Empate no duelo Copom-governo

Fazia já muito tempo que não se ouviam "abobrinhas" a respeito das causas da inflação. Os leitores mais novos talvez nunca tenham ouvido falar da "inflação do chuchu" ou da "inflação do tomate", que os ministros da economia dos governos militares tachavam de pérfidos inimigos da estabilidade monetária, a fim de encobrir a própria inépcia no combate à inflação.Foi, portanto, até com certa nostalgia que deparamos, na semana passada, com a reintrodução desse vezo no debate sobre as possíveis causas de um surto inflacionário - graças ao ministro Guido Mantega. Ele nos explicava que "quem (sic) mais está contribuindo para alguma elevação de preços são os produtos agrícolas... (devido)... a uma safrinha malsucedida. Feijão e outras leguminosas, que dependem de chuva, foram prejudicados".Essa "inflação do feijão", seja qual for, nem de longe se compara àqueles monstruosos surtos de carestia alegadamente impulsionados pela cucurbitácea agressiva que é o chuchu ou pelo fruto do tomateiro. Por isso a do feijão, segundo nos tranqüiliza o ministro, é uma "inflação que não preocupa".Não preocupa a equipe econômica, já que o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, nos assevera que a evolução dos preços no atacado "é tranqüila".Mas ainda assim preocupa outra equipe: a que cuida da política monetária. Os renitentes guardiães da moeda, congraçados no Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, sob a batuta do seu presidente, Henrique Meirelles, não parecem descontraídos e folgazões perante o frenesi consumista que sacode o público brasileiro, levando o conta-giros do crescimento industrial para muito além do que lhes parece prudente. Reagindo como era de esperar, em se tratando do Copom, à festejada melhoria do ritmo da atividade econômica, a taxa básica de juros (Selic) foi mantida, na semana passada, em 11,25% ao ano, para desagrado de lideranças sindicais, comerciais e industriais. O que rearmou a velha pendenga entre "desenvolvimentistas" e "ortodoxos".O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que sempre faz coro com os chamados "desenvolvimentistas" do governo, se apressou em dizer que a decisão foi "extremamente perversa" para os trabalhadores e que o Copom continua "colocando trava no desenvolvimento e crescimento do País".Abram Szajman, da Federação do Comércio, pensa que "lamentavelmente... o erro se repete e terá reflexos negativos sobre as perspectivas de crescimento da economia em 2008", argumentando que não vê pressões inflacionárias no horizonte e que o Copom deveria ter aproveitado a maré boa para cortar mais fundo a Selic.Já o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, considerou que a decisão, embora esperada, foi "ainda conservadora", pois, dado o crescimento constante da atividade econômica (e justamente por isso), "nem poderíamos esperar uma tomada de posição diferente (do Copom)".O Copom se esmerou em manter a taxa básica muito elevada durante tempo que pareceu longo demais para muitos críticos sérios e custou para adotar a política de redução gradual, que agora parece interrompida. Mas em retrospecto é preciso avaliar se, afinal, não foi isso que propiciou - a bem dizer, ao longo de todo este ano - esta retomada econômica que já fez o presidente Lula soltar, recentemente, mais um dos seus disparates, dizendo que o Natal que se aproxima só não será melhor do que o de Jesus Cristo (sem se lembrar, evidentemente, que o Natal primordial não foi nada bom nem para Jesus, nem para a família dele, nem para o povo da Palestina - já que Herodes andava à caça dos inocentes).Os juros já estiveram muito mais elevados do que agora e o que se pode dizer é que o crescimento econômico poderia ter sido maior com juros menores. Mas a situação atual está longe de ser perversa para os trabalhadores, como diz o Paulinho, e nem há sinais de reflexos negativos para a economia em 2008, como opina Szajman. Aliás, não há nada mais perverso para o trabalhador do que um surto inflacionário, embora, no curto prazo, possa até ser benéfico para o comércio.Na verdade, digam o que disserem os críticos, a "trava" que o Copom impôs, de maneira algo draconiana com sua política, foi à inflação. Pois ela não morrera com o ippom que o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso lhe deu ao criar a URV e depois o real. Ela não morre nunca, aliás. Entra em hibernação. E só não saiu da toca, em várias ocasiões depois de 1994, porque não encontrou condições propícias - não havia ganhos de poder aquisitivo que alimentassem a propensão a consumir; não havia investimentos que propiciassem aumento significativo de emprego; não havia aumentos reais de salários; e, sobretudo, os gastos públicos estavam fortemente contingenciados sob as rédeas do ex-ministro Antonio Palocci.Agora, o contexto é muito diferente. O presidente Lula, num compreensível propósito de fazer do segundo mandato o fecho de ouro da sua passagem pelo trono, achou que a austeridade "palocciana" já fora longe demais e era preciso soltar as rédeas. Crédito consignado, aumentos reais do salário mínimo, reajustes polpudos para categorias de funcionários, valorização do real, impulso à construção civil, PAC, tudo visando ao maior crescimento do PIB.O resultado tem sido um crescimento nada desprezível dos meios de pagamento em poder do público, que se reflete no movimento do comércio.E é claro que isso embute um potencial de pressão inflacionária para mais adiante. Ora, a função dos membros do Copom não é esperar que esse potencial se materialize para tomar alguma providência. Ainda mais quando há coisas que podem inflá-lo, como as eleições municipais do ano que vem e o aumento dos gastos do governo - caso a CPMF seja prorrogada - ou dos gastos do público - caso não seja prorrogada. *Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

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