Em Nápoles, crise atingiu até a pizza

Impacto sobre a economia mudou até os hábitos alimentares dos italianos da região. Só quem saiu ganhando foi a Máfia 

Jamil Chade, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

17 de maio de 2014 | 12h44

NÁPOLES - A família Lombardi faz pizzas há mais de 120 anos e, instalada desde 1929 na mesma rua de Nápoles, seu restaurante é um dos mais tradicionais da caótica cidade e se transformou em uma testemunha privilegiada da sociedade italiana. Seu atual gerente, o jovem Enrico Lombardi, é a quinta geração de pizzaiolos de sua família. Mas ele não esconde a dimensão da crise que afetou um dos aspectos mais básicos da cultura italiana: a cozinha.

No segundo semestre de 2013, a economia italiana deixou de se contrair pela primeira vez em dois anos, depois de atravessar sua mais longa recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Mas Nápoles representa a imagem social de uma turbulência que mudou a vida de um país. No auge da crise, o sistema de transporte de Nápoles praticamente deixou de funcionar, o lixo deixou de ser recolhido e o desemprego chegou a um quarto da população.

Para Enrico, o impacto foi muito mais profundo e chegou até os costumes mais elementares da sociedade. "A crise mudou os hábitos alimentares dos italianos", apontou o gerente, que tem 14 funcionários em sua pizzaria.

"Antes, os clientes vinham aos restaurantes dispostos a experimentar coisas novas, a descobrir um novo vinho. Hoje, essas pessoas vêm com o dinheiro contado e pedem apenas o básico."

Segundo ele, a queda na renda afastou também as famílias dos almoços de domingo. "A tradicional família italiana, com a ‘nonna’, vários filhos e parentes, desapareceu dos restaurantes. Hoje, as famílias comem em casa para economizar", explicou.

Se não bastasse, mesmo aqueles que estão empregados deixaram de almoçar todos os dias em restaurantes e começaram a levar marmitas ao local de trabalho. "Antes, víamos pessoas que vinham do trabalho três vezes por semana. Hoje, essas pessoas vêm uma vez a cada 15 dias", diz Enrico.

Se de um lado a clientela caiu, de outro os impostos se multiplicaram e hoje o Estado consome 50% da renda do restaurante. "O governo é o sócio majoritário desse restaurante", ironizou Enrico. "Apenas em impostos de lixo, paguei em 2013 mais de 9 mil à prefeitura", conta o gerente. "Mas o serviço não melhorou. De fato, o número de caçambas na rua foi reduzido."

Se a Pizzeria Lombardi sobreviveu, Enrico conta que algo que deixou muitos perplexos foi o fato de que dezenas de restaurantes tiveram de fechar as portas. "Alguns tinham mais de cem anos", lamenta.

Falência. De fato, se a cidade fosse uma pizzaria, ela também já teria fechado as portas. Nápoles quebrou durante a crise e se transformou em um símbolo de um país à beira da falência. Assim como ocorreu com Detroit nos Estados Unidos, a cidade acumulou uma dívida impagável. Se o déficit já era um problema nos últimos anos, a crise fez com que a renda média desabasse, as vendas do comércio caíssem e a evasão de impostos se multiplicasse.

"Aqui não existe mais crise", disse Lucca, um taxista orgulhoso de não ter perdido seu carro e seu emprego. "Aqui, o que temos é uma economia de guerra. Cada um tenta obter o que pode, guardar o que consegue e pagar o menor valor de impostos possível."

A "economia de guerra" descrita pelo taxista não estaria longe da verdade, segundo economistas consultados pelo Estado. Em fevereiro, o Tribunal de Contas de Nápoles rejeitou um plano do governo de cortar cerca de 1 bilhão em gastos como forma de lidar com o déficit. "Tecnicamente, Nápoles está quebrada", declara Riccardo Realfonzo, ex-vereador da cidade e hoje professor.

Hoje, o buraco nas contas da cidade italiana chega a pouco mais de 1,2 bilhão e o governo local negocia com o primeiro-ministro Matteo Renzi um resgate. Já em 2013, Roma socorreu Nápoles com 220 milhões. Agora, o governo central só aceita um novo pacote se os napolitanos derem provas de que podem enxugar seus gastos, exatamente o mesmo argumento que a Alemanha usou para bancar os países quebrados do sul da Europa.

Em 2013, a prefeitura tentou lançar uma moeda paralela ao euro para incentivar a economia local e dar benefícios a quem pagasse impostos. O "napo" foi criado. Mas seu impacto foi limitado. Foi emitido um total de 70 milhões, distribuídos a quem pagava a conta da luz em dia, a quem mostrava que pagava impostos ou para qualquer família que tivesse uma ação social.

Cada família teve direito a receber 100 napos, que poderiam ser usados em restaurantes, supermercados e até em serviços. A iniciativa contou com um lema polêmico: "A Europa tem o euro e Nápoles tem o napo". O problema é que a moeda, que chegou a ser emitida em notas de 5, 10 e 20, não foi suficiente para relançar a economia local.

Máfia. Segundo a Confederação das Indústrias da Itália, quem de fato ganhou durante a crise foi a máfia, que, sendo a única instituição com liquidez, comprou lojas e comércio que faliam e ampliou sua participação na economia. Hoje, o grupo criminoso é uma das empresas italianas mais bem-sucedidas do país, com um faturamento de 130 bilhões e ativos de quase 70 bilhões. Segundo a associação de empresas, a máfia movimenta 6% do Produto Interno Bruto (PIB) da Itália.

Em Nápoles, nenhum comerciante procurado pelo Estado aceitou falar abertamente desse novo poder da máfia. Mas um deles destacou que, por mais que a Justiça tenha se empenhado a lutar contra esses grupos, a nova força econômica obtida pela máfia também permitiu que grupos perdessem a vergonha para mostrar seu status diante da sociedade.

Na primeira semana de maio, quando a reportagem do Estado visitou Nápoles, uma pequena ruela transversal à Via Carbonara amanheceu repleta de bandeiras da Itália. Quando a reportagem perguntou a um comerciante da região o motivo das bandeiras, ele reduziu o volume de sua voz e explicou. "Um patrão da máfia foi liberado da prisão e teremos uma festa popular na rua para recebê-lo de volta."

Num tour pela cidade, um guia tenta dar um tom otimista sobre o local diante de prédios desgastados pelo tempo e pela falta de manutenção. "É verdade que a crise afetou a cidade. Mas essa cidade tem mais de 2 mil anos e sobreviveu até mesmo ao fato de viver ao lado de um vulcão imprevisível. Ela também vai superar essa crise."

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