Em tempo de crise, papel de BCs ganha destaque

Ausência de lideranças políticas fortes e falta de estratégias pressionam presidentes dessas instituições a buscar soluções

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / BASILEIA, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h07

Eles são reservados e muitos nunca falam com a imprensa. Mas, nos últimos meses, transformaram-se em figuras públicas, pressionados a dar declarações e acabaram sendo um dos poucos a apontar soluções para a crise mundial que já conta cinco anos. Eles são os presidentes de bancos centrais que, neste fim de semana, se reúnem na Basileia, cidade suíça, para seu encontro anual, com a presença do brasileiro Alexandre Tombini.

Na pauta, o papel cada vez mais crítico dos BCs em garantir a estabilidade mundial. A ausência de lideranças políticas fortes e a falta de estratégias sobre como lidar com a crise transferiu para os bancos centrais a função de assegurar alguma tranquilidade aos mercados.

Mas, com pressão cada vez maior, muitos já se questionam até que ponto terão como dar respostas à crise sem entrar, eles mesmos, em sérios problemas.

Os bancos centrais acumulam ativos de US$ 18 trilhões em seus balanços, algo sem precedentes na história financeira, que dá uma indicação das medidas não convencionais que adotaram para frear a crise. Até março de 2012, os maiores BCs do mundo haviam injetado US$ 5 trilhões em suas economias, o que o Brasil acusou de ser um "tsunami financeiro".

Para alguns presidentes dessas instituições, a nova posição de destaque causa certo mal-estar. Fontes na Basileia contam ao Estado que vários deles não se sentem confortáveis diante da pressão que sofrem para dar solução e substituir políticos incapazes de tirar suas economias da recessão.

"Há o sentimento de que políticos nos usam tanto como escudo como artilharia. Se não defendemos a economia, somos acusados de agir pouco. Se atuamos e não há certeza, somos acusados de inundar o mercado com dinheiro, sem um plano", desabafou o presidente do banco central de um país árabe, que pediu anonimato.

Outro desconforto: muitos estão sentindo a politização de seus postos, quando por anos se tentou garantir a independência dos bancos centrais de lobbies governamentais.

Um caso típico foi o do ex-presidente do BC da Espanha Miguel Ángel Fernández Ordóñez. O espanhol foi acusado de não ter agido a tempo na crise em seu país e de ter implementado regulações frouxas aos bancos. Num dos testes que realizou, disse que 70% dos bancos iam muito bem. Menos de um ano depois, o governo teve de pedir um pacote de resgate para seus bancos.

Se não bastasse isso, o Partido Popular, que governa a Espanha, o impediu de testemunhar no Parlamento, alegando que ele era próximo aos políticos socialistas. Resultado: Ordóñez abandonou o posto antes mesmo de completar seu mandato.

Papel na história. Não seria a primeira vez que os BCs tomam essa posição de destaque na economia mundial. Em muitos casos, a própria criação dessas instituições foi uma resposta às crises e guerras que assolaram as regiões. O Banco da Inglaterra, por exemplo, foi criado em 1694 para ajudar o governo a financiar uma guerra e estabilizar a economia, justamente comprando a dívida do governo, algo que hoje a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se recusa a aceitar.

O historiador Michael Bordo aponta que o mesmo processo político e de caos levou Paris a criar, em 1800, o Banque de France. "Napoleão o criou para estabilizar a moeda após a hiperinflação na Revolução Francesa."

Para analistas, portanto, não é de surpreender que, diante da pior crise em anos, o foco se volte ao trabalho dito "técnico" dos BCs. Uma realidade é que, de fato, a pressão sobre os bancos centrais criou uma cooperação entre as instituições que poucas vezes se viu nas últimas décadas, salvo nos dias após os ataques de 11 de setembro. Desde 2008, os contatos mudaram de perfil. Juros foram reduzidas ao mesmo tempo por vários deles, assim como foi feita injeção conjunta de recursos para garantir liquidez.

Agora, as medidas prometem ser retomadas com vigor. O Banco Central Europeu já injetou 1 trilhão nos bancos para garantir que o crédito seja mantido. Nos Estados Unidos, o Fed anunciou medidas de até US$ 270 bilhões na semana passada. No Reino Unido, algo similar para estimular a economia foi preparado, com cerca de 80 bilhões de libras esterlinas.

Às vésperas da eleição na Grécia, BCs dos países ricos indicaram que estavam prontos para agir, caso partidos contrários ao resgate vencessem a eleição e jogassem toda a zona do euro em uma turbulência inédita.

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