Célia Froufe/Estadão
Célia Froufe/Estadão

Em Oxford, políticos buscam inspiração

Grupo de brasileiros debate, principalmente, melhoria na gestão pública

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2018 | 04h00

LONDRES - “O mundo andou com a tecnologia e a máquina pública brasileira ficou na pré-história. Precisaríamos virar tudo de cabeça para baixo, mas como não podemos, porque temos questões mais emergenciais, viemos buscar inspiração.” O resumo foi feito ao Estadão/Broadcast pelo governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, mas reflete o interesse do grupo de pouco mais de 60 pessoas formado majoritariamente por políticos e servidores do Brasil que estão desde segunda-feira, 26, em Oxford, na Inglaterra, para discutir melhorias, principalmente, na área de gestão pública.

Esta é a terceira edição do evento organizado pela Fundação Lemann para debater o tema. O primeiro foi no ano passado, nos Estados Unidos, e o segundo no interior de São Paulo, em Indaiatuba, realizado em maio deste ano. “O grupo é dinâmico, não é estanque, mas todos têm em comum o comprometimento com a melhora dos serviços públicos”, explicou o gerente na Fundação Lemman, Weber Sutti. O grupo reúne sete governadores entre eleitos e em mandato.

A lista de participantes não foi divulgada, mas seus organizadores e alguns dos participantes que conversaram com o Broadcast garantem que boa parte dos partidos e todo o espectro ideológico foram representados, desde os mais à esquerda, como o PCdoB, até os mais à direita, como o DEM. Entre eles estão governadores eleitos como Eduardo Leite (RS), Paulo Câmara (PE), Camilo Santana (CE) e Ronaldo Caiado (GO).

Há também parlamentares, representantes da academia, de ONGs, de órgãos de controle e do setor privado. O Broadcast não teve acesso às discussões, pois a organização queria que os participantes ficassem à vontade em suas falas e questionamentos. "Em período de polarização grande no Brasil, queríamos um ambiente seguro para os debates", justificou um organizador.

Durante um intervalo, porém, foi possível conversar com a sócia da Oliver Wyman Ana Carla Abrão, que já foi secretária de Fazenda de Goiás e que está em Oxford, a cerca de 100 quilômetros de Londres. "Não podemos ficar na paralisia: não temos recursos, então não há como investir na máquina pública, então não tem valorizar o servidores, incentivá-lo. A discussão aqui visa a quebrar esse processo e buscar soluções. Para começar a ter embriões, iniciativas, que vão fazer diferença lá na frente. Não vamos ficar parados no marasmo", afirmou.

O "ciclo de debates" sobre gestão pública termina amanhã no prédio da Blavatinik School of Government, da Universidade de Oxford que já é uma referência em discussão pública no mundo. No mesmo local foi realizado em maio o Brazil Forum, evento organizado por estudantes brasileiros na cidade e em Londres e que busca trazer nomes que se destacam na política e economia do País. De quarta a sexta-feira, apenas uma parte menor do grupo permanece para outro ciclo de debates voltado para Educação.

Hartung, que está no fim de mandato, participou de todos os eventos anteriores e os avaliou como um "movimento conectado com o momento de transição que o País vive. "É muito apropriado fazer uma espécie de imersão, um mergulho em um debate que é muito útil para quem vai começar um mandato", considerou ele, que gerencia o único Estado com nota A no ranking do Tesouro Nacional e que apresenta os melhores indicadores fiscais.

O governador disse que sempre em suas administrações organizou equipes para pensar projetos de curto, mas outras também que visassem o médio e o longo prazo. "Um dos desafios é melhorar a capacidade de recrutamento, de gente qualificada para as equipes de governo, mas não só para os primeiros escalões. São funções estratégicas de liderança do setor público. Como recruta essa gente? Como isso é feito mundo afora ? Como reter essas pessoas dentro do setor público? Como motivar equipes para trabalhar em cima de temas estratégicos. Com não se perder em tudo o que há para fazer?", muitas destas perguntas, segundo ele, foram respondidas nesses dias.

Ana Carla contou que um dos pontos mais atrativos das discussões é que há não apenas diversidade no grupo, mas também de experiências externas. Políticos envolvidos em governos de transição da Austrália e dos Estados Unidos, por exemplo, compartilham seus casos de sucesso. "São países que já fizeram essa discussão, trilharam esse caminho, fizeram as reformas em sua gestão pública e podem contribuir para o nosso debate interno", considerou. "Discutir gestão pública é um objetivo que atinge a todos nós: vamos melhorar o serviço público no Brasil, em particular os serviços básicos de educação saúde e segurança pública. Não só imaginar como a gente melhora, mas com um objetivo mais claro: da relação do Estado com o cidadão lá na ponta", continuou.

Todas as brigas

Um ponto que costurou todas as edições, segundo Hartung, é o de que não é possível "comprar todas as brigas do mundo simultaneamente". "É uma supertroca de experiências: você abre a janela e olha o que está acontecendo mundo afora. Depois, sai com energia diferenciada, pois é inspirador. É isso oque mais precisamos para mudar o setor público, para que deixe de ser fonte de desperdício, de ineficiência, que continue a contribuir para a baixa produtividade do nosso País", citou. Ele disse que é muito comum no Brasil se "demonizar" os cargos comissionados, aqueles que são de livre nomeação. "Esse eixo de discussão mostra que é possível melhorar ocupação dos cargos combinando mérito com confiança. Há convergência", garantiu.

Durante o curso, conforme o governador, os participantes não vão pegar uma "receita de bolo", mas ganhar energia para que, com os meios que existem no Brasil e suas limitações, terem mais inspiração e criatividade para intervir e liderar. Sutti disse que um dos objetivos da Fundação é fazer com que os governos tenham pessoas mais aptas e preparadas em lugares chave do Estado. Uma das novidades desta edição em Oxford é que foram chamados profissionais que atuam em órgão de controle. "Decidimos trazê-los para pensar como podemos ter um Estado mais criativo e que inove."

Para Ana Carla, a palavra-chave é modernização e Hartung lembrou que as manifestações de 2013 vieram à nota com os brasileiros exigindo mais retorno de seus impostos, discurso que não existia antes. Ele também comentou que os gestores públicos precisam se preparar mais. "Como é que vão entregar isso? O gargalo é que temos uma máquina pública feita para um tempo que não existe mais. A vida andou, e anda com muita força, e a máquina pública brasileira ficou para trás. Mas temos que nos virar nos 30 e o ciclo de debates nos dá energia para fazer a máquina funcionar e entregar."

No site da Blavatnik School of Government, o curso é descrito como uma "oportunidade incrível para indivíduos que são apaixonados por melhorar governos ao longo do mundo" pelo professor de Negócios e Políticas Públicas e diretor do Master de Política Pública, Karthik Ramanna. Ele foi um dos entrevistados pela atual edição da revista The Economist sobre a ponderação feita por reguladores britânicos em relação ao futuro da auditoria. Este ano há 120 alunos na classe de cerca de 60 países. De acordo com os organizadores, os participantes brasileiros arcaram com o pagamento de suas passagens e outros custos foram repartidos com a Fundação, que tem parceria com Oxford.

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