Dida Sampaio/Estadão
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Embaixador dos EUA pede isenção para etanol americano, mas governo diz que 'não tem cabimento'

Atendimento à demanda seria uma forma de obter apoio dos agricultores do Meio-Oeste dos Estados Unidos, um grupo que é importante base de apoio de Trump

Julia Lindner e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2020 | 14h57

Correções: 31/07/2020 | 10h43

BRASÍLIA - Preocupado com as eleições presidenciais dos Estados Unidos, o embaixador Todd Chapman pediu a integrantes do governo brasileiro para que as tarifas de importação do etanol americano sejam reduzidas a zero. Atualmente, há isenção para até 750 milhões de litros por ano, mas a partir daí a tarifa é de 20%. 

Entre os argumentos usados por Chapman está a importância para o governo Bolsonaro da manutenção de Donald Trump na presidência dos EUA.

De acordo com fontes do governo, o assunto foi abordado ontem durante reunião entre os ministros Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina (Agricultura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). 

A informação foi revelada pela Coluna Lauro Jardim e confirmada pelo Estadão/Broadcast. Procurados, o Palácio do Planalto, o Itamaraty e o MME não se manifestaram.

No encontro, segundo um participante, foi avaliado que o pedido do embaixador dos EUA "não tem cabimento" e é tratado como algo "impossível" dentro do governo. A mesma fonte afirmou que o governo deve defender o interesse dos brasileiros, e não atender a um pleito que beneficia outro país pensando em eleições de outra nação.

O etanol norte-americano é produzido a partir do milho, cuja produção já é mais barata que o brasileiro, a partir da cana-de-açúcar, e ainda recebe subsídios. A pandemia reduziu a demanda e, consequentemente, os preços de gasolina e etanol. O atendimento à demanda seria uma forma de obter apoio dos agricultores do Meio-Oeste dos Estados Unidos, um grupo que é importante base de apoio de Trump e que está revoltado com a ajuda anunciada pelo governo às refinarias.

As eleições presidenciais estão marcadas para 3 de novembro, e as pesquisas mostram que Trump terá dificuldades para se reeleger em meio à pandemia da covid-19, que já registra 4,450 milhões de casos confirmados e 151 mil mortes no país, ranking liderado pelos EUA em ambos os casos. Seu adversário, o democrata Joe Biden, tem conquistado apoio mesmo de Estados historicamente ligados aos republicanos.

O Brasil importou 810,9,2 milhões litros de etanol dos Estados Unidos neste ano. No ano passado, foram 1,443 bilhão de litros, mas os números vem caindo ano a ano desde 2017, quando as importações atingiram a marca de 1,8 bilhão.

A produção média de etanol nos EUA atingiu a marca de 931 mil barris por dia no início de julho. No ano passado, os norte-americanos exportaram 5,59 bilhões de litros, queda de 14% ante 2018, quando houve recorde de 6,47 bilhões de litros. Foi a primeira queda desde 2015. Também no ano passado, as importações de etanol pelos EUA chegaram a 738,35 milhões de litros, alta de 259% ante 2018.

Para zerar a tarifa de etanol importado, bastaria que o governo alterasse uma portaria da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão integrante do Conselho de Governo da Presidência da República. A portaria mais recente, de 2019, estabelece taxa zero até a cota de 750 milhões. A partir desse volume, a alíquota é de 20%.

O atendimento à demanda norte-americana teria forte impacto sobre os produtores brasileiros, principalmente os do Nordeste. O preço médio de exportação de etanol nos EUA foi de US$ 410 por mil litros em junho, o menor entre todos os produtores mundiais.

Correções
31/07/2020 | 10h43

O preço médio de exportação de etanol nos EUA foi de US$ 410 por mil litros em junho e não de US$ 410 por litro, como publicado anteriormente.

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