Emergentes têm no G-20 chance histórica de reformar FMI

Nações em desenvolvimento aplicam recursos no Fundo e ganham força para mudar arquitetura mundial

Daniela Milanese, da Agência Estado,

23 de setembro de 2009 | 14h35

Os países emergentes chegarão à reunião de cúpula do G-20 com a oportunidade histórica de readequar as forças das instituições financeiras internacionais. Em situação econômica mais favorável e agora que já colocaram recursos no Fundo Monetário Internacional (FMI), essas nações ganham força para mudar a arquitetura mundial.

 

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Não significa que será fácil. Especialistas acreditam que os emergentes conseguirão arrancar um compromisso mais firme dos países desenvolvidos para a desejada redistribuição das cotas, mas possivelmente sem números específicos no comunicado final do G-20, a ser divulgado após o encontro de sexta-feira em Pittsburgh, nos Estados Unidos.

 

"Não penso em um momento melhor da história recente para que os emergentes consigam ampliar o seu papel no FMI", disse à Agência Estado a professora de Política Internacional da City University de Londres, Anastasia Nesvetailova. "A hora é agora."

 

O enfraquecimento dos países desenvolvidos em meio à crise e a pressão coordenada dos emergentes, que atualmente puxam a recuperação econômica global, abrem oportunidade para as mudanças.

 

Na reunião preparatória de ministros do G-20, realizada há duas semanas em Londres, os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) pediram uma transferência de 7% das cotas dos países desenvolvidos no FMI e 6% da fatia no Banco Mundial para os emergentes. Com isso, cada um dos lados passaria de ter 50% das instituições. O alvo é principalmente o poder dos europeus, considerados "sobrerepresentados", já que perderam importância econômica relativa recentemente.

 

Brics

 

Em um primeiro momento, a estratégia dos Brics foi concordar com o aporte de recursos no FMI, para que emergentes em dificuldades durante a crise pudessem ser ajudados. Os quatro maiores países em desenvolvimento do mundo estão colocando US$ 80 bilhões no fundo, sendo US$ 50 bilhões da China e US$ 10 bilhões de cada um dos outros três.

 

Esse dinheiro faz parte da decisão consensual do G-20 na reunião de abril, em Londres, quando os países concluíram que o capital da instituição deveria ser triplicado para US$ 750 bilhões. Com o caixa do FMI reforçado, os Brics agora adotam uma ação coordenada para ampliar a voz no contexto global.

 

Para especialistas, a discussão pode ganhar força na agenda também porque os Estados Unidos estão pedindo um rebalanceamento dos desequilíbrios globais, o que em tese teria de passar pelo rearranjo das instituições multilaterais - e não só pela redução do papel norte-americano de grande consumidor do mundo.

 

"Os emergentes prestam ajuda muito mais forte atualmente, já que estão fornecendo recursos preciosos para o FMI e têm papel importante para tirar o mundo da recessão, criada pelos excessos dos países desenvolvidos", disse Marco Annunziata, economista-chefe do banco italiano UniCredit. "Há um consenso de que a revisão das cotas é inevitável."

 

A última redistribuição foi feita no ano passado e, pelas regras, a próxima teria de ocorrer após cinco anos, em 2013. Já está acordado que esse prazo será antecipado para janeiro de 2011, mas os emergentes querem uma nova revisão antes mesmo dessa data. Um dos temores é o de que a retomada econômica acabe deixando a crise no esquecimento, e assim o tema perderia o sentimento de urgência.

 

Para Anastasia, da City University, uma estratégia de pressão interessante seria usar o questionamento do papel do dólar como moeda de reserva internacional, algo incômodo para os EUA. Os Brics já negociam acordos de comércio internacional com base nas moedas locais. "Se forem espertos, é essa pressão que os emergentes irão fazer", disse a professora.

 

A maior dificuldade será convencer os europeus, nada dispostos a abrirem mão de poder em prol dos emergentes, ainda mais depois de terem colocado US$ 150 bilhões no reforço de capital recente do fundo. A Europa busca impor o aperto da regulação do sistema financeiro como tema principal da agenda do G-20.

 

Annunziata, do UniCredit, lembra que alguns países pequenos da Europa têm um peso desproporcional comparados com grandes emergentes, um desequilíbrio que cresce a cada mês. Ele avalia que os EUA são mais favoráveis à revisão, porque reconhecem a relevância dos emergentes e também porque não se importariam que o poder da Europa recuasse. "Já os europeus, obviamente, se opõem duramente."

 

Nessa disputa, os países em desenvolvimento devem conseguir avançar na reforma das instituições financeiras, mas talvez não tão rápido como gostariam. "Como nessas organizações internacionais tudo se move devagar, acho que o G-20 terá um acordo sobre o princípio de mudança das cotas, mas sem nada mais específico ainda", afirmou o economista italiano.

 

Anastasia, da City University, também vê um compromisso para acelerar o rearranjo da arquitetura mundial. No entanto, avalia que o comunicado final não deve detalhar os porcentuais de transferência de cotas solicitados pelos Brics.

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