Mark Schiefelbein/AP - 14/10/2020
Tecnologia 5G da Huawei está no centro da disputa entre EUA e China. Mark Schiefelbein/AP - 14/10/2020

Embaixada da China do Brasil sai em defesa da Huawei em meio à pressão dos EUA pelo 5G

Em publicação nas redes sociais, porta-voz chinês acusa os EUA de realizarem "escutas cibernéticas e vigilância"; em visita ao Brasil, delegação norte-americana afirma que uso de tecnologia da Huawei traria riscos para a segurança de dados do País

Elisa Calmon, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 14h45

Em meio às discussões sobre o leilão do 5G no Brasil, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, saiu em defesa da Huawei nesta terça-feira, 20, por meio do perfil nas redes sociais da embaixada do país no Brasil. 

A delegação de autoridades americanas que visitam Brasília afirmou que os Estados Unidos estão dispostos a financiar investimentos no setor de telecomunicações brasileiro para evitar a participação da empresa chinesa com a justificativa de proteção de dados.

"A Huawei disse que gostaria de assinar um acordo de 'proibição de backdoors' com todos os países", disse o porta-voz ao defender a empresa chinesa. “Backdoors” ou “porta dos fundos”, em inglês, é o método usado para ter acesso às informações dos usuários contornando medidas de segurança. 

A fala acontece após o conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, que lidera a delegação da visita ao Brasil, afirmar, na segunda-feira, 19, que o uso da tecnologia 5G da Huawei poderia representar riscos para a segurança de dados no País.

"Se vocês terminarem com a Huawei na sua rede 5G, haverá 'backdoors' e a capacidade de decifrar quase todos os dados que são gerados em qualquer lugar do Brasil, seja pelo governo, na frente de segurança nacional, seja por empresas privadas em suas habilidades de inovar e desenvolver novos produtos", disse O'Brien, segundo apurou o Estadão/Broadcast.

Zhao Lijian inverteu as acusações de espionagem, afirmando que os EUA "têm realizado escutas cibernéticas e vigilância", em resposta às recentes declarações dos americanos. "Acho que a razão pela qual os EUA suprimem a HW (Huawei) é que, caso outros países usem equipamentos HW, os EUA não poderão mais tocar em outras pessoas através de backdoors", diz ainda o texto publicado.

Na série de postagens, Zhao Lijian criticou o plano "Clean Network ("Rede Limpa") promovido pelos EUA para limitar a participação da tecnologia da Huawei. As postagens chamam a iniciativa de "Rede Suja", afirmando se tratar de uma rede de monopólio que "promove uma Guerra Fria nos domínios de ciência e tecnologia e discriminação contra determinados países".

Nesse contexto de pressão americana para impedir a participação da empresa de tecnologia no leilão brasileiro, Zhao Lijian afirmou ainda que "a maioria dos países permanecerá independente, tomará suas próprias decisões, dirá não à 'Rede Suja' dos EUA e promoverá um ambiente de negócios justo, aberto e não discriminatório para empresas de tecnologia #5G em todo o mundo".

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Delegação dos EUA amplia críticas à China e se oferece para financiar 5G no Brasil

Em visita ao País, autoridades americanas deixaram diplomacia de lado e afirmaram esperar que o Brasil escolha empresas de outras nacionalidades para a construção da infraestrutura 5G

Lorenna Rodrigues e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 10h14
Atualizado 20 de outubro de 2020 | 21h57

BRASÍLIA - Numa ofensiva para impedir a presença da empresa chinesa Huawei no 5G no Brasil, os Estados Unidos propuseram financiar “qualquer investimento” no setor de telecomunicações do País. A proposta agressiva foi apresentada nesta terça-feira, 20, por uma delegação de autoridades norte-americanas em Brasília. O governo ainda ouviu pedido para escolher grupos de outras nacionalidades na construção da infraestrutura 5G, a tecnologia mais avançada do mundo em comunicação.

A campanha direta dos norte-americanos contra os chineses, vista por diplomatas brasileiros como uma reedição da Guerra Fria, que tinha a antiga União Soviética na outra ponta da disputa pela hegemonia econômica global, expôs uma proposta de aliança de desenvolvimento econômico há muito não demonstrada por Washington.

Por trás da disputa entre EUA e China está a liderança da tecnologia 5G. Os EUA foram os primeiros a viabilizaram o 4G, o que é apontado como essencial para a criação e o desenvolvimento de um ecossistema de aplicativos, como Facebook, Netflix e Alphabet, dona do Google. Ao lado de Apple, Microsoft e Amazon, elas estão entre as companhias mais valiosas do mundo.

A Huawei é hoje a principal fornecedora de equipamentos centrais para o 5G, à frente da sueca Ericsson e da finlandesa Nokia. Os EUA não têm mais um grande fabricante e contam principalmente com os serviços das duas empresas nórdicas. As americanas Cisco e a Qualcomm permanecem no setor, mas não fazem equipamentos centrais.

“Há um equívoco de que não existe alternativa, não é o caso”, disse o diretor sênior interino para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês), Joshua Hodges, num encontro, em Brasília com jornalistas convidados. “Há competição lá fora, está disponível e os EUA estão prontos para financiar isso”, ressaltou. “A China não apoia (o acesso à informação), veja o que eles fizeram com Hong Kong (a China impôs em junho deste ano uma nova lei de segurança em Hong Kong, com controle da mídia e diminuição de liberdades prometidas à ex-colônia britânica quando foi devolvida em 1997). Os EUA estão preocupados em como os chineses vão usar os dados e a tecnologia para assuntos de Estado, não para os usuários dessa tecnologia”, afirmou.

Tecnologia

A tecnologia 5G é a quinta geração das redes de comunicação móveis. Ela promete velocidades até 20 vezes superiores ao 4G, a rede em operação hoje.

Hodges disse que os Estados Unidos querem mostrar que podem ser um parceiro de benefício mútuo para o Brasil e que quer fortalecer o País, e não “minar a soberania brasileira”, em referência aos chineses: “Diferentemente da China, não estamos aqui com ameaças, estamos oferecendo alternativas. Não estamos dizendo ‘não façam negócios com a China’, queremos encontrar outros parceiros para o Brasil e fortalecer nossa aliança com os brasileiros.”

Na mesma entrevista a jornalistas brasileiros, a presidente do Banco de Exportação e Importação (EximBank), Kimberly Reed, e a diretora da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC, na sigla inglês), SabrinaTeichman, que comandam, respectivamente, orçamentos de US$ 135 bilhões e US$ 60 bilhões, reforçaram que os recursos podem ser destinado para o financiamento de expansão de redes e compra de equipamentos 5G por empresas de telecomunicação brasileiras. “Temos dinheiro suficiente para financiar qualquer investimento neste setor”, disse Kimberly.

A relevância das empresas chinesas no mundo da tecnologia já começa a ir além da Huawei. Os aplicativos chineses se tonaram febre entre os jovens nos últimos anos, como o WeChat, aplicativo de mensagens semelhante ao WhatsApp, e o TikTok, que já tem 1 bilhão de usuários. Em reação, o Instagram criou o Reels. Ambas as empresas chinesas sofrem pressão direta do presidente Donald Trump para que sejam vendidas para um novo dono, ou banidas do território norte-americano.

Para além do 5G, barrar a Huawei do Brasil possivelmente aumentaria o custo dos serviços de telecomunicações. Ela já atua há 20 anos no País e é uma das principais fornecedoras das operadoras de telecomunicações. Segundo dados da Anatel, a Huawei hoje está presente em 35% da infraestrutura das redes de telefonia móvel de 2G, 3G e 4G do País, ficando atrás apenas da sueca Ericsson. Ou seja, praticamente toda conversa ou troca de dados por redes móveis do País hoje já passa por um equipamento da chinesa.

A Huawei também tem ampla atuação junto ao governo. Equipamentos da companhia compõem as redes e datacenters do Banco Central, Receita Federal, Ministério da Economia, Itamaraty, CGU, Embrapa, além de Câmara dos Deputados.

Com esse mesmo discurso, o governo dos EUA conseguiu convencer diversos países a banirem a Huawei, como Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Índia, Japão e até o Reino Unido. Alemanha, França e Espanha, por sua vez, optaram por não restringir a atuação da companhia até agora.

Posse de Trump

Em encontro no Itamaraty, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que espera comparecer à posse de Donald Trump como mandatário reeleito. Bolsonaro disse que seu apoio “é de coração” e que não o esconde. Ele ressaltou a boa relação com os Estados Unidos.

“Espero, se essa for a vontade de Deus, comparecer a posse do presidente brevemente reeleito nos Estados Unidos. Não preciso esconder isso. É do coração”, afirmou. Ao finalizar a fala, Bolsonaro se despediu dos representantes norte-americanos presentes no local dizendo “até dezembro, se Deus quiser”.

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'Brasil precisa defender seus interesses e isso passa pela China', diz chefe de câmara chinesa

Charles Tang afirma que acusações do conselheiro de Segurança dos EUA, Robert O’Brien, de que, se Brasil escolher a Huawei para o 5G no País, dados do governo e de empresas poderão ser “decifrados” pelos chineses, "são ridículas"

Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 17h03

Com a pressão dos Estados Unidados para que o Brasil não escolha a Huawei para fornecer a estrutura para a rede 5G no País, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), Charles Tang, afirmou que o Brasil precisa defender seus interesses nacionais e isso passa por manter uma boa relação com os asiáticos. "A China é o maior parceiro comercial do Brasil, somados aos empréstimos à Petrobrás, investimentos, o interesse nacional do Brasil é a China", afirmou nesta terça-feira, 20. 

Ele ressaltou que relação comercial da China com o Brasil vai além da importação da produção agrícola e inclui empréstimos, como o feito pelo Banco de Desenvolvimento da China em 2017 para a Petrobrás, no valor de US$ 5 bilhões.  

Em visita ao Brasil, o conselheiro de Segurança dos EUA, Robert O'Brien, disse na segunda-feira, 19, que, se o Brasil escolher a empresa asiática, dados do governo federal e de empresas brasileiras poderão "ser decifrados" pelos chineses. Para Charles Tang, "as acusações são ridículas". 

O presidente da Câmara de Comércio afirmou que nunca se provou que produtos da Huawei são utilizados para espionagem. "Nunca ninguém conseguiu provar que o 5g da Huawei é espião. Uma grande parte de todos os equipamentos de 4G do mundo usa rede da Huawei e nunca ninguém teve problema com a China coletando dados. Já tem um bom tempo que o 4G tem grande parte de equipamentos e tecnologia da Huawei." 

Ele diz que os Estados Unidos tentam influenciar o mundo contra a China e afirma que, na administração do republicano Donald Trump, a "competição" travada entre as duas maiores potências econômicas do mundo se tornou uma "confrontação". "Esse atual governo conseguiu transformar a relação EUA-China em uma guerra-fria." 

Em tom mais apaziguador, Charles Tang disse que a Câmara de Comércio tem apenas interesse em negócios, e não em temas políticos. "O Brasil deve manter, sim, boa relação com os EUA, que são um grande país com um grande povo. Cresci nos EUA, estudei lá, não tenho nada contra os EUA." 

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Acusações dos EUA não têm fundamentos, diz executivo da Huawei no Brasil

Marcelo Motta negou que a empresa seja utilizada pelo governo chinês para acessar dados privados, mas disse que decisão sobre participação da Huawei no 5G do País depende de Bolsonaro

Entrevista com

Marcelo Motta, diretor de cibersegurança da Huawei no Brasil

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 19h08

A fabricante de equipamentos de telecomunicações Huawei reagiu à escalada de acusações feitas nesta semana no Brasil por uma comitiva de oficiais norte-americanos que pressiona o governo brasileiro a restringir a atuação da empresa chinesa por aqui.

O diretor local de cibersegurança da Huawei, Marcelo Motta, afirmou ao Estadão/Broadcast que os ataques dos Estados Unidos carecem de "quaisquer fundamentos" e negou que a companhia tenha acesso a dados privados ou que tenha obrigação de repassar esse conteúdo ao governo chinês.

A troca de farpas acontece nos meses que antecedem o leilão das frequências do sinal de 5G no Brasil, previsto para meados de 2021. A participação no leilão será das operadoras, não das fabricantes. Entretanto, a Huawei é uma das três grandes fornecedoras do mercado nacional, ao lado da sueca Ericsson e da finlandesa Nokia.

Até agora, não há impedimento para a Huawei surfar a onda do 5G. A Vivo, inclusive, já usa equipamentos da chinesa nas primeiras redes comerciais de 5G em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O Gabinete de Segurança Institucional já listou os requisitos mínimos de segurança cibernética que devem ser adotados na implantação das redes 5G e não fez nenhum veto à presença da multinacional. Mas a decisão final caberá ao presidente Jair Bolsonaro e irá além de aspectos técnicos, considerando também as consequências nas relações futuras com EUA e China. Abaixo, trechos da entrevista.

Como a Huawei recebeu as declarações do conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O?Brien, de que os dados do governo brasileiro e empresas locais poderão ser "decifrados" pelo governo chinês caso passem por equipamentos da Huawei?

Recebemos as acusações com naturalidade, visto que acontecem há mais de uma década e sem quaisquer fundamentos. Temos cibersegurança e privacidade como prioridades máximas. Nossa governança passa por testes em múltiplos centros de transparência globais e regionais. Todo este esforço é o fundamento para a produção de equipamentos confiáveis e seguros para clientes, parceiros e governos.

Há uma crítica recorrente à legislação chinesa, que obrigaria a Huawei a repassar dados de seus clientes se solicitada pelo governo de lá. Essa obrigação existe, de fato?

Não. E nem existem tais leis e obrigações na China. Toda as leis lá existentes aplicam-se igualmente a todos os fornecedores de telecomunicações lá presentes, basicamente todos os grandes players mundiais. Ademais, fornecemos apenas equipamentos. E não temos acesso a eles, que são operados diretamente por nossos clientes. Logo, não temos acesso a quaisquer dados privados.

Então, que garantias a Huawei pode oferecer ao Brasil em termos de segurança e privacidade da conexão?

Temos mais de 270 certificados em segurança e privacidade. Além dos clientes que nos testam rotineiramente, é importante enfatizar que tais mecanismos de validação estão abertos ao governo brasileiro também para que possa usar suas próprias ferramentas de teste, metodologia e profissionais na avaliação de nossos produtos e na construção de suas próprias conclusões, sem a opinião infundada de terceiros.

Nesta semana, a comitiva de oficiais do governo dos Estados Unidos chegou a oferecer financiamento às teles brasileiras na compra de equipamentos de outros fornecedores. A Huawei também tem opções de financiamento para a compra de equipamentos?

Não financiamos equipamentos, e os clientes são livres no levantamento deles. Lembramos, no entanto, que todo financiamento tem custo, e a livre competição leva à redução.

Como a Huawei vai se posicionar para enfrentar as tentativas dos EUA restringirem a atuação da empresa no Brasil e em outros países? 

Nós fornecemos equipamentos que são inovadores, compactos, verdes (reduzido consumo de potência), inteligentes e seguros. Eles são objeto de desejo de nossos clientes e têm custos reduzidos. Então, é importante frisar que a ausência desses equipamentos em alguns mercados incrementou os preços em duas a cinco vezes para pequenos operadores em áreas rurais, tudo o que desejamos que não aconteça no Brasil.

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Às vésperas de eleição, Trump pressiona Brasil em busca de boas notícias

Além de interesses comerciais na disputa do 5G brasileiro, que tem a chinesa Huawei como uma das interessadas, presidente americano quer mostrar aos EUA o fruto de suas relações no exterior

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2020 | 19h42

A vinda ao Brasil de uma delegação dos Estados Unidos para anunciar um pacote com medidas que facilitam o comércio entre os dois países rapidamente se transformou em uma oportunidade de pressionar o Brasil contra a presença da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G. Na avaliação de analistas ouvidos pelo Estadão, além dos interesses comerciais dos americanos, trata-se de uma tentativa do governo de Donald Trump de gerar boas notícias no campo das relações exteriores, a duas semanas das eleições americanas. 

Em um movimento contra a participação dos chineses no leilão de 5G, os norte-americanos disseram estar dispostos a financiar “qualquer investimento” no setor de telecomunicações. Uma delegação de autoridades americanas em visita ao Brasil atacou a China e deixou claro que espera que o País escolha empresas de outras nacionalidades para construir sua infraestrutura 5G.

“Faz parte do ideário do Trump, de colocar a oposição à China como principal item da política externa americana, embora os acordo de simplificação de comércio, como os que foram assinados, não levam necessariamente a um acordo de comércio, já que o governo americano não pode negociar algo assim sem autorização do Congresso”, diz o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa.

Ele avalia que a delegação norte-americana aproveitou a viagem para oferecer empréstimos e facilidades ao Brasil, “colocando uma ‘cenourinha’ para que o Brasil morda, excluindo a China do leilão”. Para o consultor, o mais prudente seria que o Brasil esperasse o resultado das eleições norte-americanas para decidir.” 

Oliver Stuenkel, coordenador do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), concorda que uma delegação do governo Trump tem pouco ou nenhum peso, às vésperas das eleições no país. “Em um primeiro momento, considerava ruim para o Brasil a demora em definir a questão do 5G, mas agora parece ser a medida mais acertada, negociar com quem quer que seja o presidente americano nos próximos quatro anos.” 

Atrás nas pesquisas eleitorais na disputa contra o democrata Joe Biden (embora a distância entre os candidatos tenha caído), Trump pode perder a Casa Branca em novembro. Para Stuenkel, no entanto, a vitória democrata não traria grandes mudanças na postura americana de conter o avanço chinês no 5G. “Ao contrário, o interesse dos Estados Unidos em vencer a China permaneceria e Biden seria mais popular entre os europeus do que Trump é hoje, o que vai contra o interesse chinês.”

Conforme antecipou o Estadão/Broadcast na última segunda-feira, o conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, que lidera a delegação, disse que se o Brasil escolher a empresa chinesa Huawei para implantação da tecnologia 5G no País, os dados do governo e de empresas brasileiras poderão ser “decifrados” pelos chineses

A frase foi dita em uma reunião fechada na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No evento, que teve a participação virtual de cerca de 70 empresários, O’Brien disse recomendar “fortemente” que os parceiros dos norte-americanos adotem fornecedores “confiáveis”.

Interesses próprios

Juarez Quadros, consultor e ex-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), lembra que é comum que os países enviem delegações para convencer outros governos de que sua tecnologia deve ser escolhida, sobretudo em disputas importantes como é o 5G. “O Brasil tem a quinta maior rede de telefonia móvel do mundo e é natural que seja uma das principais peças de disputa entre essas potências, mas a concorrência está mais politizada. Não é comum que uma concorrência desse tipo envolva os líderes das maiores economias.” 

Ele avalia, no entanto, que embora seja prudente que o Brasil aguarde uma definição de quem será o presidente dos Estados Unidos pelos próximos quatro anos, a demora na definição do governo Bolsonaro sobre o futuro do 5G no País tem deixado os brasileiros para trás em comparação com países europeus e também de vizinhos, como Uruguai.

Professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e da FGV, Vinícius Rodrigues Vieira avalia que o governo Trump vai buscar gerar fatos que repercutam entre os eleitores americanos, principalmente pelo sentimento contra a China, que cresceu durante a pandemia do novo coronavírus. “O governo tem todo o interesse em demonstrar que está pressionando o Brasil,  maior mercado da América Latina, na cruzada contra os chineses.” 

Vieira pondera, no entanto, que caso ocorra a eleição de Biden em novembro, a agenda do ambiental defendida pelos democratas americanos bateria de frente com o que defende o governo Bolsonaro, o que faria com que o Brasil se afastasse dos Estados Unidos. 

“Dependendo do que ocorrer por lá, o Brasil pode até cair no colo da China, já que a ala militar do governo Bolsonaro está mais propensa a tentar conseguir vantagens em ambos os lados do que gostaria a ala ideológica do governo”, diz.

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Conselheiro de segurança dos EUA diz que Huawei terá acesso a dados do País se for escolhida para 5G

Robert O’Brien disse que a chinesa usa ataques cibernéticos para roubar propriedade intelectual em todo mundo e recomendou que Brasil adote fornecedores 'confiáveis'

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 18h39
Atualizado 20 de outubro de 2020 | 15h22

BRASÍLIA - O conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, disse que se o Brasil escolher a empresa chinesa Huawei para implantação da tecnologia 5G no País, os dados do governo e de empresas brasileiras poderão ser “decifrados” pelos chineses.

Em visita ao Brasil, o conselheiro fez a afirmação em reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), à qual o Estadão/Broadcast teve acesso. No evento, que teve a participação virtual de cerca de 70 empresários, O’Brien recomendou “fortemente” que os parceiros dos norte-americanos adotem fornecedores “confiáveis”. 

“Se vocês terminarem com a Huawei na sua rede 5G, haverá ‘backdoors’ e a capacidade de decifrar quase todos os dados que são gerados em qualquer lugar do Brasil, seja pelo governo, na frente de segurança nacional, seja por empresas privadas em suas habilidades de inovar e desenvolver novos produtos”, afirmou. “Backdoors” ou “porta dos fundos”, em inglês, é o método usado para ter acesso às informações dos usuários contornando medidas de segurança. 

Espionagem

O conselheiro acusou a China de usar ataques cibernéticos para roubar propriedade intelectual em todo o mundo e disse que os Estados Unidos abrem um novo caso de espionagem contra a empresa a cada 10 horas. “Estamos preocupados que a China vá buscar alvos que não sejam tão difíceis como os dos EUA. Estamos preocupados que a China se volte cada vez mais para os países como o Brasil, especialmente se eles conseguirem sua rede 5G”, completou.

De acordo com O’Brien, os Estados Unidos podem trabalhar conjuntamente com o governo brasileiro para defender o país dos ataques cibernéticos. “Nós podemos trabalhar juntos contra países que irão roubar ao invés de comprar ou pagar pela nossa tecnologia. Acredito que vamos trabalhar próximo dos militares brasileiros e do governo brasileiro para defender o Brasil no mundo cibernético. 

Em meio a uma guerra comercial com a China, os Estados Unidos vêm fazendo forte campanha contra a Huawei e pressionam, desde o ano passado, para que ela seja banida da licitação para escolha de empresas para implantação da rede 5G no País.

Potencial

A tecnologia 5G é a quinta geração das redes de comunicação móveis. Ela promete velocidades até 20 vezes superiores ao 4G. Em ambiente controlado, as redes 5G podem ter velocidades de até 1 gigabit por segundo (Gbps). Assim, permite um consumo maior de vídeos, jogos e ambientes em realidade virtual. Além disso, promete reduzir para menos da metade a latência, tempo entre dar um comando em um site ou app e a sua execução – dos atuais 10 milissegundos (ms) para 4 ms. Em algumas situações, a latência poderá ser de 1 ms, importante, por exemplo, para o desenvolvimento de carros autônomos. 

Em visita ao Brasil, o conselheiro terá na próxima terça-feira, 20, uma reunião com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, para tratar de segurança, e há expectativa de que a questão do 5G seja discutida. O’Brien encontrará na quarta-feira o presidente Jair Bolsonaro.

Em nota, a Huawei disse que, há 22 anos no País, "tem no Brasil um histórico de produtos de alta qualidade e segurança cibernética. Nunca tivemos nenhum grande incidente relacionado à segurança cibernética nos 170 países em que operamos nas últimas três décadas. Contamos com a confiança dos nossos clientes e parceiros, estamos totalmente comprometidos com a transformação digital do Brasil e abertos à comunicação com todos os stakeholders".

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