Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Em versão virtual do Fórum de Davos, recados foram passados nas entrelinhas

Sem o presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes, chanceler Ernesto Araújo falou sobre “tecnototalitarismo”

Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2021 | 17h49

BRASÍLIA - A efervescência dos encontros entre os mais altos nomes das finanças e da política global que todos os anos lotam o vilarejo encravado nos Alpes suíços deu lugar a um frio debate virtual sobre assuntos como pandemia e meio ambiente, mas sem qualquer entusiasmo. Fez falta para o Fórum Econômico Mundial ter o cenário das montanhas de Davos e a aglomeração de intelectuais, empresários, jornalistas e trabalhadores impedida agora pelo surto.

Na edição de 2021 do evento que sempre trata de assuntos globais, o novo homem mais poderoso do mundo esteve ausente. Joe Biden preferiu atuar nos bastidores para buscar uma coalizão do Ocidente contra os avanços da China. Parece não ter dado muito certo a julgar pela reprovação da chanceler alemã Angela Merkel, que um dia depois de falar com o democrata por telefone disse no Fórum que não gostava da ideia de dividir o mundo novamente em dois.

Como em política não há vácuo, o presidente da China Xi Jinping ocupou o espaço, afirmou que não há mais motivos para guerras no mundo, sejam elas “fria, quente, comercial ou tecnológica” e fez questão de dizer que seu país quer se inserir nas decisões globais. Ainda que não tenha havido este ano reuniões bilaterais e encontros fortuitos pelos corredores, os recados continuaram a ser passados aqui e ali nas entrelinhas.

O Brasil foi um dos que usaram o artifício. O chanceler Ernesto Araújo falou sobre “tecnototalitarismo” ao se dizer preocupado com a democracia, numa clara mensagem à China. O País, no entanto, também deixou a desejar. Desde o início, estava certo que o presidente Jair Bolsonaro não participaria do evento, apesar de ter sido lá, em janeiro de 2019, que tenha feito sua estreia internacional.

Coube ao vice-presidente Hamilton Mourão participar do painel sobre o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Ele garantiu que o governo está fazendo a sua parte, mas reclamou da falta de financiamento do setor privado, principalmente dos estrangeiros – isso, depois do País ter recusado recursos da Alemanha e da Noruega para este fim. 

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, cancelou sua participação num debate sobre o comércio internacional, em que participava a ministra dessa Pasta no Reino Unido, Elizabeth Tuss. Ele pode ter perdido a oportunidade de estreitar laços em um novo mercado que se abriu com o Brexit (saída do país da União Europeia) e que vem sendo tão cobiçado pelos exportadores brasileiros.

Com a vacinação contra a covid-19 ainda no início em todo o mundo, a palavra cooperação talvez tenha sido a mais usada durante o evento, como a única ou a mais promissora forma de se encontrar uma saída para a pandemia. A esperar agora o encontro presencial previsto para maio, em Cingapura. Se o vírus deixar.

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