WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Desde os 16 anos, Marcos Paulo Viana só tinha trabalhado na panificadora do pai; agora, está na construção civi WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Em meio a desemprego recorde, País tem ‘bolsões de vagas’ não ocupadas

Faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores para funções básicas na construção civil; na agropecuária e no setor de prestação de serviços a empresas, dificuldade de preencher todos os postos se repete e há até leilão de salários

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 14h00

Em meio a 14,8 milhões de brasileiros desempregados – a maior marca desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE em 2012 – há setores que estão contratando e vivem uma realidade completamente diferente da que predomina no País. Na construção civil, faltam pedreiros, azulejistas e outros trabalhadores para preencher vagas em funções básicas. No campo, ocorre um verdadeiro leilão de salários para admitir vaqueiros e operadores de máquinas, por exemplo. E, com o avanço da digitalização das atividades em razão da pandemia, empresas de serviços de logística e de tecnologia viraram grandes demandantes de mão de obra.

Os bolsões de aquecimento do mercado de trabalho com e sem carteira assinada estão concentrados em praticamente três de dez setores da economia – agropecuária, construção civil e nos serviços prestados a empresas –, revela um estudo feito pela consultoria IDados, a pedido do Estadão, com base na PNAD Contínua. Em maio deste ano, a construção civil empregava quase 12% a mais de trabalhadores do que em maio de 2020, no auge da crise sanitária. Em seguida vem a agropecuária, com avanço de cerca de 10% no pessoal ocupado, na mesma base de comparação. Por fim, estão os serviços prestados a empresas, que registraram perto de 6% de crescimento.

“É uma recuperação frágil do mercado de trabalho, já que muitos setores hoje não têm aumento na ocupação em relação ao auge da crise, em maio de 2020”, afirma Bruno Ottoni, economista da consultoria IDados e responsável pelo estudo. Ele ressalta que cinco setores têm queda da ocupação e dois – emprego doméstico e indústria – permanecem estáveis na comparação com maio de 2020. Também em relação ao período pré-pandemia, maio de 2019, quando o desemprego já era elevado, a maioria dos segmentos continua com o nível de ocupação no vermelho.

Pesquisa da PwC Brasil, firma de consultoria e auditoria, feita com 62 empresas de 16 segmentos, entre outubro de 2020 e março deste ano, confirma os resultados do estudo do IDados. A enquete revelou que 79% das companhias aumentaram os quadros e o crescimento foi de até 30% nas contrações, impulsionadas pelo agronegócio e empresas de tecnologia. “O resultado surpreendeu positivamente, quando a gente vê os índices de desemprego”, diz Flávia Fernandes, sócia da PwC. Juntos, os segmentos de tecnologia e agronegócio representam cerca de um terço da amostra.

Ocupação no campo cresce sete meses seguidos 

Impulsionada pelo boom das commodities, a ocupação na agropecuária está aquecida. Além de superar o auge da crise, o nível hoje é maior do que o registrado em maio de 2019, período pré-pandemia. Atualmente há  8,7 milhões de pessoas trabalhando no campo e a ocupação vem crescendo por sete meses seguidos na comparação anual.

 

“Com o aumento da cotação da soja e do boi, produtores estão ampliando as safras e os rebanhos. Com isso, aumentou muito a demanda por mão de obra, inclusive com leilão de salários e crescimento da rotatividade de trabalhadores”, afirma Jaqueline Lubaski, sócia da consultoria de Recursos Humanos Destrave Desenvolvimento.

Ela, que há 25 anos atende a grandes empresas do agronegócio no Centro-Oeste, em São Paulo e na região Norte, nunca havia presenciado um aumento generalizado da procura por trabalhadores: do gerente ao vaqueiro. “Estamos desesperados porque não temos vaqueiros – a pessoa que monta a cavalo e lida com o boi no pasto –, nem capataz – o chefe dos vaqueiros.”

Um ano atrás, o salário de um capataz no Centro-Oeste estava em R$ 2,5 mil, com moradia, água, luz, internet. Hoje Jaqueline conta que oferece R$ 3,5 mil, mais vale alimentação de R$ 618, e não consegue contratar. “Tenho várias vagas em aberto.”

A pecuária é o segmento mais crítico de falta de mão de obra no agronegócio, diz a consultora. Como sempre pagou salários menores do que a agricultura, sofre a concorrência das lavouras, onde as condições de trabalho para operar uma colheitadeira com ar condicionado, por exemplo, são muito melhores do que tocar a boiada no lombo do cavalo sob um calor de 40 graus.

O produtor Guilherme Pinezzi Honório, com quatro fazendas de gado e grãos na região do Vale do Araguaia, no Mato Grosso, ressalta que a situação é mais crítica nas áreas de fronteira agrícola, onde ele está. “Esse é um problema que eu vivo na pele.” A mão de obra está tão escassa no momento na sua região que até operadores de máquinas  não tão qualificados conseguem uma oferta para ganhar mais. “A mão de obra deu uma inflacionada.”

Sem parar.

Na construção civil, especialmente na capital paulista, o quadro não é diferente. Empreiteiras da cidade de São Paulo, que virou um grande canteiro de obras na pandemia, enfrentam a falta de pedreiros, encanadores, eletricistas, carpinteiros, armadores, operadores de guinchos, conta o, vice-presidente de Relações Institucionais do Sinduscon-SP, Yorki Estefan. Ele argumenta que a demanda está sendo puxada pelo aumento do número de lançamentos na construção civil, que cresceu 183% no primeiro semestre deste ano na capital em relação ao mesmo período de 2020.

“Hoje precisamos de dez pintores e não encontramos para contratar”, afirma Gilvan Delgado, diretor e dono da empreiteira Atacama, que presta serviço às construtoras. Ele conta que muitos dos que se candidatam às vagas não são qualificados.

O reflexo da escassez aparece nos salários. “O dissídio dos trabalhadores em maio foi por volta de 7% e estamos tendo de pagar 15% para funções básicas”, explica Mario Rocha, CEO da construtora Rocontec, com 28 obras na capital. Com os prêmios, Antonio de Sousa Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), conta que atualmente há pedreiros que chegam a tirar R$ 8 mil por mês, enquanto o piso da categoria é de R$ 2.030 por 44 horas semanais.

O temor dos empresários e do sindicato é que a falta de mão de obra piore no final deste ano e início de 2022 por causa do lançamentos já engatilhados. “Estamos preocupados com apagão de mão de obra”, afirma Ramalho, do Sitracon-SP. O sindicato acaba de fechar um convênio com o Sebrae/Senai para qualificar gratuitamente 40 mil trabalhadores em 2021 e 2022 para as funções básicas da construção civil.

Negócio turbinado.

Outro setor com alta na ocupação é o de serviços prestados às empresas, que inclui logística, serviços financeiros online, Tecnologia da Informação (TI), por exemplo. No primeiro semestre deste ano, foram realizadas 100 milhões de compras no comércio eletrônico no País, com crescimento de 7% ante igual período de 2020, segundo relatório da Ebit-Nielsen. Por trás de cada transação há uma massa de trabalhadores que se ocupam desde implementar a tecnologia para o fechamento da compra online, separar os produtos e até fazer as entregas, o mais rápido possível.

O Mercado Livre, por exemplo, um dos gigantes do e-commerce e de serviços financeiros online, deve bater recorde de contratações este ano. A empresa, que fechou 2020 com 4.900 empregados diretos, hoje tem 10 mil funcionários. E a perspectiva é encerrar 2021 com 16 mil. “Crescemos muito as contratações por conta de logística, tecnologia e serviços financeiros (fintech)”, diz Patrícia Monteiro, diretora People da companhia.

Para ampliar os quadros, ela até precisou mais que dobrar o número de funcionários do seu departamento de Recursos Humanos. A diretora observa que na área de logística está mais tranquilo encontrar mão de obra. Já para os segmentos de tecnologia e serviços financeiros, a dificuldade é bem maior em razão da concorrência. “O segmento de tecnologia está mais aquecido porque empresas tradicionais estão tentando se digitalizar também.

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Brasileiro troca de área para ter emprego

Em setores onde há escassez de mão de obra, falta de qualificação não é obstáculo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 14h00

Mesmo sem qualificação adequada, trabalhadores são forçados a mudar de ramo em busca de ocupação. Setores que perderam o brilho por causa da pandemia, como comércio e serviços, são trocados pela construção, comércio online e o agronegócio.

A troca foi detectada por empregadores na hora em que recebem os currículos dos candidatos. Diante da escassez de mão de obra qualificada, investir na formação tem sido uma das saídas para preencher as vagas.

“Aumentou a migração de trabalhadores de outras áreas para construção”, afirma Gilvan Delgado, dono da empreiteira Atacama. Com déficit de mão de obra, ele contratou Marcos Paulo Viana, de 33 anos, que desde os 16 trabalhava na microempresa de panificação do pai. Inclusive, carregava no currículo só cursos desse setor.

O negócio de pão de forma integral, vendido a pequenos comércios e diretamente a consumidores, não foi para a frente quando veio a pandemia. A microempresa fechou e Viana encontrou na construção civil uma nova oportunidade.

Um ano atrás, quando começou na empreiteira, não tinha conhecimento da área. No início, trabalhava como ajudante em diversas funções para aprender. Hoje, coordena os serviços operacionais, como encarregado do controle de qualidade.

“Entrei na empreiteira achando que iria sair rápido, que seria algo transitório, mas fui aprendendo, evoluindo e crescendo”, diz. Na construção, Viana ganha quase o dobro do que tirava na panificação e planeja fazer um curso técnico na área ou até uma faculdade de Engenharia.

Esse também é o plano de Jacqueline Torres, de 27 anos. Formada em Administração, desde maio ela trabalha na área de saída de mercadorias no centro de distribuição do Mercado Livre, em Cajamar (SP). Pretende cursar uma pós graduação em logística, tema que entrou para o seu radar faz três meses.

Durante oito anos, Jacqueline foi funcionária de uma loja de calçados da rua 25 de Março, tradicional polo do comércio atacadista. “Cuidava da parte administrativa e vendia.”

Apesar do bom salário, Jacqueline decidiu procurar outro emprego, porque se via estagnada. Em 2019, conseguiu uma vaga na área de tecnologia de outra companhia, mas com a pandemia foi demitida. Depois de quase um ano procurando uma ocupação, foi admitida em março de 2021 na área de marketing de uma empresa de alimentos. Mas logo apareceu a chance de trabalhar no Mercado Livre. 

Hoje, ela coordena uma equipe de 75 pessoas, gerenciando desde a separação do pedido até a saída da mercadoria. Ganha o dobro do que recebia no último emprego e 20% a mais em relação ao salário do comércio tradicional. “Tive de aprender tudo desde o começo, foi muito rápido”, afirma. Há três meses na empresa, ela diz que parece que está há um ano, diante da carga de novos conhecimentos.

“Treinamos e formamos pessoas”, diz Patrícia Monteiro, diretora de People do Mercado Livre. Para serviços de logística, a diretora conta que tem admitido trabalhadores vindos de outros setores que não vão bem.

Mudança

Após quatro anos como motorista de ônibus em Piraju, interior de São Paulo, Antônio Márcio Sanches, de 41 anos, fez uma manobra radical: trocou o transporte coletivo pelo trator.

Com a pandemia, as viagens de ônibus diminuíram, e ele teve o contrato suspenso. Passou a receber o auxílio do governo, e a renda caiu. “Com a pandemia, ficou enrolado e sai por conta.”

Sanches conhecia o produtor rural e zootecnista Miguel Abdalla e aceitou o desafio de mudar de ramo. Pouco mais de um mês, começou a pilotar trator e colheitadeira. Decidiu ir para o agronegócio em busca de um ganho maior e conseguiu. “Tiro cerca de 50% a mais do que ganhava como motorista.”

Além da receita maior como autônomo, ele diz que o ambiente de trabalho no campo é mais sossegado. Cursando o ensino fundamental, Sanches quer fazer um curso técnico para pilotar máquina agrícola, assim como fez para dirigir ônibus.

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