Emergentes fazem acordo parcial e frustram Brasil

Apenas 40 países em desenvolvimento aderem à proposta brasileira

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2008 | 00h00

Os objetivos do Brasil de conseguir unir os países emergentes em torno de um acordo comercial sofreram um parcial revés. Hoje, os governos de 40 economias em desenvolvimento vão anunciar um pacote para a liberalização do comércio entre os países do Sul. Mas, com a oposição da Índia, México e algumas economias asiáticas, o acordo foi aguado e, por enquanto, tem pouco impacto comercial. O Estado obteve informações sobre as negociações de ontem, que determinaram a impossibilidade de conclusão de um acordo como o Brasil tentava, com ampla liberalização. O acordo era a principal bandeira do Brasil na reunião aberta no fim de semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na capital de Gana, Acra. Lula chegou a citar o entendimento em seu discurso e pediu que o processo fosse concluído com sucesso. A negociação foi lançada em 2004 em São Paulo, após três décadas de impasses e desentendimentos entre os emergentes. Há quatro anos, os governos entraram em entendimento para iniciar o diálogo. Mas a cooperação entre os países do Sul, tantas vezes defendida por Lula, não conseguiu passar de discursos, diante das diferenças de interesses comerciais entre eles. "Talvez em um ano conseguiremos retomar o processo", lamentou o embaixador da Argentina, Alberto Dumont. O projeto inicial do Brasil era a redução de 30% nos impostos de importação de 40 países. Com o processo na Organização Mundial do Comércio (OMC) paralisado, a esperança era de que esse acordo poderia dar novo impulso às exportações dessas economias. Mas nem todos concordaram. A China, economia que mais cresce entre os emergentes, avisou há um ano que não participaria da iniciativa. A Índia se mostrou relutante e só aceita um corte menor de tarifas para não afetar sua indústria e agricultura. Ante as resistências a um corte mais profundo, negociadores previam que uma saída poderia ser o corte de tarifas de 20% sobre o que é hoje de fato aplicado. Mas nem isso conseguiu ser acordado. Pelo acordo, o corte de tarifas ficará entre 20% e 40%. Além disso, 70% do comércio sofrerá algum tipo de corte. Na prática, 30% dos produtos continuarão protegidos. Para completar, as negociações continuarão até o fim do ano para que seja estabelecido de fato como ocorrerá a liberalização. Para diplomatas sul-americanos, o projeto demonstra que, assim como governos de países ricos e pobres não conseguem se acertar na OMC, os países em desenvolvimento também sofrem para chegar a um entendimento sobre como deve ser um acordo comercial entre eles. Um dos problemas é que o entendimento criaria mais concorrência entre os emergentes. Um estudo da própria ONU concluiu que as exportações asiáticas seriam as que mais ganhariam com o projeto, o que assusta países como Egito. Segundo diplomatas brasileiros, haverá a possibilidade de os países fazerem listas de produtos sensíveis para proteger certos setores da indústria e de estabelecer uma barganha bilateral a partir de agora. O problema será garantir que não haja mais setores sensíveis do que produtos com tarifas de importação reduzidas. Pelos cálculos do Brasil, o acordo beneficiaria cerca de 15% das vendas do País no exterior.NÚMEROS30% era a redução nos impostos de importação de 40 países prevista no projeto inicial do Brasil 70% do comércio deve sofrer algum tipo de corte30% dos produtos, na prática, continuarão protegidos

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