Emergentes divergem sobre política fiscal

Presidente do Banco Mundial insinua que nem dentro da equipe econômica brasileira há consenso

Fernando Dantas, O Estado de S. Paulo

09 de novembro de 2008 | 11h16

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, revelou ontem que há discordâncias entre os países emergentes, e até dentro de alguns deles, como o Brasil, sobre o papel da política fiscal no combate à crise econômica e financeira. Sobre a aplicação desse tipo de política no Brasil, Zoellick disse: "Parece que é um tema de discussão entre os participantes do Brasil (na reunião do G-20 em São Paulo), e por isso eu prefiro não entrar nele".  Os participantes brasileiros no G-20 são as equipes do Ministério da Fazenda, que vem se mostrando favorável à tese do impulso fiscal, e do Banco Central (BC), que teoricamente poderia sofrer o efeito colateral desse tipo de iniciativa, que são as pressões inflacionárias. Zoellick concedeu entrevista coletiva ontem na sede, em São Paulo, da Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês), o braço de investimentos no setor privado do Banco Mundial. O presidente do Banco Mundial observou que alguns países emergentes, como a China, têm amplo espaço para estimular a economia com maiores gastos governamentais - o impulso fiscal -, já que têm grandes superávits orçamentários e nas contas externas. No caso de países como o Brasil e o México, ele notou que o uso da política fiscal tem de ser "disciplinado", já que esses países "tiveram conquistas em termos de maior estabilidade orçamentária e fiscal pelas quais tiveram de lutar duramente".  De qualquer forma, para Zoellick, qualquer expansão fiscal em países emergentes deve ocorrer ou na área social ou na de infra-estrutura. Ele lembrou como a China combateu tendências deflacionárias no final da década de 90 com pesados investimentos em infra-estrutura, que a fizeram multiplicar sua rede de rodovias de 10 mil para 50 mil quilômetros. O presidente do Banco Mundial também revelou que foram discutidos na reunião do G-20 em São Paulo os chamados efeitos de segunda e terceira ordem das medidas que estão sendo tomadas para combater a crise financeira e econômica. Assim, ele notou, os bancos centrais inundaram os mercados com recursos para tentar recuperar a liquidez do sistema. No momento em que finalmente o dinheiro recomeçar a circular de forma mais rápida, aquelas maciças injeções de liquidez podem ter efeitos inflacionários.  A situação poderia ser semelhante, ele continuou, ao ocorrido depois do estouro da bolha acionária da internet e da alta tecnologia, em 2000. Hoje, muitos criticam a reação do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que provocou no sistema um substancial aumento de liquidez, principalmente por meio do corte de juros, o que teria levado à bolha imobiliária mais recente e ao seu estouro, que está na raiz da crise atual.  Zoellick afirmou que a crise financeira iniciada em setembro chegou definitivamente aos países em desenvolvimento, nos quais agora está tendo um efeito "dramático". "Há um sentimento muito forte de que o mundo em desenvolvimento está sendo atingido significativamente pela desaceleração."  Queda no comércio O presidente do Banco Mundial acrescentou que há boas chances de que haja uma redução no volume do comércio mundial em 2009 - seria a primeira vez que isso ocorre desde 1982. Segundo ele, já há uma "chocante" queda nesse comércio, e uma das causas é a brusca redução de linhas de crédito comerciais e até de capital de giro para as empresas. Zoellick descartou a idéia de que o G-20 possa servir como foro principal para a reformulação da arquitetura financeira global, e sugeriu que um caminho mais apropriado seria o de uma rede flexível de grupos e iniciativas, nos quais o G-20, o G-7 e as instituições multilaterais se articulariam para enfrentar os problemas financeiros, energéticos e econômicos do mundo. "Houve muita concordância em volta da mesa de que podemos e devemos fazer muitas coisas ao mesmo tempo", afirmou. Ele deu como exemplo a possibilidade de expandir o grupo de participantes do Fórum de Estabilidade Financeira (FSF, na sigla em inglês), que reúne alguns países ricos e busca formular propostas de regulação e funcionamento do sistema financeiro global. Para Zoellick, um FSF expandido, incluindo países emergentes, poderia formular padrões de políticas públicas e regulatórias para o sistema financeiro, e depois ser apoiado pelo Comitê da Basiléia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para a sua implementação.

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