Emergente atrai mais investimento externo que ricos

Seguindo a tendência, expansão de investimento direto no Brasil supera a da China e pela 1ª vez País fica entre 10 maiores destinos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

O Brasil já apresenta uma taxa de expansão de investimentos diretos do exterior superior à da China e, pela primeira vez, está entre o dez maiores destinos de investimentos no mundo, superando tradicionais economias como Japão e Itália e quase se igualando à Alemanha.

Os dados divulgados ontem pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) confirmam uma transformação profunda na economia mundial. Pela primeira vez na história, os países emergentes receberam mais investimentos que os ricos, que ainda vivem as incertezas da recuperação econômica, alta taxa de desemprego e turbulências no mercado financeiro.

Em expansão, a economia brasileira seguiu o mesmo caminho de outros emergentes. Estrangeiros aumentaram suas compras de empresas brasileiras em mais de 9.000% entre 2009 e 2010, deixando no País um volume superior ao que gastaram na China e duas vezes mais que as aquisições mundiais na França. Esses dados foram amplamente inflacionados pela transação da Telefonica no mercado nacional.

No geral, os investimentos no mundo estagnaram em 2010, com apenas 0,7% a mais que em 2009, o ano da crise. No ano passado, os investimentos mundiais somaram US$ 1,12 trilhão, ante US$ 1,11 trilhão em 2009. Mas essa estagnação ocorreu principalmente por causa dos países ricos, que apresentaram queda de 7% no fluxo de investimentos em 2010.

A Europa apresentou queda de 22% nos investimentos recebidos no ano passado, e o Japão, de 83%. Países como a Irlanda sofreram queda de 66% no fluxo de investimentos, ante 20% na Dinamarca, 55% em Luxemburgo e 38% na Grécia.

Já os Estados Unidos receberam 43% mais em 2010 que em 2009. Mas isso significou apenas uma recuperação modesta em relação a dois anos de quedas profundas. A economia americana, apesar de receber investimentos, terminou 2010 com um volume equivalente apenas à metade do que recebia há três anos.

Emergentes. A grande transformação, porém, ocorreu nos países emergentes. Juntas, essas economias receberam em 2010 mais de 53% de tudo que foi investido no mundo e cresceram 10%. "Essa é a primeira vez na história que isso ocorre", afirmou James Zhan, diretor do Departamento de Investimentos da Unctad. Em 2010, os países ricos receberam US$ 527 bilhões em investimentos estrangeiros. Já os emergentes e economias em transição receberam US$ 596 bilhões.

O Brasil somou US$ 30,2 bilhões em 2010, 16,3% acima dos níveis de 2009 e com expansão bem superior aos 9,7% dos países emergentes. O País também apresentou expansão de investimentos bem acima dos 6,3% da China e 10% superior ao total das economias asiáticas. Para Zhan, dois fatores contribuíram para o bom desempenho. O primeiro foi a busca de empresas estrangeiras por atuar no mercado brasileiro e tirar proveito dos benefícios da expansão. Empresas de alimentos e bebidas têm sido algumas das maiores promotoras de investimentos, além do setor de serviços.

Em 2010, multinacionais deixaram US$ 9,4 bilhões no País. A Telefonica e sua compra no mercado brasileiro foi a grande responsável pelo salto. Em termos absolutos, o Brasil somou recursos em aquisições superiores aos da China e da maioria dos asiáticos.

Recursos naturais. Outro fator é a busca de recursos naturais no Brasil, com a exploração de petróleo, mas também a alta nos preços de minérios e mesmo de terras agrícolas. Nesse caso, não são apenas empresas europeias e americanas, mas também companhias chinesas.

Em totais de investimentos, o Brasil aparece na 10.ª colocação em 2010, ainda a três posições de sua classificação em 2009. A liderança é dos Estados Unidos, que receberam US$ 186,1 bilhões. Em segundo lugar vem a China, com US$ 101 bilhões. Em terceiro, Hong Kong, com US$ 62 bilhões. Juntos, China e Hong Kong quase se igualariam ao volume recebido pelos EUA.

A quarta posição é da França, com US$ 57 bilhões, US$ 2 bilhões menos que em 2009. Bélgica, Rússia, Cingapura e Alemanha completam o ranking.

O Brasil, porém, subiu da 13.ª para a 10.ª posição, superando a Índia, que vem declarando ser o novo polo de crescimento mundial. O País também superou Itália, Holanda e Luxemburgo e há quatro anos lidera os investimentos na América Latina, seguido pelo México.

A América Latina também se beneficiou da busca de recursos naturais. Os investimentos na região cresceram 21,1%, para um total de US$ 141,1 bilhões. Estrangeiros ainda usaram US$ 32 bilhões para comprar empresas na região, uma alta em comparação com os US$ 4,4 bilhões de desinvestimentos em 2009.

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