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Emergentes barram texto base para Doha

Manobra impediu que corte de 60% nas tarifas industriais fosse aprovada

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Brasil, Argentina e alguns países emergentes montaram uma operação diplomática de grande escala e evitaram que proposta de corte de tarifas de bens industriais fosse aprovada como base dos debates na Organização Mundial do Comércio (OMC). Para isso, chegaram a usar até mesmo países que não precisarão abrir seus mercados, mas que politicamente aceitaram condenar a proposta, como africanos e asiáticos. ''''Funcionou. Não sobrou nada da proposta'''', comemorava o embaixador do Brasil, Clodoaldo Hugueney, ao final do encontro. Em Genebra, todos concordam: ninguém mais sabe quando a Rodada Doha será concluída.Ontem, o grupo formado ainda por Venezuela, África do Sul e outros atacou a proposta da OMC que sugere cortes de cerca de 60% nas barreiras dos países emergentes no setor industrial. Para o grupo, uma nova proposta deve ser desenhada em setembro. ''''Representamos milhões de pessoas e não podemos nos dar ao luxo de permitir um resultado injusto que crie desemprego massivo e desindustrialização em nossos países'''', afirmou o bloco, que quer um corte de no máximo 50% e ganhos no setor agrícola.No Itamaraty, a proposta da OMC estava sendo vista como uma tentativa de isolar o Brasil nas negociações. Para isso, concedia vantagens aos sul-africanos e apostava que países como Índia aceitariam os cortes propostos. Para completar, repetia todos os pontos das sugestões de um grupo de países latino-americanos liderados por Chile e México.De fato, vários países latino-americanos demonstraram apoio à iniciativa da OMC. O Uruguai afirmou que a proposta era um ''''bom começo''''. Para a Costa Rica, o texto deveria ser ''''base para um acordo'''' e, em uma crítica indireta ao Brasil, insinuou que a proposta ''''abandona posições extremas. O México foi além e considerou que a proposta era ''''magnífica''''. Entre os países ricos, o governo americano disse que ainda não está satisfeito, mas afirmou que apoiaria a proposta como base.Hugueney, porém, garante que a manobra não teve sucesso e que os ataques de ontem impediram que os cortes de 60% fossem considerados como uma base. Ele admitiu que, nos últimos dias, chegou a ficar ''''preocupado''''.Por sua vez, na OMC, a atitude de pedir o apoio dos pobres foi vista como uma manobra, já que na realidade esses países não serão afetados pelos cortes de tarifas diante de seu baixo nível econômico. ''''Eles estavam lá apenas como decoração. A real negociação envolve apenas 28 países em desenvolvimento que terão de fazer cortes. Entre esses, metade aceita a proposta e outra metade não'''', atacou uma experiente diplomata.Os ataques mais contundentes contra a proposta vieram da Argentina. ''''Não vamos aceitar esses números nem hoje, nem amanhã, nem em setembro e nem durante a vida da Rodada Doha'''', afirmou o embaixador de Buenos Aires na OMC, Alberto Dumont. Para ele, nada poderá ser oferecido no setor agrícola para os argentinos como forma de convencê-los a aceitar essa liberalização no setor industrial. Já a Índia pediu que uma nova proposta fosse apresentada em setembro, totalmente revista, enquanto a Bolívia disse que seria '''' impensável'''' contar com o texto como a base de um acordo. O embaixador da Venezuela, Oscar Carvallo, exigiu que o mediador da proposta, o canadense Don Stephenson, deixasse claro que o texto não teria um valor jurídico. Após a reunião, porém, foi chamado para uma conversa com o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. O venezuelano garantiu a Lamy que o que estava em jogo não era apenas um texto, mas a própria Rodada Doha.

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