Lauren Lancaster/NYR
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Em NY, restaurante chinês fechado pode ser sinal de sucesso

Filhos de imigrantes estudaram e hoje têm suas carreiras que passam longe dos negócios dos país

Amelia Nierengerg e Qroetrung Bui, THE NEW YORK TIMES

29 de dezembro de 2019 | 05h00

Mais de 40 anos depois de comprar o Eng’s, um restaurante sino-americano no Vale do Hudson, Tom Sit relutantemente pensa em se aposentar.

Durante grande parte de sua vida, Sit trabalhou aqui sete dias por semana, 12 horas por dia. Ele cozinha na mesma cozinha onde trabalhou como jovem imigrante da China. Estaciona no mesmo lote, onde faz suas pausas e lê as cartas da mulher, enviadas de Montreal, quando namoravam pelo correio no fim da década de 70. Ele acomoda seus frequentadores nas mesmas mesas em que suas três filhas fizeram as lições de casa.

Há dois anos, por insistência da mulher, Faye Lee Sit, ele começou a folgar um dia por semana. Ainda assim, não é razoável. Ele tem 76 anos e eles serão avós em breve. Trabalhar 80 horas por semana é muito difícil. Mas suas filhas crescidas, que têm diploma universitário e empregos bem remunerados, não pretendem seguir os passos dos pais.

Em todo o país, os proprietários de restaurantes chineses americanos, como o Eng’s, estão prontos para se aposentar, mas não têm ninguém para quem passar os negócios. Seus filhos, educados e criados na América, seguem uma carreira profissional que não exige o mesmo trabalho árduo do setor de alimentação.

De acordo com novos dados do Yelp, site que avalia restaurantes chineses nas 20 principais áreas metropolitanas, essa participação tem declinado constantemente. Há cinco anos, uma média de 7,3% de todos os restaurantes nessas áreas eram chineses, em relação aos 6,5% de hoje. Isso revela uma diminuição de 1.200 restaurantes chineses, quando esses 20 locais somavam mais de 15 mil restaurantes no total.

Mesmo em São Francisco, lar da Chinatown mais antiga dos Estados Unidos, a participação de restaurantes chineses diminuiu de 10% para 8,8%.

Nada indica que o interesse pela culinária tenha diminuído. No Yelp, a participação média das visualizações de páginas dos restaurantes chineses não caiu, nem a classificação média.

E, ao mesmo tempo, a porcentagem de restaurantes indianos, coreanos e vietnamitas – muitos dos quais também pertencentes e administrados por imigrantes de países asiáticos – se mantém estáveis ou aumentaram em todo o país.

Dificuldades nos negócios

O setor de restaurantes sempre foi difícil, e o aumento crescente dos aluguéis e aplicativos de entrega não ajudaram. Com legislação de imigração e controle fiscal mais rigorosos ficou mais difícil para os negócios. Mas esses não são fatores específicos de restaurantes chineses e não explicam a onda de fechamentos. Em vez disso, uma grande razão parece ser a mobilidade econômica da segunda geração.

“O fechamento desses restaurantes é um sucesso”, disse Jennifer 8. Lee, ex-jornalista do New York Times que escreveu sobre a ascensão dos restaurantes chineses em seu livro The Fortune Cookie Chronicles e produziu um documentário, The Search for General Tso. “Essas pessoas vieram para cozinhar para que seus filhos não precisassem fazer o mesmo, e agora eles não fazem.”

A aposentadoria dos donos de restaurantes também reflete a história da imigração chinesa para os Estados Unidos. Em 1882, a Lei de Exclusão Chinesa interrompeu o que havia sido um aumento constante de pessoas vindas o país asiático. Só foi revogada em 1943, e a imigração em larga escala foi retomada somente após 1965, quando outros programas de cotas racial foram abolidos.

A Revolução Cultural da China, uma revolta social e política muitas vezes violenta que começou em 1966, levou muitos jovens a emigrar para os Estados Unidos, país que projetava uma imagem de liberdade e possibilidade econômica.

Imigração para os EUA

Sit saiu de Guangzhou, no sul da China, em 1968. Ele caminhou, escalou e nadou até Hong Kong, enchendo as calças com pinhas como dispositivo de flutuação. “Não havia futuro”, disse ele. “A única maneira de obter liberdade e conseguir um bom emprego era ir para Hong Kong.”

Em 1974, ele imigrou para os Estados Unidos e começou a trabalhar no Eng’s, que abriu em 1927. Embora nunca tivesse trabalhado em um restaurante, o calor das panelas wok era muito menos intenso do que o que ele experimentou em uma fábrica de plásticos de Hong Kong, onde tinha trabalhado.

Ao contrário de Sit, alguns imigrantes tinham sido chefs na China. Eles serviam comida hunan e cantonesa a clientes curiosos em lugares como o Shun Lee Palace, em Nova York.

“Houve uma era de ouro da culinária chinesa nos Estados Unidos, começando no fim dos anos 60 e no início dos anos 70”, disse Ed Schoenfeld, restaurador e chef que trabalha em restaurantes chineses desde os anos 70. “Começamos a contratar praticantes regionais de boa culinária para que viessem a este país.”

Em sua maior parte, porém, os novos chefs cozinhavam de forma rápida e barata. Eles adaptaram seu método de cozinhar aos gostos americanos, desenvolvendo pratos como beef chow fun, prato cantonês básico, feito de carne frita e brotos de feijão, biscoitos da sorte e sopa de ovos, geralmente vendidos em embalagens para viagem.

“Eles não eram perfeitos”, disse Lee. “Essas pessoas não vieram para ser chefs. Eles vieram para ser imigrantes, e cozinhar era a maneira de ganhar a vida.”

Outros grupos de imigrantes seguiram um caminho semelhante. Com a mobilidade social e a inclusão em partes mais importantes da economia, os filhos de imigrantes têm menos probabilidade do que seus pais de possuir negócios próprios.

Sit ainda não encontrou a pessoa certa para administrar o seu restaurante e não tem planos imediatos de fechar. “Para assumir Eng’s, você precisa manter o coração no Eng’s”, disse ele. “Você precisa ter lealdade aos negócios, e não apenas ser alguém que pense: ‘Vou ganhar um ano, dois anos de dinheiro, não me importo’”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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