Em meio a avanço da concorrência, Bradesco precisa definir sucessão

O atual presidente, Márcio Cypriano, completou 65 anos e, pelo estatuto, deve deixar o cargo até 10 de março

Leandro Modé e David Friedlander, O Estadao de S.Paulo

27 Dezembro 2008 | 00h00

O Bradesco enfrenta, a um só tempo, dois desafios de proporções gigantescas: reagir à fusão entre Itaú e Unibanco, que lhe roubou 47 anos de liderança no ranking dos bancos privados brasileiros, e definir a sucessão do atual presidente, Márcio Cypriano. Ele completou 65 anos em novembro e, pelo estatuto, deve deixar o cargo até março. Mudar de comandante no meio do mais potente ataque já sofrido em quase 66 anos de história - além do Itaú-Unibanco, tem de lidar com a aproximação do Santander Real - não é algo simples. Por isso, embora a sucessão seja um assunto proibido pelos lados da Cidade de Deus, onde fica a sede do Bradesco, fontes dizem que vem ganhando força a seguinte hipótese: uma alteração nas regras atuais para garantir a Cypriano mais alguns anos de mandato. "A mudança de estatuto é o mais provável", afirma o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues. Embora sua empresa seja uma classificadora de risco de crédito corporativo, Rodrigues é considerado um dos maiores especialistas do País em setor bancário. João Augusto Frota Salles, analista da Lopes Filho & Associados, lembra que, sob a liderança de Cypriano, o Bradesco conseguiu uma "valorização excepcional" no mercado. "Antes dele, as ações do banco eram muito descontadas em relação à de seus principais concorrentes", afirma. "Cypriano engajou-se pessoalmente para melhorar a governança." Procurado, o banco preferiu não se pronunciar sobre o assunto. Por causa da crise, todos as ações têm sofrido pesadas perdas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Não é diferente no setor bancário. No caso do Bradesco, os papéis preferenciais (PN) acumulavam até sexta-feira uma queda de 38,1% no ano. Os preferenciais do Itaú, 25,43%. As units do Unibanco, 38,5% e as ações ordinárias do Banco do Brasil, 51,41%. Uma mudança no estatuto não seria novidade no Bradesco - o recurso já foi adotado em outras duas ocasiões. No começo dos anos 70, depois de criar a tal saída compulsória por idade, o fundador e então presidente da instituição, Amador Aguiar, fez uma manobra para continuar no comando do banco. A regra inventada por ele mesmo só não valeria para os diretores presentes àquela reunião. Além de Aguiar, estava lá seu sucessor, Lázaro de Mello Brandão. Nos anos 90, foi o próprio Brandão que mexeu no estatuto para ficar mais tempo na presidência-executiva. Na ocasião, a mudança provocou a saída de Alcides Tápias do banco, então vice-presidente e candidato mais cotado para suceder Brandão. Pelo rito oficial, a definição do presidente-executivo deve ser feita por meio de votação entre os membros do conselho administrativo, em assembléia marcada para 10 de março (data da fundação do banco). Mas, no Bradesco, todo mundo sabe que o critério de escolha é outro. "O próximo presidente-executivo será escolhido por três nomes: Lázaro, Mello e Brandão", brincam executivos do banco, evocando o nome completo do atual presidente do conselho de administração. A escolha, na realidade, precisa sair do entendimento entre Brandão e Cypriano. O comportamento dos demais conselheiros na assembléia do dia 10 de março deve ser apenas protocolar. Se a mudança no estatuto não vingar, dois nomes aparecem com força na fila sucessória: Luiz Carlos Trabuco Cappi, o favorito de Brandão, e José Luiz Acar Pedro, homem de confiança de Cypriano. O favorito de Brandão, hoje, parece ser o favorito de fato. CANDIDATOS Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), Trabuco, 57 anos, é presidente da Bradesco Seguros, a maior seguradora do País - responsável por pouco mais de um terço do lucro do banco. Cria da casa, ele conhece bem a filosofia do banco e teve passagens bem-sucedidas por várias áreas. Foi diretor de marketing e presidente da área de previdência. Com 39 anos de banco, Trabuco sempre trabalhou perto da diretoria e despachava perto do Brandão. Acar, 55 anos, era da equipe do BCN, comprado pelo Bradesco em 1997. Quando o BCN foi incorporado, a direção do Bradesco encarregou Cypriano de fazer o trabalho de integração. Acar foi seu braço direito na tarefa. Mais tarde, repetiu a dose quando o chefe foi presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Lázaro Brandão também gosta dele. A única dúvida a respeito de Acar, de acordo com analistas, é que sua carreira foi construída na área administrativa e talvez nesta hora o Bradesco precise de alguém com mais traquejo na área comercial, segmento em que Trabuco já está suficientemente treinado. Um nome que corre por fora, na opinião dos analistas, é o do presidente da Vale, Roger Agnelli. Apesar de ter negado, em entrevista ao Estado, a possibilidade, Agnelli não deve, segundo analistas, ser inteiramente descartado. "Ele tem o perfil de governança que o Bradesco precisa neste momento. Além disso, sabe vender", diz um experiente profissional. Ele observa, ainda, que Agnelli foi escolhido para comandar a Vale em 2001 pelo próprio Bradesco, um dos principais acionistas da mineradora. "Isso significa que ele tem uma dívida de gratidão com o banco e, caso seja convocado para a tarefa, tem de aceitá-la." Não se pode descartar, ainda, o anúncio de uma surpresa. Quando Márcio Cypriano foi escolhido sucessor de Brandão, em 1999, ninguém apostava em seu nome. Seja quem for o eleito - ou reeleito -, uma coisa é certa: terá pela frente a tarefa de reposicionar o Bradesco para jogar um jogo ao qual não estava acostumado. Depois de quase cinco décadas vendo a concorrência pelo retrovisor, a instituição terá agora de perseguir o Itaú-Unibanco. Cypriano nega publicamente que a liderança seja um objetivo. Mas a Missão do Bradesco, descrita no site e afixada nas mais variadas dependências da instituição, não deixa dúvidas. "Nosso principal objetivo é consolidar nossa posição como a principal instituição financeira privada no mercado brasileiro, que presta uma gama completa de serviços, aumentando nossa rentabilidade, maximizando valor para nossos acionistas e gerando um retorno acima da média em comparação com outras instituições do setor financeiro brasileiro."

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