Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Crise turca contamina emergentes e faz Argentina elevar juros para 45%

Medidas anunciadas pelo Banco Central da Turquia não foram suficientes para acalmar o mercado e conter a alta do dólar; no Brasil, a moeda americana fechou em R$ 3,88 e, na Argentina, superou os 30 pesos, levando o governo a anunciar pacote

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2018 | 13h49

A instabilidade financeira da Turquia voltou a assustar os mercados, nesta segunda-feira, 13, levando a mais um dia de valorização do dólar, principalmente, em relação às moedas emergentes. No Brasil, a moeda americana atingiu a cotação máxima de R$ 3,92 no início da tarde e fechou o dia em R$ 3,88, uma alta de 0,53%. Na Argentina, os reflexos foram mais graves. O dólar superou os 30 pesos. Para conter o derretimento da moeda, a autoridade monetária elevou o juro básico em cinco pontos porcentuais, para 45% – a maior taxa do mundo. 

A escalada da tensão no mercado financeiro argentino ocorre também porque, nesta terça-feira, 14, vencem títulos do Banco Central que somam US$ 500 bilhões. Há uma preocupação com a possibilidade de não haver interesse na renovação da dívida, o que pode desvalorizar o peso argentino ainda mais. 

Nesta segunda, o Banco Central da Turquia anunciou que adotará “todas as medidas necessárias” para evitar a desvalorização da lira turca, a moeda nacional, mas não dirimiu as dúvidas crescentes dos investidores sobre os riscos de contágio de países emergentes e da Europa em caso de agravamento da crise. 

A principal preocupação de economistas e investidores europeus é com o nível de exposição de bancos do continente. Só as instituições financeiras das cinco maiores economias europeias – Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha – têm € 171 bilhões investidos no país.

A lira é alvo de um ataque especulativo que tem ao mesmo tempo razões econômicas estruturais, como a forte inflação anualizada – de 16% em julho – e o déficit em contas correntes, além de problemas políticos conjunturais. O último deles é o confronto entre Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan, que criou a principal causa de turbulência recente: o aumento das tarifas para importação de aço e alumínio do país por parte dos EUA, medida tomada em retaliação à prisão do pastor evangélico americano Andrew Brunson, preso pelo regime turco desde 2016, acusado de espionagem e terrorismo. 

A decisão de Trump de dobrar as barreiras alfandegárias causou princípio de pânico no mercado de câmbio, quando a lira perdeu 16% de seu valor frente ao dólar. “A moeda da Turquia continua em rota de depreciação. Embora a deterioração das relações com os EUA tenha sido um catalisador, em muitos aspectos trata-se de uma crise monetária convencional e que já vem ocorrendo há algum tempo, culminando com a erosão da credibilidade política”, disse o economista Michael Cahill, do Goldman Sachs.

Nesta segunda, para estancar a crise, a autoridade monetária prometeu dar “toda a liquidez necessária” aos bancos do país para tentar frear a desvalorização da moeda, que caiu 40% frente ao dólar e ao euro em 2018. Uma primeira medida foi reduzir as reservas obrigatórias dos bancos de forma a liberar liquidez ao sistema financeiro. O BC turco anunciou ainda que injetaria US$ 6 bilhões e mais o equivalente a US$ 3 bilhões em ouro nas instituições.

Mas as dúvidas continuam. “A redução das reservas obrigatórias permite colocar alguns bilhões no mercado, mas em relação ao déficit corrente da economia turca, da ordem de US$ 60 bilhões, é uma gota d’água no oceano”, disse Deniz Akagul, professor de Economia da Universidade de Lille.

Em um ano, a lira perdeu 46% de seu valor frente ao euro, dos quais 24% nos últimos dias. Desde a crise financeira de 2001 a situação não era tão inquietante aos olhos de investidores europeus. O mercado financeiro teme os efeitos de uma eventual bancarrota dos bancos turcos sobre instituições europeias. Entre os bancos mais expostos estão o francês BNP Paribas, o italiano UniCredit e o espanhol BBVA. Só nas instituições espanholas, os empréstimos de bancos turcos somam US$ 80 bilhões.

Relembre

Entre 27 de abril e 3 de maio, o Banco Central aumentou a taxa básica de juros de 27,5% para 40% na Argentina. Ao todo, foram três anúncios de alta em um intervalo de oito dias, todos pegando os investidores de surpresa.

O Banco Central argentino vinha perdendo credibilidade desde o fim de dezembro, quando a equipe econômica de Macri anunciou que deixaria de perseguir uma inflação ao redor de 10% e passaria a ter 15% como meta, em uma tentativa de aumentar o ritmo de crescimento da economia.

A avaliação de que os déficits das conta pública e das contas externas continuam altos é foi um dos principais fatores para alta do peso ante o dólar.

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