Marko Djurica/Reuters
Marko Djurica/Reuters

Em plebiscito, Grécia diz 'não' a condições impostas pela União Europeia

Mais de 60% dos gregos que foram às urnas neste domingo se mostraram insatisfeitos com as medidas de austeridade impostas em troca de ajuda ao país

Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 17h25

ATENAS - Os gregos disseram um sonoro "não" nas urnas a seus credores. O plebiscito convocado pelo primeiro-ministro Alexis Tsipras para avaliar se a população concorda com as condições impostas pela União Europeia para liberação de ajuda financeira ao país teve uma resposta clara: 61,31% da população se disse contrária às medidas de austeridade impostas pelo bloco econômico.

A vitória apontou uma rejeição bem mais ampla do que a esperada às políticas da UE. As pesquisas feitas no sábado apontavam um resultado dentro da margem de erro.

 

Embora o plebiscito fizesse uma pergunta específica, por trás da negativa da população pode estar a chance de que, pela primeira vez, um país possa sair da zona do euro - uma situação que coloca pressão sobre o Eurogrupo, a chanceler alemã Angela Merkel (que governa o país que direciona a maior parte da ajuda à Grécia) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Todos precisam decidir se o fluxo de dinheiro para o país seguirá aberto apesar do que disseram as urnas. Na terça-feira, a Grécia se tornou a primeira nação desenvolvida a dar um calote ao FMI. O país deixou de pagar uma dívida de € 1,6 bilhão.

O governo grego tenta dar outra interpretação à situação. Para o premiê, com o aval popular, a Grécia terá mais força para negociar acordos melhores. O objetivo de Tsipras é que o país não precise cortar tantos custos e benefícios sociais em troca da ajuda que tanto precisa.

A rejeição da população grega ao acordo proposto pela UE tem razão de ser: nos últimos cinco anos em aceitou o plano de austeridade do bloco econômico, a economia do país recuou nada menos do que 24%. O desemprego entre os jovens é superior a 50%.

Segundo pesquisas de opinião divulgadas ao longo da semana e também neste domingo, embora a maioria da população tenha votado "não" neste referendo, cerca de 75% da população grega é contrária à saída do país da UE.

Vitória. O resultado é uma vitória considerável para Alexis Tsipras. Na última semana, ele fez uma ferrenha campanha para que os gregos dissessem não às regras do pacote de ajuda impostos pela UE. O objetivo do referendo, segundo ele, é conseguir condições mais favoráveis de negociação para que o bem-estar social grego não tenha de ser tão sacrificado. Ao votar, Tsipras afirmou que a democracia venceria o "medo" e a "chantagem" - recado direto para o que considera uma posição intransigente da UE.

Quase 10 milhões de eleitores na Grécia estavam aptos a votar no plebiscito. Pela lei, o voto é obrigatório no país, mas na prática o texto não é aplicado há bastante tempo - o que deixa a escolha livre para a população. O ministro do Interior grego, Nikos Voutsis, afirmou, em declaração à imprensa, que o governo considera o plebiscito um sucesso - com mais de 50% dos eleitores comparecendo às urnas. O ministro das Finanças, Iannis Varoufakis, já falando sobre a vitória do "não", disse que o resultado ajuda a Grécia a buscar uma solução mútua com a Comissão Europeia para seus problemas financeiros.

Depois de um verdadeiro duelo de protestos na sexta-feira, quando os que advogam pelo "sim" e pelo "não" reuniram milhares de pessoas em diferentes pontos de Atenas, o clima da cidade se acalmou entre sábado e este domingo. O clima era calmo na maioria dos locais de votação e não havia filas. A panfletagem, tão comum nos pleitos brasileiros, tampouco sujou as ruas da capital grega. Como havia poucas seções eleitorais nas proximidades dos pontos turísticos, os turistas mal percebiam que este era um domingo vital para a economia grega.

Bancos. Depois de avaliar que não conseguiria aprovar em sua base legislativa as condições impostas pelos credores para as contrapartidas para a liberação de uma nova parcela da ajuda ao país, Tsipras resolveu jogar a decisão para a população. O referendo foi convocado e organizado em menos de dez dias. 

Como o dinheiro novo não chegou - e para evitar uma corrida às agências bancarias para saques -, o governo determinou feriado bancário até a próxima terça-feira e estabeleceu um teto diário de € 60, expondo a fragilidade do sistema bancário nacional.

Há relatos de que o dinheiro pode 'secar' nos caixas eletrônicos na segunda-feira caso o Banco Central Europeu (BCE) não faça uma nova injeção de capital para que as máquinas possam ser abastecidas. Embora o limite para saques não valha para turistas, o Estado ouviu no sábado relatos de visitantes que tiveram dificuldade de sacar dinheiro e usar o cartão de crédito em ilhas como Mykonos e Santorini. Uma reunião entre o Banco Central da Grécia e o Banco Central da Europa (BCE) está marcada para a manhã de segunda-feira.

Cansaço. Entre os gregos que advogavam pelo voto contra a UE, um discurso comum era o "cansaço" de esperar por uma promessa de desenvolvimento que nunca se concretiza. É o caso de Thanassis Negas, 60 anos, que trabalha com importação e exportação de tecidos. "Eu não me enquadro na categoria 'desempregado' para o governo, mas essa é a minha real situação. Eu ganho muito pouco, menos do que o suficiente para me sustentar."

Para Negas, que pertence ao movimento Enam (uma espécie de resposta grega ao espanhol Podemos), o voto no 'não' é uma alternativa para priorizar as pessoas em detrimento do capital. "Em toda a Europa, mesmo na Alemanha, há informações de que as camadas mais pobres da sociedade estão sofrendo. Está claro que a receita econômica atual está trazendo só pobreza, e não desenvolvimento."

Em comentários sobre resultados da eleição, especialistas afirmaram que os jovens gregos tiveram um papel fundamental no resultado do voto no "não". Este foi o caso do estudante de economia Grigorios Adamapoulos, de 26 anos, duas vezes na última semana. 

Na noite da última segunda-feira, ele era um dos últimos manifestantes a se desmobilizar em uma grande manifestação pelo voto contrário às condições impostas pela União Europeia para renegociar a dívida e liberar mais ajuda financeira para a Grécia. Dentro de casa, ele vivia uma divisão: enquanto ele acreditava que era possível mandar um recado de insatisfação ao bloco econômico, seus pais achavam que era melhor garantir a ajuda da UE e votar "sim". 

Na sexta-feira, Grigorios parecia ter conseguido "virar" a tendência dos pais: "Pode escrever: toda a família de Helen (nome da mãe de Grigorios) vai votar não." Tanto o estudante de economia quanto seus amigos acreditam no discurso do governo de que uma vitória no "oxi" no plebiscito de hoje não deverá acarretar a saída da Grécia da União Europeia e a substituição do euro pelo antigo dracma - apesar de esse ter o temor de muita gente no país.

Ele deixa claro: "Nós não somos contra o euro e nem contra a Europa, não importa o que os outros digam." Na noite deste domingo, à medida que o voto no "não" ficava clara, a reportagem recebeu uma mensagem de Grigorios. "Vencemos! Vamos para a Syntagma (praça do parlamento grego, no centro de Atenas)", referindo-se à festa da vitória do "oxi" (não, em grego) no plebiscito.

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