Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015
Sergei Karpukhin/Reuters - 25/3/2015

Embargo a petróleo russo deve pressionar ainda mais os preços e os juros, dizem economistas

Novo pacote de sanções da União Europeia proíbe importações de petróleo da Rússia por vias marítimas a todos os 27 países do bloco

Gabriel Caldeira, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2022 | 10h00

Ainda que tenha sido flexibilizado para cobrir demandas de países como Hungria, República Checa e Eslováquia, o embargo da União Europeia (UE) a importações de petróleo da Rússia manterá os preços da commodity energética elevados ao menos até o fim deste ano, impondo mais pressão sobre a inflação global e com consequências para o crescimento econômico e a política monetária de nações desenvolvidas, segundo avaliam analistas consultados pelo Estadão/Broadcast.

Aprovado na semana passada, o sexto pacote de sanções da UE contra a Rússia pôs em prática, entre outras medidas, a proibição de importações de petróleo da Rússia por vias marítimas a todos os 27 países do bloco. Entregas por meio de oleodutos foram deixadas de fora do bloqueio, de forma a proteger países que dependem muito da produção russa. Segundo autoridades da UE, o embargo atinge "imediatamente" dois terços de todas as importações anteriores à medida, com potencial para travar até 90% das compras no bloco até o fim de 2022. O período para que as entregas de petróleo cru sejam terminadas é de seis meses, enquanto as de produtos derivados têm prazo maior, de oito meses.

O ING avalia que a proposta final foi "bastante diluída" em relação à inicial, que previa banimento completo do óleo russo. Ainda assim, a instituição projeta um corte maior que os dois terços indicados - dos cerca de 2,3 milhões de barris por dia (bpd) importados pela UE até o embargo. Em nota, o banco destaca que Alemanha e Polônia, dois dos principais compradores de petróleo russo via oleodutos, já prometeram reduzir a zero as suas importações até o fim do ano.

Para a Eurasia, o embargo parcial ficou abaixo das expectativas, mas ainda deve provocar um aperto adicional nos mercados de energia da Europa, à medida que as refinarias locais terão de achar novos fornecedores, segundo diz a consultoria em relatório. Chefe de pesquisa do Julius Baer, Norbert Rucker tem visão similar. À princípio, não é esperado "escassez duradoura", segundo ele, já que a Rússia ainda "acha seus compradores" de petróleo na Ásia.

"Esse redirecionamento [das cadeias de suprimento], é claro, cria atritos, como a formação de novos laços comerciais, viagens mais longas ou transferências de um navio para outro em alto mar, o que causa algumas perdas de suprimento e aumenta os custos comerciais", pondera o economista. Segundo ele, a capacidade produtiva global está em seu pico, o que deixa o mercado da commodity vulnerável a choques de oferta.

Da mesma forma, o Rabobank entende que os ajustes necessários para evitar escassez de energia a longo prazo levarão certo tempo para ocorrer e "certamente" vão alimentar os preços tanto do petróleo cru quanto de produtos refinados. O banco holandês projeta um cenário em que o barril do óleo chegue ao pico de US$ 170, após as preocupações com o surto de covid-19 na China cessarem, e alerta ainda para o consequente aumento nos preços de combustíveis, item que é dos principais responsáveis pela escalada inflacionária mundial que começou na segunda metade do ano passado e se intensificou com a guerra na Ucrânia.

Dentre os principais impactos do embargo para os mercados, a Capital Economics cita que a manutenção dos custos de energia em patamares altos seguirá alimentando os índices de preços em economias desenvolvidas. Desta forma, bancos centrais serão obrigados a pressionar mais a política monetária e, com isso, juros de títulos governamentais vão subir mais. "Suspeitamos que leituras de inflação alta na zona do euro, como as divulgadas recentemente, possam ter contribuído para o aumento tanto das expectativas para as taxas de juros quanto para os rendimentos dos títulos na região", diz a consultoria.

Como consequência do aumento dos juros, a Capital projeta mais fraqueza nos mercados de ações. Em Wall Street, o S&P 500 já acumulou baixa de 13,8% em 2022, puxada principalmente por temores quanto à inflação e o aperto monetário iniciado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). Por fim, a consultoria britânica diz que o provável movimento de alta do petróleo beneficiará moedas de países exportadores da commodity, como o dólar canadense, a coroa norueguesa, o peso colombiano, entre outras.

PIB e inflação

Dentre as consequências para o crescimento, o Rabobank diz que a zona do euro deve entrar em recessão técnica entre o fim de 2022 e o começo de 2023, por conta da crise energética. O banco projeta avanço de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) do bloco no acumulado de 2022, mas contração de 0,1% em 2023 - de altas de 2,9% e 1,5%, respectivamente, nas previsões anteriores ao embargo. Já a inflação subirá 7,5% neste ano e 3,6% no próximo, segundo o Rabobank.

Apesar dos claros riscos ao crescimento e à inflação, é improvável que a UE pare com as sanções à energia russa no embargo já aprovado. Segundo o vice-ministro de Relações Exteriores da Polônia, Pawel Jablonski, as autoridades já negociam o sétimo pacote de sanções, que pode incluir medidas para reduzir as importações de gás, uma das principais fontes energéticas de vários países do Velho Continente.

A Eurasia avalia que o embargo ao petróleo atrasará um eventual corte nas compras de gás, que não deve ocorrer formalmente antes de 2023. Para a consultoria, o sétimo pacote de sanções focará nas entregas de petróleo via oleodutos. No entanto, se a política de Moscou que obriga compradores da commodity a pagarem em rublos não afetar os suprimentos de grandes importadores como Alemanha, Itália e Áustria durante o inverno europeu, as conversas ao redor do "desacoplamento energético" podem ser aceleradas, diz a casa.

Opep+

Diante do acordo da UE pelo embargo, havia expectativa por uma resposta à altura da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) para evitar que o mercado da commodity apertasse muito mais. O cartel, que também se reuniu na semana passada, decidiu elevar o acréscimo mensal da sua oferta a 648 mil bpd para os meses de julho e agosto, antecipando o volume adicional previsto para setembro.

O ANZ avalia que a decisão não será suficiente para compensar as perdas na produção russa com o embargo. "Os aumentos foram divididos proporcionalmente entre os membros, o que pode fazer com que o aumento real seja menor" do que o oficialmente definido, alerta o banco neozelandês.

O TD Securities também destaca este ponto, ao afirmar que apenas dois membros da Opep+ - Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - têm "capacidade significativa" de aumentar suas ofertas, enquanto "muitos países" não poderão entregar nada além do que já produzem. "O aumento prometido é muito pequeno quando comparado aos cerca de 100 milhões [de barris] que o mundo consome diariamente e a história nos diz que há uma grande chance de que o grupo produtor não cumpra o que promete."

Já o Commerzbank afirma que a decisão de antecipar o volume adicional de setembro para os dois meses anteriores não ajudará a oferta de petróleo no médio e longo prazo. Além disso, com a manutenção da Rússia como aliada formal do grupo, é "impossível" que a produção da Opep+ cresça significativamente, uma vez que a oferta russa deve reduzir - a menos que seja permitido aos outros membros do cartel aumentar suas produções além do previsto, diz o banco alemão.

A instituição completa ao afirmar que, na prática, a decisão da Opep+ não fará grande diferença no mercado de petróleo e tampouco aliviará os problemas de oferta recentes, agravados pelo embargo da UE à Rússia.

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