B3/Divulgação
Locaweb movimentou a B3 com seu IPO antes da pandemia. B3/Divulgação

Em meio à pandemia, IPOs já movimentam R$ 25 bi e ano pode ser de recorde

Considerando apenas as aberturas de capital, seis empresas já estrearam nos últimos meses, número superior a todo o ano de 2019; 20 empresas esperam na fila

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 10h00

Mesmo diante de uma crise que eclodiu com a pandemia de covid-19 derrubando a atividade econômica do País, a Bolsa brasileira já foi palco de R$ 25 bilhões em ofertas de ações. Apenas considerando as aberturas de capital, seis empresas estrearam nos últimos meses, superando o número de ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) de todo o ano de 2019. Em volume de emissões, 2020 já passa de R$ 55 bilhões, com potencial de dobrar o valor até o fim do ano.

Entre as estreantes na B3 durante a quarentena estão Estapar, Aura Minerals, Ambipar, Grupo Soma, d1000 e Quero-Quero. No começo do ano haviam entrado na Bolsa Mitre Realty, Moura Dubeux, Locaweb e Priner, compondo assim já dez estreias de empresas na B3 em 2020. No fim deste mês, a rede de farmácias Pague Menos também fará sua tentativa. Em 2007, no último boom do mercado de capitais brasileira, foram mais de 60 IPOs, com um volume financeiro de aproximadamente R$ 70 bilhões.

O último recorde de ofertas de ações foi no ano passado, quando a Bolsa brasileira foi palco de R$ 90 bilhões em ofertas de ações. A conta desconsidera os volumes de 2010, visto que o dado foi distorcido por causa da megacapitalização da Petrobrás, de mais de R$ 120 bilhões.

O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, que participou de duas cerimônias de estreias de companhias na Bolsa na última segunda-feira, 10, afirmou que o mercado de capitais brasileiro está passando hoje por um processo de mudança, uma porta aberta com os juros baixos, com a Selic em 2% ao ano, após um novo corte na semana passada.

"No contexto dos juros altos, o Brasil estava deslocado. Os poupadores não abriam mão da aplicação da renda fixa e as empresas não viam o mercado de capitais como uma opção atrativa para captar recursos", disse.

Na fila com pedidos já protocolados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) há mais de 20 empresas, número superior ao momento pré-covid, demonstrando os efeitos no mercado da liquidez sem precedentes promovida pelas medidas dos Bancos Centrais em todo o mundo, além, é claro, dos juros baixos no Brasil. Grande parte dessas ofertas mira o mês de setembro e meados de outubro para a estreia na B3. Se todas saírem do papel, são mais de R$ 20 bilhões para a conta de ofertas do ano.

Dentre essas candidatas há uma concentração bastante significativa de empresas do setor imobiliário, sendo que duas ofertas que estavam na fila morreram na praia: Riva 9, controlada da Direcional, e You Inc. Abas não encontraram demanda suficiente entre os investidores, que se mostraram seletivos em relação ao grande leque de candidatas à abertura de capital.

Na conta tem mais

Na conta de operações na pandemia, não estão as de aumento de capital privado de Natura, CVC ou ainda do ressegurador IRB Brasil Re. Também fica de fora a venda de ações da Vale detidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma operação de R$ 8,1 bilhões, marcando a maior venda em bloco (o chamado block trade) na história de toda a América Latina.

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Bancos de investimento se preparam para adotar as reuniões virtuais no pós-pandemia

Por meio de aplicativos, gestoras conseguiram aumentar não apenas o número, mas também o alcance dos encontros; fundos já consideram equilibrar reuniões presenciais com virtuais no futuro

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 10h00

A pandemia de covid-19 paralisou mais de duas dezenas de ofertas de ações que estavam perto de serem lançadas, dada a volatilidade sem precedentes dos mercados globais naquele momento. Apesar do choque inicial, estímulos na casa de trilhões de dólares pelos bancos centrais em todo o mundo e taxa de juros reais rondando o zero no Brasil, fez a fila de candidatas a abrirem capital na B3 começar a andar muito rapidamente. Com isso, veio junto uma novidade para a realização de uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em tempos de quarentena mandatória para conter o ritmo de disseminação do vírus: ofertas feitas, do início ao fim, virtualmente.

Com o uso de Zoom, Webex, Teams e tantos outros aplicativos que se tornaram populares na quarentena, o número de reuniões para a realização das ofertas cresceu. O responsável pelo banco de investimento do Bradesco BBI, Alessandro Farkuh, afirma que a quantidade de reuniões nesse período está sendo de 20% a 30% superior a do período pré-pandemia. E o acesso a mais investidores, de outras regiões, aumentou nessa esteira. Fundos da América Latina, Ásia, Estados Unidos e Europa estão participando desses encontros.

"Os roadshows virtuais têm permitido acessarmos mais investidores por transação e, por vezes, com mais frequência. IPOs ganham tração a medida que os investidores conhecem a companhia a fundo e isso exige dedicação extra dos executivos. Virtualmente, conseguimos conciliar a agenda da gestora e investidores de forma mais intensa numa janela de tempo menor", frisa o executivo do Bradesco BBI.

O chefe da área de banco de investimentos do Credit Suisse, Bruno Fontana, afirma que o modelo no mundo pós-pandemia será um híbrido, entre reuniões virtuais e presenciais. Com isso, destaca, será possível agregar mais regiões aos roadshows, como mais investidores da América Latina ou Ásia, que acabavam não sendo contemplados já que as reuniões, quando presenciais, englobavam Estados Unidos e Europa.

Nesse momento, após cinco meses de pandemia e de quarentena e com um mercado muito aquecido, os responsáveis em estruturar uma oferta de ações já podem dizer que têm experiência em montar uma emissão e falar com investidores de forma virtual. Na pandemia, já foram seis ofertas iniciais de ações e oito ofertas subsequentes, os follow-ons, até aqui.

"Acredito que pós-pandemia vamos ter o melhor dos dois mundos. Processos totalmente virtuais para emissores frequentes e follow-ons, tocados do escritório dos bancos; e nos casos de IPOs e histórias mais complexas, companhias e banqueiros viajarão para os principais centros financeiros e farão um híbrido de reuniões presenciais com nomes mais estratégicos e, virtuais, com investidores de outras geografias ou que já conheçam o case", prevê Farkuh, do Bradesco BBI.

"Os roadshows virtuais têm funcionado muito bem e, provavelmente, os roadshows pós-pandemia serão feitos, pelo menos em parte, neste formato", comenta o diretor-executivo de Corporate & Investment Banking do Itaú BBA, Cristiano Guimarães.

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