Gerson Monteiro/Estadão
Gerson Monteiro/Estadão

Em segundo dia de manifestação, funcionários da Ford se reúnem em SP e na BA

Montadora anunciou o fim da produção nas suas três fábricas no Brasil; sindicatos de outras categorias apoiaram trabalhadores de Taubaté

Gerson Monteiro e Tailane Muniz, especiais para o Estadão

13 de janeiro de 2021 | 12h04
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 14h07

TAUBATÉ (SP) e CAMAÇARI (BA) - Entidades sindicais de diversas categorias se reuniram nesta quarta-feira, 13, em Taubaté, no Vale do Paraíba, em apoio aos 830 trabalhadores diretos da Ford que serão dispensados após o anúncio do fechamento das fábricas no País. Na Bahia, centenas de funcionários fizeram uma manifestação no pátio da Assembleia Legislativa, no Centro Administrativo, na capital baiana.

“Quando a empresa vê que o governo federal afirma que o Brasil está quebrado, ela vê possibilidades de migrar para outros países, pois não vai arriscar perder dinheiro aqui”, disse Paulo Cayres, presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos. Ele acredita ser possível a reversão do fechamento da Ford no País desde que os governos se unam e cobrem da montadora todo o investimento recebido deles.

Entidades sindicais de todo o País participaram de uma reunião para definir mobilizações nacionais de trabalhadores. “A situação atual nos obriga a estar juntos para frear o desemprego”, afirmou Sérgio Leite, presidente do Sindicato dos Bancários, que participou da manifestação em apoio aos trabalhadores da Ford de Taubaté.

Sérgio Nobre, secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), afirma que a ausência de uma política industrial no País tende a provocar mais situações como a da Ford. “Esse cenário todo não é culpa só da pandemia, hoje não temos ministério de indústria e comércio, não temos ministério do trabalho.”

Os metalúrgicos saíram descontentes da reunião que tiveram com o governo do Estado de São Paulo na terça-feira, no Palácio dos Bandeirantes. Segundo o sindicalista Cláudio Batista, era esperada uma ação mais enérgica por parte do governador João Doria.

Até que se chegue a um acordo entre os trabalhadores e a Ford, as entradas da fábrica de motores, em Taubaté, permanecem bloqueadas pelos funcionários, que fazem vigília em esquema de revezamento, impedindo o trânsito de pessoas e materiais na unidade.

A cidade de 317 mil habitantes, a 140 quilômetros da capital paulista, tem boa parte de sua economia voltada à atividade industrial. Segundo a Fecomércio de São Paulo, são 127 indústrias de médio e grande portes,  como Volkswagen, GE, LG Electronics, Alstom, Usiminas e Embraer, além da Ford.

Na segunda-feira, 11, a unidade da Volkswagen na cidade abriu um programa de demissão voluntária, com foco em funcionários com doenças ocupacionais e com contratos suspensos temporariamente. O PDV faz parte de um acordo com os trabalhadores, após a empresa anunciar a necessidade de demitir 35% da mão de obra das suas fábricas no Brasil, como reflexo da pandemia. Atualmente, a planta tem 3 mil funcionários diretos. A empresa não divulgou a expectativa de adesão ao programa.

Segundo dia de manifestação na Bahia

Os funcionários da unidade do Complexo Industrial Ford Nordeste, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, fizeram nesta quarta-feira mais uma manifestação em resposta ao encerramento das atividades da montadora no País. Centenas de funcionários se reuniram no pátio da Assembleia Legislativa da Bahia, no Centro Administrativo, na capital baiana. O grupo deve se reunir ainda nesta quarta com o presidente da casa, Nelson Leal.

A montadora, que já tinha encerrado, em 2019, a produção de caminhões em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, anunciou na segunda-feira, 11, que vai fechar neste ano as demais fábricas no País: Camaçari, onde produz os modelos EcoSport e Ka; Taubaté (SP), que produz motores; e Horizonte (CE), onde são montados os jipes da marca Troller.

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do município baiano, Júlio Bonfim, afirmou que a reunião que aconteceu na segunda com o governo não teve resultados práticos para os funcionários. “Foram discutidos investimentos. Claro que é importante pensar nisso, mas pensar na instalação de outra fábrica aqui, agora, é insignificante para a gente. Até pela complexidade que isso envolve”, disse.

Na terça-feira, 12, os funcionários permaneceram por cerca de quatro horas em assembleia no estacionamento da fábrica. Na região, 6 mil empregos diretos e indiretos devem ser fechados.

A planta da Ford na Bahia funcionava há 20 anos e, segundo funcionários, investiu em máquinas até as últimas semanas.

Em comunicado, a Ford informou que tomou a decisão após anos de perdas significativas no Brasil. A multinacional americana acrescenta que a pandemia agravou o quadro de ociosidade e redução de vendas na indústria. "A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil e sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável", afirmou, em nota, Jim Farley, presidente da Ford.

A decisão da Ford de encerrar a produção no Brasil terá impacto financeiro de aproximadamente US$ 4,1 bilhões em despesas não recorrentes, conforme informação divulgada pela montadora no anúncio de fechamento das três fábricas no País.

Do total, cerca de US$ 2,5 bilhões terão impacto direto no caixa do grupo americano, sendo, em sua maioria, relacionados a compensações, rescisões, acordos e outros pagamentos. Outros US$ 1,6 bilhão decorrem de impacto contábil atribuído à baixa de créditos fiscais, depreciação acelerada e amortização de ativos fixos.

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