Adriano Machado/ Reuters
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Em reunião sobre coronavírus, Guedes irrita deputados e senadores com 'aula de história'

Parlamentares esperavam que ministro da Economia apresentasse medidas concretas de curto prazo como resposta à crise global

Julia Lindner, Jussara Soares e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 00h15

BRASÍLIA - O ministro da Economia, Paulo Guedes, aumentou o desgaste com o Congresso ao participar de uma reunião de emergência sobre os efeitos do avanço do novo coronavírus. Deputados e senadores disseram que ele quis dar aula de história, "enquadrar" o Legislativo e eximir o Executivo de responsabilidade, quando se esperava que apresentasse medidas concretas de curto prazo como resposta à crise global. 

O encontro foi fechado, mas o Estadão/Broadcast teve acesso a um áudio do encontro que reuniu a cúpula do Congresso e também o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Guedes afirmou que a equipe econômica tem o controle da situação e vai acelerar as reformas, mas que a solução para blindar o País dos efeitos da turbulência global depende dos políticos. "A solução é política, e ela é dos senhores. A coisa técnica, o mapa técnico, nós temos, sabemos como ligar as torneiras, sabemos como despejar o dinheiro, realocar o dinheiro, vamos acelerar as reformas. Agora, tem uma coisa que é inescapável, a solução é política", disse. 

Guedes se queixou e disse que o governo terá que "contornar" situações criadas pela classe política, como a aprovação do aumento de despesas não planejadas. Horas antes, o Congresso manteve a ampliação do acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, e gerou um gasto de R$ 20 bilhões ao ano aos cofres públicos. Parlamentares justificaram o voto dizendo que existe uma camada da população que precisa do benefício para evitar uma crise social e a política liberal do governo não atende essas pessoas. 

"O Congresso reage (ao governo) e aprova mais despesas, que não são as que queremos atingir, derrubamos o teto (de gastos), vamos para LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal), o governo trava os recursos, onde vamos parar? Queremos processo de confronto agora? Disputa política hoje? Ou hoje temos que estar juntos para dar uma solução para a população brasileira?", questionou Guedes, diante dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Alguns congressistas se retiraram da sala para demonstrar o descontentamento e começou um burburinho. Coube ao presidente do Senado tentar acalmar os ânimos. "Não é possível isso, é inacreditável. Estamos falando de um caso grave, um caso concreto no nosso País, onde todos nós temos que ter a responsabilidade do tamanho das nossas obrigações. Vamos aguardar e ouvir o ministro da Economia, o ministro da Saúde, as autoridades do governo e vamos fazer a nossa parte no Congresso, por favor. Depois a gente discute no plenário", disse Alcolumbre. 

Um parlamentar reagiu: "Estamos calmos, presidente. O Congresso sempre fez a sua parte". O tom de cobrança do ministro gerou reações. Um deles, não identificado no áudio, gritou: "Nós sabemos que assunto é grave, mas Guedes está rindo da nossa cara. O ministro Mandetta (Saúde) colocou a gravidade do problema, o ministro Guedes ri da nossa cara. Não dá para ser assim com essa mesma conversa." 

Um senador que acompanhou a reunião disse que o ministro da Economia quis dar uma "aula de história" a deputados e senadores. "A China saiu da miséria, o Sudeste da Ásia escapou da miséria, o Leste Europeu escapando da miséria. Todos se integrando às cadeias globais de valor. Criação imensa de riqueza, 3,7 bilhões de seres humanos saíram da miséria graças a essa onda de globalização que interpenetrou as economias e criou bilhões de empregos... Enquanto isso, o Ocidente sofreu.O Ocidente não conseguiu reagir na velocidade necessária, então os sistemas políticos entraram em tensão", palestrou Guedes. 

Outro motivo de incômodo foi o otimismo de Guedes em relação ao cenário econômico baseado na aprovação das reformas defendidas pelo governo, independente do novo contexto do cenário internacional. Os parlamentares lembraram que o Palácio do Planalto cobra, mas ainda não enviou propostas relevantes, como as reforma administrativa e tributária, ao Congresso.

Ao deixar o encontro, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) elogiou a apresentação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, mas afirmou que o governo ainda não apresentou uma agenda emergencial na área econômica para dar amparo a essas ações. Braga disse que será preciso ter esse planejamento para curto, médio e longo prazo. "A reunião de hoje teve como objetivo estabelecer a gravidade da situação. Demonstra a gravidade do momento que estamos vivendo", declarou.

O líder da Rede no Senado, Randolfe Rodrigues (AP), disse que "a agenda econômica não é prioridade". Ele demonstrou insatisfação com o fato de Guedes não ter, segundo ele, anunciado nada de concreto na reunião.

"O único que anunciou algo de concreto, deu detalhes, foi o ministro (da Saúde, Luiz Henrique) Mandetta", disse. Segundo o líder, Mandetta traçou cenário de contágio em espiral a partir da semana que vem. "Minha convicção é que prioridade agora não é agenda econômica. Temos que tomar medidas necessárias, agora não há governo ou oposição", afirmou Randolfe.

Segundo ele, o Congresso deve desistir do projeto que dá poder ao relator do Orçamento para direcionar R$ 15 bilhões e direcionar desses recursos para a saúde. "Ministro Mandetta disse que efeito sobre sistema de saúde pode ser devastador", afirmou o líder.

Após a reunião, Maia foi ao Twitter para dizer que o Parlamento está aberto para ajudar o governo para reforçar ações de combate ao coronavírus, inclusive em crédito extra. Ele destacou que a parceria entre os dois Poderes é importante. "O ministro Paulo Guedes informou que o governo já está olhando com cuidado alguns setores para minimizar os efeitos da pandemia sobre o nosso crescimento econômico", escreveu. 

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