Rodrigo Viga/Reuters
Rodrigo Viga/Reuters

Em reação a Bolsonaro, Egito adia sem data visita oficial do Brasil

Causa teria sido o anúncio, por Bolsonaro, da decisão de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 15h18
Atualizado 05 Novembro 2018 | 19h07

BRASÍLIA - Numa primeira reação do mundo árabe às declarações pró-Israel do presidente eleito, Jair Bolsonaro, o governo do Egito adiou, sem previsão de nova data, uma visita oficial que o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, faria ao país entre os dias 8 e 11 próximos. No período, ocorreria também um encontro entre representantes do setor privado dos dois países. Vinte empresários brasileiros já se encontram no país e precisarão retornar sem que sejam realizadas as rodadas de negócios.

Oficialmente, o governo egípcio informou que o adiamento "sine die" foi necessário por causa de compromissos inadiáveis das altas autoridades do país. Aloysio ia encontrar-se com seu contraparte, o ministro Sameh Shoukry, e o presidente, Abdel Fattah el-Sisi.

Nos bastidores, porém, sabe-se que a verdadeira causa foi o anúncio, por Bolsonaro, da decisão de mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. A medida significa um alinhamento do País com Israel e o abandono de uma posição de equilíbrio mantida por décadas pela diplomacia brasileira. Os países árabes, quinto destino das exportações brasileiras, apoiam a Palestina e deixaram clara sua discordância com a medida.

No último sábado, o presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Rubens Hannun, disse ao Estado que a relação de comércio e investimentos do Brasil com esse grupo de países poderia ser abalada e que eles poderiam retaliar, por exemplo, buscando outros fornecedores para produtos vendidos pelo Brasil, como carne e açúcar. A decisão do governo egípcio é a primeira confirmação concreta desse temor.

O Egito é um dos poucos países com os quais o Mercosul tem um acordo comercial já em operação. E os egípcios queriam aumentar as importações de produtos brasileiros.

Isso ficou claro quando, em julho passado, durante a cúpula dos Brics na África do Sul, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, foi procurado pelo ex-primeiro ministro do Egito Sherif Ismail, que atualmente é conselheiro do presidente Sisi. O egípcio convidou o brasileiro a fazer uma visita a seu país, de preferência com uma missão empresarial robusta, para ampliar o acordo comercial e intensificar a parceria entre os dois países. Seria explorada, por exemplo, uma cooperação na área de defesa.

Do ponto de vista político, a reação do Egito é um revés significativo porque o país adota uma linha moderada no conflito israelo-palestino e, historicamente, atua no sentido de tentar apaziguar os conflitos. Entre seus pares no mundo árabe, o Egito é um dos que têm boa relação com Israel. Os dois países têm, inclusive, uma cooperação na área de defesa.

Desafio

A decisão do Egito de adiar sem data uma visita do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, por causa das declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, a favor de Israel mostra o grande desafio que o Itamaraty tem à frente.

“Essa reação confirma que a principal missão do Itamaraty do governo Bolsonaro será gerenciar o que parece ser a maior guinada da política externa em décadas, e desenvolver estratégias para minimizar os custos políticos e econômicos que ela trará”, avaliou o professor Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.

O Egito e os países árabes apoiam a Palestina em seu conflito com Israel. Há receio dos exportadores que, com um alinhamento do novo governo do Brasil a Israel, os árabes procurem outros fornecedores de produtos que hoje compram aqui, como carnes e açúcar. 

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