Em Pequim, crise chega aos 'mercados de trabalhadores'

Migrantes rurais já enfrentam dificuldades para conseguir emprego na cidade

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

O chinês Du tem 49 anos e há 20 saiu da vila onde nasceu, na Província de Hebei, para buscar trabalho em Pequim. Como todos os migrantes rurais do país, tem uma existência precária, que se tornou mais difícil com a desaceleração no ritmo de crescimento da segunda maior economia do mundo. "A construção está ruim e há poucos empregos bons", disse Du, enquanto tentava a sorte em um dos "mercados de trabalhadores" da capital.

O local é uma rua no oeste de Pequim, onde pessoas que saíram do campo se concentram à espera de empreiteiros de mão de obra. A ambição máxima é conseguir lugar nos gigantescos canteiros de obra que são parte da paisagem chinesa. Mas essas oportunidades minguaram com o menor crescimento e as medidas adotadas pelo governo a partir de 2010 para tentar desinflar a bolha criada pelo mercado imobiliário.

As restrições são o principal fator doméstico para a perda de fôlego da economia chinesa, que desacelera há seis trimestres consecutivos e cresceu 7,6% no período de abril a junho, o menor nível em três anos. Depois da orgia de investimentos realizada na onda do pacote de estímulo lançado em 2008, o setor imobiliário tem estoques de residências suficiente para quase um ano de vendas nas duas maiores cidades do país, Pequim e Xangai, situação que se repete em outros locais.

O temor de que os preços de unidades residenciais voltem a subir é uma das razões para a cautela com que as autoridades de Pequim estão reagindo ao menor ritmo de crescimento. O mercado esperava que o governo anunciasse na semana retrasada nova redução da quantidade de dinheiro que os bancos devem manter em reserva, o que liberaria recursos para empréstimos, mas isso não ocorreu até agora.

A alta descontrolada no preço dos imóveis frustrou a emergente classe média chinesa e se tornou uma fonte de tensão social, algo assustador para um regime obcecado com estabilidade. Em 2008, era possível arrematar uma residência com a metade do dinheiro necessário hoje.

"Meu futuro marido comprou o apartamento onde vamos morar no começo de 2010. Hoje seria muito mais caro. Todos os meus amigos que não têm apartamento estão preocupados com os preços", disse Li Yi Ming, 25 anos, depois de gastar 31 yuans ($ 9,80) por um suco no Starbucks de Xidan, centro comercial preferido dos jovens da capital.

O valor seria suficiente para pagar uma noite e meia de aluguel de um quarto em hotéis usados pelos migrantes rurais que buscam emprego a 7,8 km Xidan. Mas alguns não têm dinheiro nem para isso. Zhang chegou há dois meses a Pequim em busca de emprego, mas só conseguiu trabalhar durante dez dias em uma construção. O pagamento combinado era de 3 mil yuans (R$ 952), mas ele recebeu só 500 yuans. Enquanto espera nova oportunidade, ele dorme em uma estação de ônibus.

Aos 34 anos, Zhang é solteiro, vítima do desequilíbrio sexual da população chinesa. A predileção por filhos do sexo masculino faz com que existam 32 milhões de homens a mais que mulheres no país. E os pobres e despossuídos da zona rural são os que enfrentam mais dificuldade para encontrar uma pretendente.

Li Wei, de 25 anos, saiu de sua vila rural em Henan para tentar ganhar alguma coisa e evitar um futuro solitário. "Minha família não tem dinheiro para o meu casamento", afirmou Li, que não tem namorada. "Eu quero qualquer trabalho, desde que pague pelo menos 2 mil yuans (R$ 635) por mês." Li está há 12 dias em Pequim e ainda não encontrou emprego.

As vendas de imóveis aumentaram 13% no mês de julho, em relação a igual período do ano passado, mas o volume de novas obras iniciadas despencou 27%. Com estoque suficiente para quase um ano de vendas, o aumento da demanda ainda não foi capaz de impulsionar projetos novos.

A contração no setor afetou a indústria pesada, incluindo a siderúrgica, que usa como matéria-prima o minério de ferro exportado pelo Brasil. A menor demanda chinesa ajudou a reduzir o preço do produto no mercado internacional, o que levou a uma queda de 21% da receita obtida pelos exportadores brasileiros no período de janeiro a julho.

No acumulado do ano, a indústria pesada teve expansão de 9,9%, abaixo dos 10,8% registrados pela indústria leve. No mês de julho, a diferença foi ainda mais acentuada: 8,8%, comparados a 10,1%.

Também solteiro, Chen, 40 anos, chegou há três anos em Pequim, vindo da Província de Jilin. Nesse período, sentiu no bolso o impacto das medidas de contenção do mercado imobiliário: "O ano de 2010 foi melhor que 2011, que foi melhor que 2012".

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