Empreendorismo nos bancos da escola

Uma recente pesquisa realizada com mais de 45 mil jovens brasileiros pela Nextview People em parceria com a Companhia de Talentos revela que 56% deles sonham em ter o seu próprio negócio. É uma taxa espantosa, mas coerente com o atual momento do nosso país. Com a economia crescendo consistentemente há vários anos, os nossos jovens já entenderam que ter um emprego é apenas uma opção no mercado profissional e que existem oportunidades de sobra para quem deseja entrar na vida empresarial.

ROMERO RODRIGUES, FUNDADOR, PRINCIPAL EXECUTIVO DA BUSCAPÉ COMPANY, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2012 | 02h06

Ainda de acordo com os resultados da pesquisa, para os entrevistados, possuir um negócio próprio é uma forma de unir um bom ambiente de trabalho, realização profissional e retorno financeiro. Na soma dos fatores, podemos dizer que se trata de juntar a fome com a vontade de comer: por um lado, o ambiente (cenário econômico) está ajudando, por outro há o entendimento de que a vida empresarial é ao mesmo tempo desafio e caminho para realização, pessoal e profissional.

E é disto mesmo que se trata. Ser empresário, para usar uma analogia bastante simples, é um pouco como ter um filho, que dá muito trabalho e noites mal dormidas, mas também traz realizações incomparáveis, espelho que são de nós mesmos - filhos e empresas.

É provável que nem todos os jovens que desejam se tornar empresários, conforme o levantamento, 56% do total, venham a de fato trilhar o caminho do empreendedorismo, por diversos motivos, entre os quais a falta de incentivos educacionais para que este projeto de vida se torne realidade.

Embora muita gente ainda acredite que ser empresário é uma questão de talento e vocação, é possível, sim, fomentar e educar pessoas para empreender. Aliás, melhor dizer que isto não só é possível como muito recomendável e salutar. Afinal, o que todos desejamos é um país mais empreendedor, sim, mas com empresários que tenham capacitação técnica, compreensão da responsabilidade que envolve a atividade, inclusive social e ambiental - temas cada vez mais candentes na agenda econômica brasileira e mundial.

Gostaria de ressaltar este ponto: é possível ensinar a empreender, e não estamos falando aqui apenas na capacitação técnica específica, que as faculdades de Economia e de Administração proporcionam no nível superior. Ao contrário, o ensino superior, desejável para todos nós, em qualquer atividade profissional, não é uma pré-condição necessária para o empreendedor.

O que defendemos, na verdade, é que desde a primeira infância as crianças e jovens brasileiros recebam, no ensino fundamental e médio, noções de empreendedorismo. Já há, no exterior e mesmo no Brasil, exemplos de sucesso deste tipo de iniciativa educacional.

Para tanto, é preciso não apenas o desejo de ensinar, mas a presença de professores qualificados. E nem sempre é preciso incluir disciplina específica sobre o tema no currículo escolar, embora isso seja recomendável. Muitas vezes a inclusão de atividades sobre empreendedorismo em meio às aulas das disciplinas ditas "tradicionais" já funciona bem. A chave é realmente a qualificação do professor, que precisa ter noções claras sobre o assunto para mostrar aos alunos os princípios da atividade.

Digital. O mundo mudou muito. E o meio digital contribui de forma significativa para essa rápida evolução. Por isso, é preciso preparar as pessoas para enfrentar este novo cenário econômico-social. Temos que estimular o pensamento "fora da caixa". Um bom exemplo é a empresa Cuponeria, startup criada por três jovens cariocas ainda na faixa dos 20 anos. Ela foi a vencedora do concurso "Sua ideia vale um milhão", desafio criado pela Buscapé Company e que reuniu mais de 900 projetos brasileiros. A empresa será a primeira a oferecer cupons de descontos ao internauta sem que ele tenha que pagar antecipadamente. O cliente deverá apenas imprimir o cupom no site e levar ao estabelecimento para adquirir o produto com o desconto especificado. Hoje, a Cuponeria tem mais de 600 mil usuários por mês, atende empresas do Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo e tem parceria com lojas de comércio eletrônico de todo o país.

Todos nós, enfim, podemos ser preparados para empreender e, mesmo que muitas vezes nossas carreiras comecem no mercado formal de trabalho, nos depararmos em algum momento da vida com o desafio de criar nosso próprio negócio. Estar preparado para este momento, em uma economia em constante mutação e com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, deveria ser um pré-requisito para todos nós! E é este o espírito dos novos tempos que o nosso sistema educacional precisa acompanhar, proporcionando assim as ferramentas para que todos nós possamos trilhar nossos caminhos, de acordo com nossos talentos e desejos.

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