Emergentes na berlinda

Brasil será um dos destaques negativos da reunião do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial nesta semana

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2016 | 03h00

Realiza-se esta semana, em Washington, nos Estados Unidos, a reunião conjunta de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. O Brasil, por razões negativas, será um dos destaques do encontro global, no qual as economias emergentes como um todo estarão no centro das preocupações. Depois de terem sido a locomotiva mundial, na primeira década do novo século, China na linha de frente, são elas que estão agora puxando a economia mundial para baixo.

Um novo relatório sobre as perspectivas da economia mundial está previsto para ser divulgado nesta terça, mas já se sabe que, nesta segunda atualização do ano, as projeções sofreram cortes e ficaram abaixo da média estimada em janeiro. Na primeira revisão, a expectativa de crescimento global para 2016 já recuara de 3,6%, em outubro de 2015, para 3,4%. Na edição de abril do “Panorama Econômico Mundial”, as previsões para a expansão econômica global voltarão a encolher, na direção de um crescimento de 3%.

A preocupação com os emergentes se acentua, na medida em que, desde 2010, se observa um movimento de contração nos fluxos de capitais para as economias do grupo. Um capítulo inteiro do “Panorama” de abril é dedicado ao tema, no qual economistas do FMI procuram qualificar o fenômeno do momento, comparando-o com os episódios de redução nos fluxos de recursos para emergentes, nos anos 80 e 90, na América Latina, Ásia e leste europeu, que resultaram em crises cambiais agudas.

Foram estudados os balanços de pagamento de 45 economias emergentes e se constatou que quedas nos fluxos de recursos externos, entre 2010 e 2015, afetaram três em cada quatro delas. Além disso, verificou-se que tanto o tamanho quanto a amplitude do recuo são similares aos registrados nas crises anteriores. 

A retração soma, nos últimos cinco anos, recursos pouco superiores a US$ 1 trilhão, com China e Rússia respondendo por quase metade do total. A contração equivale a cerca de 5% do PIB da amostra, considerando que o fluxo evoluiu de ingressos, em 2010, correspondentes a 3,7% do PIB, a saídas de 1,2% do PIB, em 2015.

O estudo do FMI encontrou um conjunto razoavelmente padronizado de características nas economias analisadas. Foi observado que o quadro econômico atual é bem diferente daqueles em que as outras crises ocorreram. Do lado positivo, no sentido da existência de proteções contra colapsos cambiais, os países emergentes apresentam hoje uma combinação de volume de reservas mais robusto, menor acúmulo de dívidas em moeda estrangeira e, em boa parte deles, regimes cambiais flexíveis - vale notar que o Brasil se encaixa no padrão.

Em contrapartida, essas economias estão mais integradas ao comércio internacional e detêm maior participação na economia global - de 21% do PIB mundial e 27% do comércio exterior, em 1980, para 36% do PIB e 44% do comércio, em 2014 -, o que implica maiores riscos potenciais de difusão de crises para o resto do mundo.

Também seguem um padrão as razões para a queda dos fluxos de recursos e a maior ou menor capacidade de resistência de economias emergentes ao encolhimento dos aportes externos. Para o FMI, o diferencial de crescimento entre emergentes e desenvolvidos provoca alterações na direção dos fluxos. Quando a expansão dos emergentes se dá em ritmo mais acelerado do que a evolução do nível de atividades nas economias maduras, a tendência é de aumento nas aplicações externas nos primeiros - e vice-versa. A redução do diferencial de crescimento entre os dois grupos, nos últimos cinco anos, está na base da virada dos fluxos das economias centrais para elas próprias.

Existem, porém, elementos que diferenciam, entre emergentes, os que mais resistem ou não à fuga de recursos. Aqueles com câmbio flutuante, por exemplo, sofrem menos. Sofrem igualmente menos os que conseguem manter suas contas públicas razoavelmente equilibradas. 

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