Emancipando as pequenas empresas da Europa

As pequenas e médias empresas respondem por duas a cada três vagas de trabalho existente na Europa

Jeffrey Anderson e John Ott - The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2013 | 02h06

O principal motor econômico da Europa, ou seja, as empresas de pequeno e médio portes, precisam desesperadamente de atenção se a incipiente recuperação do Continente ganhar impulso. Para elas conseguirem mais ímpeto os legisladores e o setor privado precisam resolver os problemas sistêmicos que impedem o fluxo de informação, limitam o acesso ao capital e contribuem para o estabelecimento de normas opressivas que sufocam o crescimento e a criação de emprego.

Na França, por exemplo, existem cerca de 60% menos empresas com 50 empregados do que aquelas com 49. Por que? Você esperaria uma distribuição normal de empresas por número de empregados sem nenhuma diferença importante quanto ao número de empresas com 48, 49 ou 50 funcionários. Mas por causa das regras estabelecidas para o caso de empresas com 50 empregados, um número enorme de companhias deliberadamente não contrata mais do que 49. Acrescentar uma vaga significa cumprir mais 34 exigências normativas - como a criação de um conselho de trabalho, um comitê de higiene e segurança e participação nos lucros obrigatória. Os custos de uma companhia elevam em 4%, em média, na folha de pagamento.

As pequenas e médias empresas respondem por duas a cada três vagas de trabalho na Europa e representam 58% da atividade empresarial. Elas abrangem desde minúsculas startups até empresas familiares e corporações de médio porte fornecedoras das grandes fábricas. Para a Europa se recuperar plenamente, os estrategistas políticos precisam entender o que vem bloqueando o financiamento para essas empresas, encontrar soluções e implementá-las.

Observe o tamanho do desafio: os novos empréstimos bancários para companhias pequenas e médias na zona do euro como um todo (empréstimos de menos de um milhão de euros como escala) diminuíram 36% desde o pico de abril de 2008. Este declínio foi mais acentuado de 2008 a 2010, mas continuou a partir de 2010. Diante da forte dependência dos mercados domésticos essas empresas estão em dificuldades por causa da redução da demanda doméstica.

Para se ter um quadro mais nítido do que está prejudicando este setor crucial, o Institute of International Finance e a Bain & Co. realizaram mais de 140 entrevistas com um amplo número de associações de pequenas empresas, executivos de bancos, investidores, acadêmicos e autoridades públicas na França, Irlanda, Itália, Holanda, Portugal e Espanha, e a nível europeu. O que surgiu deste trabalho foram quatro grupos de obstáculos para o financiamento.

O primeiro é a falta de acesso à informação de baixo custo sobre a capacidade de solvência das empresas. Esta informação com frequência inexiste em muitos locais: Irlanda e Holanda, por exemplo, não possuem registros de crédito administrados em um banco central que permitiria a outros bancos examinarem sua própria exposição à dívida agregada pendente de uma pequena empresa.

Em Portugal as restrições ao acesso de informações sobre os antecedentes de clientes potenciais impedem bancos e investidores de avaliarem o risco.

O segundo impedimento são os desincentivos fiscais, legais e normativos que tornam difícil para essas empresas alcançar mais escala e saúde financeira. O que, por seu lado, limita sua capacidade de crédito porque elas são mais suscetíveis às oscilações econômicas. Na Espanha, por exemplo, normas envolvendo a auditoria de contas sufocam o crescimento, especialmente a exigência de uma auditoria externa quando a empresa contabiliza receitas anuais de 6 milhões.

Os terceiro e quarto entraves impedem bancos e outras fontes alternativas de financiamento de suprirem plenamente a demanda, especialmente quando o crescimento europeu acelera. Os bancos agora podem arcar com menos risco de crédito do que antes da crise e estão em meio a um processo de redução de dívida. Mesmo assim, melhores garantias de crédito podem estimular mais a concessão de empréstimos.

Além dos bancos, alguns países carecem de fontes de financiamento ao qual as empresas deveriam ter acesso nos diferentes estágios de amadurecimento. A Grã-Bretanha e a Itália têm uma produção econômica e populações comparáveis. Mas as empresas de private equity e de capital de risco inglesas fornecem 20 vezes mais financiamentos do que suas colegas italianas. A Itália e outros países onde as pequenas empresas têm um papel mais destacado, como Portugal, Grécia e Espanha, também sofrem com a falta de apoio.

Muitas iniciativas implementadas na Europa em geral ajudaram a reduzir tais impedimentos. Concluímos, porém, que uma prática excelente num país não é necessariamente bem conhecida em outros lugares.

Encontramos iniciativas promissoras na Itália, Irlanda, Portugal e Espanha envolvendo garantias de créditos, incentivos fiscais para investimentos e para recuperação judicial de empresas. Grande parte do esforço deve ser no plano nacional. As soluções serão complexas e exigirão uma coordenação entre os diferentes grupos. Recomendamos a criação de forças-tarefa nacionais que possam encontrar soluções ajustadas ao seu ambiente nacional.

A Europa precisa das empresas de pequeno e médio portes que sejam globalmente competitivas, produtivas e consigam colher os benefícios do mercado único. Um melhor compartilhamento de processos inovadores colocarão a Europa na direção do crescimento econômico. (Tradução de Terezinha Martino)

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