Alex Silva/Estadão
Decisão da Petrobras de cortar importação de gasolina e diesel em novembro gerou embate com as distribuidoras. Alex Silva/Estadão

Embate da Petrobras com distribuidoras envolve US$ 9 bilhões em importação

País tem recorrido à importação de diesel e gás liquefeito de petróleo para atender a demanda interna - no entanto, estatal decidiu que não vai mais arcar com esse custo sozinha

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 10h00

RIO - No centro do embate entre a Petrobras e um grupo de distribuidoras estão 4 bilhões de litros de derivados de petróleo, sobretudo de óleo diesel e de gás liquefeito de petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha. O volume importado foi recorde em agosto, última estatística divulgada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Nunca se recorreu tanto a outros países para ter acesso a combustíveis como naquele mês, justamente no momento de alta do petróleo e de derivados no mercado internacional. A importação custou ao País US$ 1,8 bilhão em agosto. Na soma dos oito primeiros meses do ano, foram gastos US$ 9 bilhões para comprar 23,5 milhões de litros. Boa parte dessa conta recai sobre a Petrobras, a principal importadora de combustíveis.

No início deste mês, a petrolífera estatal avisou às distribuidoras que não vai fornecer uma parcela dos seus pedidos de fornecimento de gasolina e do óleo diesel com entrega prevista para novembro. Para fazer frente à demanda nos postos, as distribuidoras vão ter de importar por conta própria.

A estatal sempre cumpriu o papel de importadora porque sua produção nunca foi suficiente para cobrir toda demanda brasileira. O custo costumava ser repassado aos seus clientes, as distribuidoras. Agora, no entanto, a empresa é alvo de pressões políticas e dos consumidores. Os caminhoneiros, por exemplo, ameaçam parar o País em greve por causa do preço do diesel. A solução encontrada pela estatal foi reduzir os custos, cortando importações.

Pelas contas do presidente da Vibra (antiga BR Distribuidora), Wilson Ferreira Júnior, a gasolina e o diesel estão cerca de 10% mais baratos no Brasil do que no exterior. A Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) estima defasagem média de 17%. Já a Petrobras argumenta que mantém seus valores alinhados aos externos, embora evite repassar imediatamente oscilações conjunturais de mercado.

Retomada do consumo

Enquanto isso, o consumo continua a subir. As importações deram um salto de 27% no ano, até agosto, comparado aos primeiros oito meses de 2020. Já os gastos subiram 63,9% porque, além do volume ter crescido, subiram a cotação dos derivados e o câmbio, todos envolvidos na formação dos preços no Brasil. O barril do petróleo começou 2020 na casa dos US$ 50, chegou em agosto a US$ 70 e, agora, está em cerca de US$ 80. 

A compra de GLP foi a que mais cresceu, de 34% de janeiro a agosto, comparado a igual mês de 2020. Foram importados 611 milhões de litros (a US$ 197 milhões), no mês, e 3 bilhões de litros no ano (a US$ 838,1 milhões). Já o diesel foi o que mais exigiu esforço financeiro. O País, e principalmente a Petrobras, gastou neste ano US$ 4,25 bilhões com a compra de 1,6 bilhão de litros do combustível, 50% mais do que nos oito meses do ano passado.

A Petrobras argumenta que foi obrigada a recorrer mais ao mercado externo neste ano porque suas refinarias entraram em manutenção. "A importação no período de janeiro a agosto de 2021 foi maior do que o mesmo período do ano passado visando compensar essa redução de produção", afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa.

Gargalo no refino

Segundo a ANP, a empresa utilizou 74% da capacidade das suas refinarias neste ano. Mas a estatal diz que o fator de utilização já saltou para 90% em outubro, um patamar elevado que não era atingido desde 2015.

O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) divulgou estudo no qual analisa o perfil de produção da Petrobras neste ano e, por fim, defende a instalação de novos parques de refino no País para suprir a demanda atualmente coberta com importação.

Segundo as estimativas, a capacidade máxima de produção de óleo diesel da estatal seria de 850 mil barris por dia (bpd). Em agosto, a Petrobras produziu 734,4 mil bpd (80% da capacidade). Nesse período, apenas a Repar e a Lubnor produziram a sua capacidade máxima de diesel. Isso significa que a companhia deixou de produzir 116 mil bpd de diesel, que precisaram ser importados.

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Em um ano, importação de gasolina pela Petrobras dispara 950% e a do diesel, 548%

O crescimento das importações está no centro de um embate da Petrobras com as distribuidoras, após estatal informar que não vai fornecer uma parte dos pedidos feitos em novembro

Fernanda Nunes e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 10h00

RIO - A importação de gasolina e óleo diesel por parte da Petrobras teve uma alta considerável no terceiro trimestre. A da gasolina disparou 950% em relação a igual período do ano passado, e a do diesel, 548,1%. A explicação está no crescimento do mercado doméstico, diz a Petrobras. O crescimento das importações está no centro do embate da Petrobras com as distribuidoras.

No início deste mês, a petrolífera estatal avisou aos seus clientes que não vai fornecer uma parcela dos pedidos feitos para novembro. Para fazer frente à toda demanda nos postos, as distribuidoras vão ter de importar por conta própria. Algumas delas não gostaram da notícia e foram reclamar à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A estatal sempre cumpriu o papel de importadora porque sua produção nunca foi suficiente para cobrir toda demanda brasileira. O custo costumava ser repassado aos seus clientes. Agora, no entanto, a empresa é alvo de pressões políticas e dos consumidores. Os caminhoneiros, por exemplo, ameaçam parar o País em greve por causa do preço do diesel. A solução encontrada pela estatal foi reduzir os custos, cortando importações.

Esse aumento de importação aconteceu ao mesmo tempo em que a Petrobras ampliou a produção nas suas refinarias de petróleo. No terceiro trimestre, a empresa utilizou 85% da sua capacidade de produção, mesmo porcentual de igual período de 2020 e 10 pontos porcentuais acima do que no trimestre anterior.

Em outubro, o fator de utilização já chegou a 90%. Com esse crescimento expressivo da importação, a exportação da empresa caiu 49,7% na comparação com o terceiro trimestre de 2020. As exportações totais foram de 813 mil barris por dia (queda de 17,3%) e as importações, de 415 mil barris por dia (alta de 116%). A maior parcela importada foi de diesel (175 mil barris por dia) e a exportada foi de petróleo (604 mil barris por dia).

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