Em silêncio, China aumenta participação em empresas do Japão

Movimento coloca em destaque a influência financeira crescente da China, assim como os laços econômicos cada vez estreitos entre o país e o Japão

Renato Martins, da Agência Estado,

24 de fevereiro de 2011 | 18h43

Os fundos de investimento do governo da China mais do que duplicaram seus investimentos em grandes empresas japonesas de capital aberto no ano passado, com uma participação combinada de 1,6 trilhão de ienes (US$ 19,4 bilhões), segundo consultorias de investimento citadas pela Dow Jones.

Essas participações, compradas principalmente por meio de veículos de investimento de nomes obscuros, registrados na Austrália, parecem ser passivos, sem que os investidores se manifestem sobre questões de estratégia e gestão. Mas elas colocam em destaque a influência financeira crescente da China, assim como os laços econômicos cada vez estreitos entre o país e o Japão.

Entre abril e setembro de 2010, um investidor identificado como SSBT OD05 Omnibus Account Traty Clients apareceu registrado entre os 10 maiores acionistas de grandes empresas japonesas, entre elas Toshiba, Shiseido, Kirin Holdings e Tokyo Electric Power. Ele não estava na lista seis meses antes.

Outras empresas em que um fundo de investimento com nome semelhante aparece como acionista são Sony, Mitsubishi UFJ Financial Group, Mizuho Financial Group e Sumitomo Mitsui Financial Group. Como as participações nessas empresas são inferiores aos 5% que exigiriam maior disseminação de informações, de acordo com as leis japonesas que regulamentam o mercado de valores mobiliários, as companhias sabem pouco sobre esses investidores, que usam veículos registrados no State Street Bank & Trust em Sydney (Austrália).

Fontes familiares com o assunto, porém, disseram que o fundo soberano chinês China Investment Corp. (CIC) está por trás do SSBT OD05. Segundo a consultoria Japan Shareholder Services, ou JSS (uma joint venture entre a Mitsubishi UFJ Trust & Banking Corp. e a Australia Computershare Ltd.), outra parte provavelmente por trás do SSBT OD05 é a Administração Estatal de Câmbio da China (Safe), o fundo soberano que administra mais de US$ 2,85 trilhões em reservas internacionais chinesas.

A CIC, a Safe e o State Street se recusaram a comentar os informes. A maioria das empresas japonesas ouvidas na reportagem disse ver as pequenas participações chinesas como investimentos de rotina, mas algumas contrataram firmas dedicadas à identificação de acionistas, como a JSS, para obter mais informações.

A CIC foi estabelecida em 2007 para investir uma porção das reservas internacionais chinesas de maneira mais agressiva do que a Safe, que tradicionalmente investia em títulos do Tesouro dos EUA e outros bônus soberanos. As duas são vistas no mercado como concorrentes. A Safe nunca divulgou posições específicas, nem mesmo quanto de seus ativos estão investidos em ações, mas acredita-se que seja uma porcentagem pequena do total.

A CIC tinha US$ 332 bilhões em ativos no fim de 2009; em fevereiro do ano passado, ela relatou participações de US$ 9,6 bilhões em mais de 60 empresas e fundos listados nos EUA. Esse número excluía alguns de seus investimentos anunciados publicamente nos EUA. Essa foi a primeira vez em que a CIC revelou detalhes de seus investimentos nos EUA.

Segundo um relatório recente da consultoria japonesa Chibagin Asset Management, a partir de registros de acionistas de empresas, os fundos estatais chineses mais do que duplicaram seus investimentos em companhias japonesas nos seis meses até 30 de setembro de 2010, para estimados ? 1,62 trilhão em 90 empresas, de ? 624 bilhões em 35 empresas em março. Esses números não incluem investimentos por outros investidores chineses.

Um acionista registrado com nome similar ao já citado, SSBT OD05 Omnibus China Treaty 808150, apareceu pela primeira vez no informe financeiro da Sony relativo ao ano fiscal encerrado em março de 2008, como o oitavo maior acionista da empresa. A Sony disse que esse acionista, que tem uma participação de 1,6% na empresa, está registrado em Sydney e tem o HSBC como procurador permanente. "Em termos de investidores ou acionistas reais, não sabemos quem eles são", disse um porta-voz da Sony.

Um porta-voz da Nitto Denko Corp., do setor químico, disse que "nós entendemos que o SSBT é provavelmente um fundo soberano chinês, mas não estamos prestando atenção especial a qualquer acionista específico"; o SSBT OD05 Omnibus Account Treaty Clients aparecia em setembro entre os dez maiores acionistas da Nitto Denko.

O executivo-chefe da JSS, Tasuya Imade, disse que a empresa tem recebido um número crescente de pedidos de clientes por informações sobre o SSBT e formou um grupo de trabalho dedicado a estudar quem está por trás desse veículo. Segundo Imade, os investimentos da conta SSBT não são estratégicos, mas de carteira diversificada. As informações são da Dow Jones.

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