Bruno Kelly/Reuters
Bruno Kelly/Reuters
Imagem Elena Landau
Colunista
Elena Landau
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Em meio à covid, Brasil está na barriga da miséria

O novo vírus achou terreno fértil num País onde metade da população vive no esgoto

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 04h00

Terminei de ler Torto Arado. Não é um livro que se queira desapegar, nem chegar ao final rapidamente para desvendar mistérios. Cada página está cheia de histórias, escritas lindamente, contrastando com aridez da vida de seus personagens.

Deve se passar nos anos 60. A referência ao Ford Rural me remeteu à minha infância, quando ouvi Chico cantando Morte e Vida Severina pela primeira vez. Fui apresentada a um país do qual não tinha noção. Criança da zona sul do Rio, minha realidade era outra. Como é a de boa parte da nossa elite. Enquanto milhões perdem renda e aulas por falta de celulares, outros, como alguns procuradores, acham que um iPhone SE, como instrumento de trabalho, é “uma esmola”. São os novos senhores de engenho.

Belonísia descreve assim seu entorno: “Algumas crianças pareciam com a mãe, outras com o pai, mas todas, sem distinção, carregavam as marcas de abandono: barriga grande, corpo frágil e, principalmente, tristeza e medo, que recendiam em seus olhos pela rotina de violência que tinham na própria casa”. Esse trecho me pegou. Parece que o tempo parou.

Evoluímos desde então, especialmente, com o aumento de matrículas em creches e escolas, mas as condições em que ainda vivem grande parte das crianças é inaceitável. O novo vírus encontrou terreno fértil em um país onde metade da população vive no esgoto, grande parte, despejada in natura nas vielas, ruas, córregos e rios. Para muitos, nem água nem sabão.

Saneamento traz impactos positivos na saúde, nutrição e aprendizado. Desde 1989, a ONU reconhece como direito das crianças o acesso à água, saneamento ambiental e higiene. Foi recém-aprovado um novo marco regulatório para o setor, com ele a universalização do serviço será exigida nos novos contratos. É uma esperança para mudar esse quadro que, inexplicavelmente, é aceito com naturalidade e até deboche por ninguém menos que o presidente da República, para quem “brasileiro pula em esgoto e não acontece nada”.

Ano escolar perdido e aumento da evasão no ensino médio são outras tragédias. Diferenças no acesso à conectividade e tabletes, restrição orçamentária para manter pacote de dados, pouca disponibilidade de pais e mães para se dedicarem aos filhos e, principalmente, a falta de coordenação do governo federal com Estados e municípios aprofundaram as discrepâncias entre ensino público e privado. O impacto não é só no curto prazo; inclusão e mobilidade social sofrem um golpe quase irremediável e o retrocesso na qualificação de capital humano compromete crescimento e emprego.

Praias, bares, cultos religiosos, até jogo de futebol, são atividades essenciais. Educação não, essa pode esperar. A resposta a este desafio não é trivial, e ficar de braços cruzados à espera da vacina é uma não solução. A pandemia se agravou e a volta às aulas pode ser interrompida, a qualquer momento, sem que se tenha nem sequer um desenho de políticas públicas para atenuar as discrepâncias sociais.

Para mulheres foi um ano desastroso. O fechamento das escolas mais o distanciamento social foi uma combinação fatal. Na classe mais rica, muitas abandonaram os empregos ou foram para o home office e tiveram sua atividade afetada pela necessidade de assumir o cuidado com os filhos e a casa. Ainda não há, por aqui, a divisão de trabalhos domésticos entre os casais.

Nas de baixa renda, o impacto foi mais profundo. Além da jornada dupla, perderam renda e emprego. A atividade no setor de serviços, onde as mulheres têm forte presença, foi a mais afetada. Muitas, sejam empresárias ou empregadas, ficaram sem fonte de renda.

Em 2020, mulheres registraram a menor participação na força de trabalho desde 2012 – 45,8% –, bem abaixo de sua representação no total da população. Milhares de vagas de trabalho foram suprimidas. Mais da metade das mulheres, que passaram a trabalhar em casa, tiverem de assumir “funções femininas”. Como no livro, trabalham na roça e no lar.

Como se não bastassem todos esses problemas, a violência doméstica aumentou. O perigo maior está dentro de casa, as agressões partem do companheiro ou de um ex, inconformado com o fim do relacionamento. Atinge mulheres de todas as classes. Obrigadas a conviver em confinamento com agressores, viram os abusos aumentarem e o feminicídio, último elo da cadeia, cresceu.

Quando comecei esta coluna, não havia me dado conta de que seria publicada pouco antes do Dia Internacional das Mulheres. Coincidência ou não, talvez Donana, Salu, Bibiana, Belô e Miúda tenham tocado minha cabeça e me encantado.

Então, para celebrar a data, mais um trechinho da obra de Itamar Vieira Junior: “Cada mulher sabe a força da natureza que abriga na torrente que flui de sua vida”. Foi assim que muitas sobreviveram à tragédia destes tempos.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.