendo com os preços. O primeiro deles é o coronavírus, o segundo é a 'guerra de preços' entre Arábia Saudita e Rússia

Quando o coronavírus começou a impactar os preços da commodity, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) propôs um acordo: reduzir a produção para segurar os preços - se há uma proudução menor, quando a demanda cai, o preço não cai (ou cai menos), porque não há estoque elevado. Mas a Rússia, grande produtora, não quis entrar nesse acordo. Em retaliação, a Arábia Saudita fez duas coisas: reduziu os preços de exportação, na época, em 10%, e ainda aumentou a produção - o que acarretaria em maior queda nos preços. 

Essa queda nos preços afeta a Petrobrás, estatal brasileira focada na commodity. Além de perder valor de mercado, por conta da queda nas ações, ainda há redução nos preços de gasolina e diesel, por exemplo, o que pode, no longo prazo, puxar a inflação para baixo. 

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