Emergentes criam mais empregos

Outros países em desenvolvimento repetem o fenômeno brasileiro e reduzem o desemprego, mesmo com a economia em marcha lenta

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h07

O enigma de um mercado de trabalho aquecido com a economia em marcha lenta, que vem intrigando os economistas no Brasil, é mais generalizado no mundo do que parece. Recente documento do Banco Mundial, relativo ao primeiro trimestre de 2012, revela que nas principais regiões do mundo emergente o ritmo da economia desacelerou-se, mas o mercado de trabalho ficou ainda mais aquecido. Esse quadro cria um forte contraste com os Estados Unidos e a Europa, onde o desemprego permanece em níveis muito elevados em termos históricos.

O documento do Banco Mundial mostra que, na América Latina e no Caribe, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,8% no primeiro trimestre de 2012, menos que os 6,3% do mesmo período do ano anterior. A criação de emprego, no entanto, acelerou-se de 2,1% para 2,8%, o desemprego caiu de 7,8% para 7,1%, e a massa salarial cresceu 4,6% no primeiro trimestre de 2012, comparado a 1,9% no mesmo período de 2011.

Na Europa Oriental e Ásia Central, incluindo 30 países emergentes, o crescimento econômico desacelerou-se entre o primeiro trimestre de 2011 e 2012, de 6,1% para 5,5%. O mercado de trabalho, porém, melhorou entre os dois períodos: a criação de emprego aumentou de 0,6% para 1%, o desemprego caiu de 8% para 7,1% e o crescimento da renda elevou-se de 4,5% para 8,8%.

Na Ásia Oriental e Pacífico, finalmente, que abrange 21 países emergentes, o crescimento do PIB foi de 5,3% no primeiro trimestre de 2012, menos que os 6% do mesmo período de 2011. Mas, da mesma forma que na América Latina, Europa Oriental e Ásia Central, o mercado de trabalho continuou avançando. A criação de postos de trabalho subiu de 2,2% para 3,9%, o desemprego caiu de 4,8% para 4,6%, e o crescimento dos salários foi de 5,8% para 8,8%.

"É possível que esteja acontecendo nos outros emergentes o mesmo fenômeno que ocorre no Brasil, que é o crescimento do setor de serviços, porque o excesso de produção da China na indústria jogou o preço dos manufaturados lá para baixo", analisa Samuel Pessôa, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

Segundo Pessôa, como o setor de serviços é intensivo em mão de obra, essa recomposição setorial das economias mantém o mercado de trabalho aquecido. O próprio processo de aumento de renda dos emergentes também pode contribuir para a transição para os serviços, que tipicamente ocorre à medida que os países enriquecem.

Contraponto. Do ponto de vista do crescimento econômico, porém, o aumento relativo do setor de serviços pode não ser tão positivo, principalmente no primeiro momento. Como a produtividade da indústria tende a ser maior, e a transição faz com que parte do capital nas manufaturas fique ocioso, o PIB pode desacelerar. Pessôa nota que o nível de utilização da capacidade na indústria em quase todo mundo, com algumas exceções, como a China, está em baixa.

O economista Armando Castelar, também do Ibre, chama a atenção para o fato de que a evolução recente dos indicadores econômicos latino-americanos indica que muito do que está ocorrendo no Brasil - e que frequentemente é tratado pelos analistas nacionais como singularidades do País - faz parte de um fenômeno regional.

"Houve uma queda generalizada do desemprego na América Latina, e também uma melhora da distribuição de renda associada em grande medida a essa questão do emprego", observa. Para Castelar, essa tendência está ligada ao grande volume de dinheiro internacional que está ingressando na região, com o crédito crescendo em muitos países além do Brasil, como Peru e Colômbia.

Mas ele também vê o aquecimento do mercado de trabalho, no Brasil e em outros países da América Latina, como relacionado à composição setorial do crescimento. "Esses setores de comércio, construção e intermediação financeira, que têm um crescimento desproporcional da participação no PIB, são muito mais intensivos em mão de obra do que a indústria." Assim, o emprego se expande mais do que indicaria o avanço do PIB.

Castelar nota que o fato de o Brasil partilhar com a América Latina muitas das tendências que vêm afetando a economia nacional deve ser levado em conta pela equipe econômica do governo. "Se (o mercado de trabalho aquecido) é uma questão regional e não apenas brasileira, depende menos de nós mesmos do que gostaríamos, está menos sob nosso controle, e deveríamos nos preparar mais para quando isso mudar", ele conclui.

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