Em vez de 'tarifaço', governo acena com reajustes graduais

Para evitar problemas para a campanha da presidente à reeleição, preços administrados deverão ter um cronograma de aumentos

ADRIANA FERNANDES, VICTOR MARTINS, ANNE WARTH / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h05

Com a ameaça de um tarifaço comprometer a campanha de Dilma Rousseff à reeleição, o governo saiu a campo e começou a sinalizar um cronograma gradual de aumento dos preços administrados para um eventual segundo mandato da presidente. O objetivo da estratégia é afastar o fantasma de um choque nos preços após as eleições, o chamado "tarifaço", medida impopular que poderia tirar votos da presidente em outubro.

O governo quer dar mais previsibilidade aos reajustes e evitar que as expectativas de inflação sejam mais contaminadas pelas incertezas em relação ao realinhamento dos preços - termo usado pelo Banco Central e por economistas de mercado para indicar o processo de correção da defasagem nas tarifas que foi acentuada em 2013. Essas expectativas influenciam a inflação porque os agentes econômicos se antecipam e remarcam os preços com medo do aumento do custos.

No governo, trabalha-se com um cenário gradual de realinhamento dos preços administrados e considera-se que boa parte do represamento ocorrido em 2013 começou a ser diluído a partir de outubro de 2013. A prova desse movimento, segundo um integrante da equipe econômica, é de que a alta dos preços administrados, que desacelerou para 1,54% em 2013, já subiu para 4,63% em 12 meses até julho. "O ajuste está ocorrendo. No caso de energia, está claro que não há represamento. As tarifas estão subindo. Tem empresa que foi autorizada a aumentar mais de 30%", disse a fonte. Em julho, o custo da energia residencial subiu 4,52% e 9,73% no ano. Até o fim do ano, o BC espera um reajuste total de 14% da conta de luz.

Também há uma perspectiva em relação a dois preços administrados que têm peso importante na inflação: água e ônibus em São Paulo. As passagens de ônibus do município estão há dois anos congeladas e a tarifa de água deve aumentar no ano que vem por causa do problema de abastecimento.

Na linha de frente da força-tarefa oficial, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, divulgou um calendário com o impacto na tarifa de energia das duas operações de crédito às distribuidoras, que somam R$ 17,8 bilhões. O cronograma prevê alta de 2,6% em 2015; 5,6% em 2016; e 1,4% em 2017. Os valores já levam em conta o efeito positivo sobre as tarifas do vencimento de concessões de usinas hidrelétricas.

Sem esse abatimento, o socorro às distribuidoras seria de 25% nos próximos três anos. Zimmermann deu entrevistas a rádios e jornais na tentativa de conter a proliferação de previsões salgadas de alta da energia que ganharam força nos últimos dias em meio à campanha eleitoral.

Combustíveis. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, também sinalizou o reajuste dos combustíveis, que foi segurado pelo governo para ajudar a controlar a inflação. Presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, Mantega afirmou que "todos os anos tem correção do preço da gasolina, uns mais outro menos".

Depois da indicação do ministro, ficou mais claro para o mercado que o governo vai reajustar a gasolina até o fim do ano, mas somente após as eleições. A última vez que houve reajuste de preços dos combustíveis foi em novembro do ano passado, quando a Petrobrás foi autorizada aumentar em 4% a gasolina e 8% o diesel nas refinarias.

Em entrevista ao Estado, Mantega já havia manifestado que não há necessidade de tarifaço em 2015. A presidente Dilma também sinalizou, na semana passada, com o aumento para 27,5% da mistura do etanol na gasolina.

Mesmo com o cronograma divulgado, há ainda incertezas em relação ao impacto da entrada em funcionamento da chamada bandeira tarifária, a partir de janeiro de 2015. Trata-se de um mecanismo que repassa rapidamente para a tarifa o aumento do custo da energia.

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