Nacho Doce/Reuters
Nacho Doce/Reuters

Embraer e Boeing negociam acordo, mas governo deve vetar venda de controle

Empresas anunciaram nesta quinta que estão em conversas a respeito de ‘potencial combinação’, mas que bases de um acordo ainda estão em discussão; dentro do governo brasileiro, posição é de que parcerias são bem vindas, mas venda está descartada

LU AIKO OTTA, IGOR GADELHA E FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 19h13
Atualizado 21 Dezembro 2017 | 21h07

BRASÍLIA - As fabricantes de aviões Embraer e Boeing anunciaram nesta quinta-feira, 21, que estudam uma “potencial combinação”, mas sem deixar claro que tipo de negócio seria esse. De acordo com a nota conjunta divulgada pelas empresas, as bases de um potencial acordo ainda estão em discussão, e “qualquer transação estaria sujeita à aprovação do governo brasileiro”. A notícia fez as ações da Embraer dispararem na Bolsa de Valores de São Paulo: fecharam em alta de 22,5%.

Reportagem do jornal americano The Wall Street Journal aponta que a empresa americana teria interesse em adquirir o controle da companhia brasileira. Mas essa posição deve enfrentar resistência dentro do governo, principalmente nas áreas militares. O comando da Aeronáutica, por exemplo, afirmou considerar a Embraer “uma empresa estratégica e fundamental para a soberania nacional”.

De acordo com um ministro ouvido pelo Estado, o presidente Michel Temer disse que a Embraer é “inegociável”. A preferência dentro do governo, nesse caso, seria pela negociação de acordos de parceria entre as duas empresas.

Na área econômica, porém, a venda do controle da Embraer não enfrentaria tanta resistência. Uma fonte ouvida pelo Estadão/Broadcast avaliou que seria uma operação complicada, porque a Embraer tem muita participação no Brasil em desenvolvimento de tecnologia e na produção de equipamentos militares. Mas disse, porém, que perder o controle da companhia não seria um problema para o governo.

Um acordo entre as duas companhias teria de passar pelo aval do governo brasileiro por conta de uma ação especial (chamada de golden share) que a União detém desde que a Embraer foi privatizada, em 1994. Essa ação especial dá direito de veto em decisões importantes, como a criação ou alteração de programas militares e a transferência do controle acionário.

Apesar do direito de veto, o governo não é um acionista tão relevante da Embraer: tem uma participação de apenas 5,4%, por meio do BNDESPar, o braço de participações do BNDES. A Embraer, na verdade, é uma empresa sem controlador definido. Seu maior acionista é a consultoria de investimentos americana Brandes, com 15% das ações. A maior parte dos papéis, 64,5%, está diluída no mercado. 

Para o especialista em aviação André Castellini, da consultoria Bain & Company, um negócio entre Boeing e Embraer poderia ter diferentes desenhos, mas o que teria mais chances nesse momento seria uma parceria específica para a área de aviação regional. Para ele, nesse caso, sem o argumento de que é preciso proteger a aviação militar, a chance de aprovação do negócio poderia ser facilitada. 

Mais conteúdo sobre:
Embraer Boeing

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.