Emergentes no aperto

O BC diz vai apenas combater os efeitos secundários de um choque, como a alta do dólar

Fabio Alves, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 04h00

O movimento global de valorização do dólar, alta nos preços do petróleo e de outras commodities, além de problemas domésticos, como instabilidade política e elevada necessidade de financiamento externo, estão levando os maiores mercados emergentes a recorrer à elevação de juros para conter a forte depreciação das suas moedas e, por tabela, maior pressão sobre a inflação.

Em meio à migração crescente de investidores estrangeiros para o refúgio de aplicações em dólar, abandonando ativos considerados de maior risco, o quanto esse movimento conjunto de países emergentes elevando os juros colocará pressão sobre o Brasil para também fazer um aperto monetário e não correr o risco de ficar menos atraente ao capital estrangeiro?

Na semana passada, o Banco Central mexicano elevou a taxa básica em 0,25 ponto porcentual, para 7,75%, após ter ficado parado por duas reuniões seguidas de política monetária e a inflação ter desacelerado em maio para o menor nível neste ano. Por outro lado, assim como no Brasil, o México vem lidando com uma forte desvalorização da sua moeda frente ao dólar.

Também o BC das Filipinas elevou os juros em 0,25 ponto na semana passada, a segunda alta consecutiva, para combater a pressão sobre a inflação causada pela valorização do dólar e do petróleo. No início deste mês, a Índia aumentou a taxa básica pela primeira vez em quatro anos, em 0,25 ponto para 6,5%, citando riscos de alta da inflação.

Isso sem falar no choque de juros adotado recentemente pela Argentina e Turquia para combater o que muitos chamaram de ataque especulativo sobre o peso argentino e a lira turca.

Na Argentina, o BC manteve a taxa inalterada em 40% ao ano na sua última reunião de política monetária. No início deste mês, a Turquia aumentou os juros em 1,75 ponto para 17,75%, acumulando um aperto de 9,75 pontos em apenas duas semanas para combater a forte desvalorização da moeda.

“Se o diferencial de juros real entre outros países emergentes versus o Brasil aumentar, pode sim aumentar a pressão na nossa moeda”, diz o sócio e gestor da Alaska Asset Management, Henrique Bredda. Segundo ele, se os outros países emergentes, como México e Turquia, começarem a elevar a taxa nominal, aumentando o nível dos juros descontado da inflação em relação ao Brasil, isso pode aumentar o apetite de o investidor ficar vendido em real para financiar posições compradas no peso mexicano ou na lira turca, por exemplo.

Uma combinação de indicadores econômicos decepcionantes, elevada incerteza política e dólar em alta aumentou a pressão por saída de capital estrangeiro dos mercados emergentes, segundo os economistas do banco JP Morgan. Em nota a clientes, esses economistas disseram esperar agora que metade dos bancos centrais emergentes acompanhados por eles vai apertar suas políticas monetárias no segundo semestre deste ano.

Todavia, os economistas do JP Morgan consideram que um movimento mais amplo e disseminado de elevação de juros entre emergentes aconteça apenas em 2019, quando o hiato do produto se tornar mais positivo, incluindo o início de um aperto monetário no Brasil em meados do próximo ano. Ou seja, quando a ociosidade da economia diminuir e não absorver facilmente, por exemplo, uma depreciação do câmbio.

Na última pesquisa Focus, os analistas apostam que a Selic seguirá inalterada em 6,5% até o fim deste ano, mas terminando 2019 a 8,0%. Por outro lado, as taxas dos contratos futuros de juros embutem a probabilidade de uma alta ao redor de 1,6 ponto porcentual da Selic até o fim deste ano. Alguns economistas apostam em alta de juros após a eleição presidencial. Tony Volpon, do banco UBS, acredita que o BC elevará a taxa Selic em 2 pontos até o fim deste ano, mas após a eleição.

Por enquanto, o BC diz que a política monetária é separada do câmbio e que somente combaterá os efeitos secundários de um choque, como a alta do dólar. Ou seja, se a disparada da moeda americana apenas afetar as expectativas inflacionárias de médio prazo.

Outros países emergentes não estão esperando isso acontecer. Nesta quinta-feira, por exemplo, o BC da Indonésia deve elevar os juros pela terceira vez em apenas seis semanas. E a lista do aperto monetário parece só crescer. 

É COLUNISTA DO BROADCAST 

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