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Emílio e o Marquês de Pombal

Não é cortando os juros que vamos resolver os problemas no setor real da economia

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2019 | 05h00

Não houve nenhum terremoto nem incêndio, mas igual a um evento de nado sincronizado realizado em um piscinão com muita liquidez, pequenos e grandes bancos centrais iniciaram espontaneamente um ciclo de corte de taxa de juros.

No dia 31 de julho, o Federal Reserve Bank (Fed) americano cortou a Fed Funds Rate em 0,25 ponto porcentual para a faixa de 2,00% a 2,25%. O Fed deixou aberta a porta para mais um ou dois cortes, ficando aquém dos quatro cortes de 0,25 que o mercado futuro de juros esperava, desancorando assim as expectativas. 

O Banco Central Europeu sinalizou que na próxima reunião de seu Conselho Monetário em setembro vai afrouxar a política monetária, cortando a taxa de juros e reiniciando o seu programa de recompra de ativos. Nos mercados emergentes, a Turquia já cortou a taxa de juros e, no Brasil, o Copom reduziu a Selic em 0,50 ponto porcentual para 6%.

Não concordo com a decisão do Fed de cortar juros. A desaceleração mundial não é um fenômeno monetário e, portanto, não é cortando juros que vamos resolver os problemas que se encontram no setor real da economia. O ex-presidente do Fed de Nova York William Dudley alertou que este ciclo de cortes de juros pode ser inflacionário e criar uma bolha perigosa no mercado financeiro. Se e quando os bancos centrais tiverem de apertar a política monetária, o custo real e financeiro será muito maior do que se o Fed não tivesse cortado a taxa de juros. 

O Fed está preocupado com a desaceleração do crescimento do PIB mundial e dos Estados Unidos, os quais deverão cair de 3,5% e 2,9% em 2018 para 3,2% e 2,5% em 2019, estabilizando-se nesse patamar em 2020. Esta taxa de crescimento não é espetacular, mas está longe de ser o preâmbulo de uma recessão. Os dois fatores que explicam a desaceleração do crescimento são a queda da atividade econômica na China e a falta de reformas estruturais capazes de aumentar a produtividade. 

O terceiro fator é a guerra comercial e a política protecionista do governo Trump. Essa política é contracionista porque ela reduz o volume do comércio internacional e desequilibra a complexa cadeia logística e de produção. Um outro agravante é a maneira errática com que Trump conduz a guerra comercial, gerando incerteza e deprimindo investimentos.

Estas são as verdadeiras causas da desaceleração econômica e dos transtornos ciclotímicos do mercado. Para estimular o crescimento e animar o mercado, os governos tem de atacar a raiz do problema, revertendo a política protecionista e restaurando a credibilidade da política econômica.

A política monetária pombalina será incapaz de estimular o crescimento econômico. No entanto, ela será nociva para a estabilidade financeira global, já que aumenta mais ainda a parcela de ativos de renda fixa com retornos negativos. Para evitar uma queda expressiva da taxa de retorno de suas carteiras, gestores terão de tomar mais risco em ativos menos líquidos e de pior qualidade creditícia. Além disso, os investidores terão de aumentar a alavancagem e comprar mais produtos estruturados (por exemplo, lastreados em hipotecas), justamente aqueles que foram o epicentro da crise de 2008.

O resultado final é: (a) deprimir as taxas de juros de curto e longo prazos; (b) gerar bolhas nos mercados ao continuar inflando o preço das ações e dos papéis de maior risco; (c) aumentar a volatilidade e reduzir a liquidez das carteiras; e (d) aumentar o risco sistemático dos portfólios (tornando-os hiperreativos às más notícias macroeconômicas). Quando os bancos centrais tiverem de aumentar as taxas de juros, isto pode acabar mal. Os cisnes negros captaram o recado e, de repente, voltam para espantar as pombas. 

Para o Brasil, a política monetária pombalina terá três efeitos. Primeiro: juros mais baixos nos Estados Unidos fortalecem as moedas emergentes ante o dólar, incluindo o real. Segundo: o apetite estrangeiro por ativos de risco aumenta, favorecendo a entrada de fluxos de capitais estrangeiros no País. Terceiro: amplia o espaço para o Copom dar mais dois cortes de 0,25 na taxa Selic. Fatores domésticos como a inflação convergindo à meta e uma economia estagnada abriram o espaço para o Copom reduzir com segurança a Selic para 6%. Cortes adicionais devem e parecem depender do governo entregar resultados em matérias de reformas estruturais. 

*É PROFESSOR DE FINANÇAS  NA UNIVERSIDADE DE MIAMI

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