Neil Hall|Reuters
Neil Hall|Reuters

Empolgação com negócio da China diminui

Na Grã-Bretanha, era de ouro com investimentos chineses dá sinais de que pode chegar ao fim antes de começar

The Economist

09 de agosto de 2016 | 05h00

Depois de passar um século tentando abrir à força o mercado chinês na época vitoriana, os países europeus vivem agora uma reversão no fluxo, com uma maré de dinheiro chinês (nada de navios armados por enquanto) chegando ao Ocidente. Alguns se mostram cautelosos diante da ideia de receber o investimento chinês em segmentos delicados da economia. Mas, no ano passado, para a surpresa de muitos, o governo britânico lançou uma nova iniciativa de cooperação econômica com a China que, de acordo com ambos os lados, traria uma “era de ouro” para as relações bilaterais entre eles.

A Grã-Bretanha se tornou um dos primeiros países ocidentais a estabelecer relações com o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, irritando os americanos. O então ministro das finanças George Osborne visitou Pequim, deixando claro que a Grã-Bretanha, precisando de dinheiro, estava aberta ao investimento em infraestrutura. Ele abriu a licitação de £ 12 bilhões (US$ 16 bilhões) para a construção da estrada HS2, ligando Londres ao norte da Inglaterra, na cidade chinesa de Chengdu.

Então ocorreu um choque duplo. Primeiro, a decisão nas urnas em 23 de junho pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Então, em 28 de julho, foi anunciada pela nova primeira-ministra, Theresa May, a surpreendente decisão de atrasar a aprovação de uma usina nuclear em Hinkley Point, Somerset, cuja construção seria em parte financiada pelo investimento chinês. Se a nova avaliação resultar no cancelamento do projeto, a era de ouro pode chegar ao fim antes mesmo de começar, diz Kerry Brown, da King’s College, Londres.

Desde 2000, a China dedicou mais investimento direto na Grã-Bretanha do que em qualquer outro país da União Europeia. Os chineses estão ansiosos para provar que podem ser parceiros confiáveis em projetos de infraestrutura no Ocidente e, depois de Hinkley, esperam projetar e construir uma usina nuclear inteira em Essex. Mas os críticos sentiram que os britânicos se empolgaram demais em seu súbito apelo à China. Por questões de segurança, os mesmos céticos já tinham alertado contra a decisão de permitir que a Huawei, empresa chinesa, fornecesse o equipamento da infraestrutura britânica de telecomunicações. Muitos temeram que a aproximação demasiada com a China deixaria a Grã-Bretanha de mãos atadas na arena diplomática.

O atraso da ministra May no projeto de Hinkley claramente irritou os líderes chineses. Em editorial publicado pela Xinhua, a agência de notícias oficial do governo, negou que a China pudesse criar “passagens secretas” no projeto, dizendo que abandoná-lo seria uma “mancha” na credibilidade britânica enquanto economia aberta e “poderia afastar outros possíveis investidores chineses” no futuro.

A Xinhua também apontou indiretamente para uma questão delicada envolvendo o atraso britânico: os defensores do Brexit tinham promovido a visão de uma Grã-Bretanha fora da UE com laços mais fortes com mercados emergentes como a China. O novo governo começou a explorar os tipos de acordo comercial que poderiam ser estabelecidos com os chineses, mas esse processo pode se tornar mais difícil se o projeto nuclear for obstruído. “Para um reino lutando para superar as consequências da opção pelo Brexit, a abertura é a saída”, alertou a Xinhua. O atraso ameaça o plano “Northern Powerhouse” (Usinas do Norte) para estimular a economia de cidades do norte da Inglaterra, para o qual o investimento chinês era considerado fundamental. Diz-se que um dos principais defensores do projeto NP, lorde Jim O’Neill, pensa em renunciar como secretário do comércio.

Uma possível piora nos negócios com a China ocorrerá num momento ruim para os negócios britânicos. Durante muitos anos, as empresas britânicas ficaram atrás das alemãs, francesas e americanas nas exportações para o mercado chinês. Mas, agora, com dezenas de milhões de chineses de classe média em busca de qualidade em serviços financeiros, atendimento de saúde e seguros (áreas em que a Grã-Bretanha se destaca), “este pode ser o momento dos britânicos”, diz David Martin, do grupo lobista Conselho de Negócios Sino-Britânico. Neste ano, Londres se tornou o maior centro de circulação de yuans fora da grande China.

“Será necessária considerável habilidade diplomática para que a parceria seja mantida”, admite Martin. Mas ele ainda acha o pessimismo exagerado. No ano passado, lideranças chinesas lançaram uma iniciativa chamada Made in China 2025, ajudando as empresas a fazer produtos de mais qualidade para lidar com a queda na vantagem competitiva no segmento da manufatura. O esquema oferece uma oportunidade para que as empresas britânicas forneçam equipamento de alta tecnologia, serviços de design e consultoria.

Os banqueiros britânicos, consultores e profissionais ligados à exploração do petróleo também estão trabalhando com empresas chinesas em outros países em projetos multibilionários que integram a iniciativa chinesa “Um cinturão, uma estrada”. O esquema busca reviver as antigas rotas da seda, ligando a China a seus vizinhos e além, por meio do investimento. Boa parte de tudo isso sofrerá pouco impacto do Brexit ou do destino de Hinkley. “Os segmentos nos quais a Grã-Bretanha era forte no dia 22 de junho (véspera do referendo) não ficaram piores no dia 24 de junho”, diz Martin.

Resistência. Embora algumas estatais chinesas talvez pensem duas vezes, é provável que as empresas privadas continuem buscando crescimento no Ocidente. Até 2020, a China terá triplicado seus ativos no exterior, que passarão de US$ 6,4 trilhões para quase US$ 20 trilhões, diz a consultoria Rhodium Group. “A China está ansiosa para expandir sua presença em países da OCDE como a Grã-Bretanha”, diz Thilo Hanemann, da Rhodium. Ele reconhece que as atitudes em toda a Europa estão mudando: na Alemanha, por exemplo, alguns políticos se opuseram à compra da Kuka, empresa do segmento de robótica, por part da Midea, grande fabricante chinesa de eletrodomésticos. Mas ele diz que, para cada acordo delicado que atrai resistência, há outros dez que são aprovados sem problemas.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR AUGUSTO CALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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