Emergentes não avançam na substituição do dólar internacional

Embora tema não conste da declaração final, China, Brasil e Rússia são favoráveis à adoção de novas divisas

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo ,

16 de junho de 2009 | 19h04

A criação de uma nova moeda internacional ou a adoção de divisas nacionais para transações de comércio exterior, centro das atenções do mercado financeiro mundial desta terça-feira, 16, foi um dos temas debatidos pelos chefes de Estado e de governo do Brasil, da Rússia, da Índia e da China reunidos em Ecaterimburgo. A discussão sobre a eventual substituição do dólar como referência não evoluiu abertamente, mas tudo indica que não foi abandonada.

 

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O tema já era discutido de forma aberta por dois membros do grupo, China e Brasil, desde a Cúpula de Londres do G20, em abril. Desde então, os dois países se baseiam no modelo adotado entre Brasil e Argentina, no qual as transações externas são realizadas nas moedas dos dois países, o yuan e o real, sem a intermediação do dólar. Nesta terça-feira, 16, a experiência latino-americana foi discutida em Ecaterimburgo, de acordo com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim. Nenhum avanço imediato foi feito por ora, mas ninguém descarta a possibilidade.

 

Pela manhã, antes mesmo do início oficial da Cúpula dos BRIC, o chanceler brasileiro evocava a proposta de uso das divisas nacionais em lugar do dólar. "Quem sabe?", afirmou à rede de TV britânica BBC. "O que não faz sentido é o que aconteceu em novembro, quando o comércio do Brasil com a Rússia caiu bastante por questões externas, como a queda do crédito internacional", argumentou, completando: "Temos de continuar a desenvolver mecanismos financeiros".

 

Horas depois, o chanceler russo, Sergey Lavrov, evitou detalhar os termos do debate dos chefes de Estado e de governo, mas confirmou que as discussões estavam em andamento. "Nós estamos discutindo os acordos de swap, mas isso é realmente um assunto para os experts. Temos de sentar e discutir os benefícios de fazermos comércio em nossas moedas e não em dólar."

 

Manifestações semelhantes de autoridades chinesas e indianas deixaram o mercado tenso em grandes praças financeiras do mundo. Na Europa, o euro reverteu a tendência recente voltou a ganhar terreno do dólar, fechando em 1,3843, contra 1,3793 na véspera. O alívio da pressão sobre a moeda norte-americana só veio com a publicação da declaração final dos BRIC, na qual não havia uma posição firme dos quatro países sobre o tema.

 

A ausência da menção, contudo, não significa que o assunto esteja encerrado no seio do grupo dos emergentes. Em entrevista coletiva, o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, foi ambíguo. Primeiro, afirmou que não via possibilidades de alterações da moeda de reservas internacional "em um futuro previsível". A seguir, admitiu que a hipótese pode vir a ser estudada pelo país. "O futuro pode reclamar isso da Rússia", justificou. "O mais provável é que venhamos a ser testemunhas da formação de uma moeda supranacional ou de uma divisa que será adotada em transações internacionais."

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