Empregados da VW decretam greve e governo descarta ajuda para o setor

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Empregados da VW decretam greve e governo descarta ajuda para o setor

Além da Volkswagen, que demitiu 800, a Mercedes-Benz eliminou 244 vagas nos últimos dias e funcionários decidem paralisação nesta quarta-feira

O Estado de S. Paulo - Atualizado às 22h30

06 de janeiro de 2015 | 12h01

Trabalhadores da Volkswagen em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, entraram em greve nesta terça-feira por tempo indeterminado em protesto contra 800 demissões anunciadas pela empresa. Os cortes foram comunicados por cartas enviadas nos últimos dias aos funcionários, que estavam em férias coletivas e retornariam ao trabalho ontem.

A Volkswagen informou nesta terça que esses 800 funcionários ficarão em licença remunerada até 30 de janeiro, depois serão dispensados. A empresa alega ter um excedente de 2 mil trabalhadores, de um total de 13 mil na unidade. Informou ainda que esta é a “primeira etapa de adequação de efetivo”.

A Mercedes-Benz, também de São Bernardo, é outra montadora que, segundo o sindicato, eliminou 244 vagas nos últimos dias. Nesta quarta-feira, haverá assembleia no portão da fábrica e também deverá ser adotada medida de protesto, que pode ser a paralisação da produção. 

A Mercedes confirmou que fez dispensas, algumas por meio de um Programa de Demissão Voluntária (PDV), mas não confirmou números. Disse ainda que renovou, por cinco meses, o lay-off (suspensão temporária de contratos) de cerca de 1 mil trabalhadores no ABC e de 170 em Juiz de Fora (MG).

As demissões no ABC, berço do PT, mobilizaram o núcleo central do governo. Os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, foram chamados ao Palácio do Planalto para discutir o problema com o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o ministro-chefe da Secretaria Geral, Miguel Rossetto, responsável pelo contato com os movimentos sociais e centrais sindicais.

Pouco antes, o ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, havia recebido o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, para ouvir um relato sobre as demissões.

No que promete ser o primeiro grande teste da nova diretriz de política econômica, o governo não pretende adotar medidas de socorro. “Em princípio, não”, disse Monteiro. “Não para a realidade que está posta.” 

Em outra frente, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, telefonou para executivos da Volkswagen para oferecer a intermediação do governo nas negociações entre empresa e sindicato.

Nas reuniões no Planalto, Levy e Barbosa insistiram sobre a importância de o governo não recuar da decisão de elevar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis, que entrou em vigor no dia 1.º de janeiro. Para a equipe econômica, este é um novo momento, de ajustes, em que é preciso que sejam feitos sacrifícios. Eles ponderaram que a indústria automobilística poderia contribuir com sua parte, depois de ter sido beneficiada por tanto tempo com e reduções de impostos. Desde a crise de 2008, e até janeiro de 2014, o governo abriu mão de arrecadar R$ 12,3 bilhões em IPI das montadoras.

O entendimento no governo é que as montadoras passam por dificuldades, assim como o restante da indústria. “É uma conjuntura própria das flutuações em todos os mercados”, disse Monteiro. Ele observou que outras empresas também têm feito ajuste em seus quadros. Porém, com menor repercussão política do que a vista no setor automobilístico.

Mas, segundo Monteiro, a Anfavea não pediu ajuda. A conversa com Moan restringiu-se a uma explicação sobre por que a Volks realizou as demissões e uma avaliação de que essa não é uma tendência generalizada no setor. “Não há nenhuma posição de buscar socorro, nem medida salvadora”, disse.

Negociação. Os trabalhadores da Volks entraram na fábrica nesta terça-feira , mas permaneceram de braços cruzados. O mesmo deve ocorrer nesta quarta. Marques informou que são produzidas diariamente 1,2 mil unidades dos modelos Gol, Saveiro e Polo.

O sindicalista espera para esta quarta ou quinta um encontro com dirigentes da Volks para retomar negociações. Em dezembro, a empresa propôs alteração num acordo que estava em vigor desde 2012 e previa estabilidade no emprego até 2016.

Alegando mudança na economia e a queda nas vendas, a empresa fez nova proposta, que previa a abertura de um PDV e congelamento dos salários neste ano e no próximo, sendo substituído por abonos que não são incorporados ao salário-base. Previa ainda estabilidade até 2017 para quem ficasse e produção de três novos modelos. A proposta foi rejeitada em assembleia e, na visão do sindicato, prevalece o acordo anterior.

Marques quer saber se o novo presidente da Volkswagen, David Powels, que assumiu o posto no dia 1.º, apoia, como seu antecessor, a criação de um programa de proteção ao emprego, nos moldes do existente na Alemanha. “Trata-se de um programa para ser adotado em períodos de crise que prevê a redução de jornada para todos os trabalhadores da fábrica, sem redução de salários, e que pode ser uma alternativa ao quadro atual.”

A empresa bancaria parte dos salários e outra parte ficaria por conta do governo (por meio do FAT ou do FGTS). Essa proposta, que substituiria o lay-off, está em discussão entre centrais, empresas e governo há vários anos, mas ganhou força no ano passado.

Mesmo com as recentes declarações da nova equipe econômica, que fala em ajustes fiscais, Marques avalia que “o custo de um desempregado é maior para o governo do que o custo de mantê-lo empregado”. Segundo ele, além do seguro-desemprego bancado pelo governo, os desempregados deixam de consumir, o que respinga na arrecadação de impostos. / CLEIDE SILVA, TÂNIA MONTEIRO, LU AIKO OTTA E MURILO RODRIGUES ALVES

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