Maxuely Santana/ MAM Hotéis
Maxuely Santana/ MAM Hotéis

Cidades turísticas veem emprego voltar com fim do isolamento social

Estudo da CNC mostra que o turismo é a atividade mais relevante nos 20 municípios que mais ampliaram o emprego formal nos últimos 20 meses

Daniela Amorim e Bruno Villas Bôas, Rio

11 de abril de 2022 | 05h00

As regiões brasileiras com vocação para o turismo estão puxando a criação de vagas com carteira assinada no mercado de trabalho, ao lado de localidades produtoras de commodities, aponta estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast. No ranking dos 20 municípios que mais ampliaram o emprego formal, o turismo era atividade relevante em metade deles. A confiança do empresário de serviços turísticos também tem mostrado recuperação, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“O turismo, que ainda tem um nível de atividade inferior ao de fevereiro de 2020, já se movimenta em relação às contratações. Esse setor só contrata se percebe uma melhora de cenário e se tem uma perspectiva positiva à frente”, diz o economista Fabio Bentes, responsável pelo levantamento da CNC.

No levantamento, Bentes mapeou as localidades que mais multiplicaram o número de postos de trabalho formais nos últimos 20 meses, período em que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) começou a registrar abertura de vagas no País, após o choque inicial provocado pela covid-19.

O município de Porto Seguro, na Bahia, aumentou em 52% o número de empregados com carteira assinada, o equivalente a 10.019 vagas abertas, no período de julho de 2020 a fevereiro de 2022. Entre os demais destaques ligados ao turismo estão Vacaria (RS), Araruama (RJ), Ipojuca (PE), Itapema (SC), Gramado (RS), Palhoça (SC), Caldas Novas (GO), Balneário Camboriú (SC) e Guarapari (ES).

“Já temos normalização no fluxo de consumidores. O isolamento social está praticamente zerado”, diz Bentes.

Confiança maior

Abalado pela pandemia, o empresário do setor de turismo começou a ficar mais otimista apenas em meados de 2021, mostram dados desagregados da Sondagem de Serviços da FGV. O Índice de Confiança dos Serviços de Turismo caiu de 91,8 pontos em fevereiro de 2020, no pré-pandemia, para um piso de 47,1 pontos em abril daquele ano, pior resultado da série histórica iniciada em junho de 2008.

"Teve um impacto muito grande no início da pandemia. Depois ensaia uma recuperação muito pequena, mas volta a cair no início de 2021, por causa da segunda onda, um ambiente ainda de muita restrição, não só local, mas também internacional. A partir do momento que começa uma vacinação mais abrangente, as pessoas começam a poder circular mais, a gente vê uma recuperação mais forte do indicador", diz Rodolpho Tobler, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV).

A confiança do empresariado do setor só voltou ao patamar pré-pandemia em setembro de 2021, aos 91,1 pontos, sendo novamente abalada no início de 2022 pela nova onda de contaminações pela variante Ômicron do coronavírus e pelo adiamento de celebrações como o carnaval em diferentes cidades.

Em março, o Índice de Confiança dos Serviços de Turismo subiu 4,6 pontos ante fevereiro, para 87,0 pontos. O indicador é feito com base em uma amostra de cerca de 260 empresas que respondem mensalmente à pesquisa.

"A gente não sabe por quanto tempo a recuperação do segmento de atividades turísticas pode se manter. Ainda tem um espaço para recuperação. Isso vai se refletir no mercado de trabalho com certeza, há espaço para recuperar também as contratações nesse segmento. O que é incerto é o ritmo dessa recuperação nos próximos meses. A inflação em alta, os juros ainda aumentando, o próprio consumidor muito cauteloso com a renda muito baixa, isso tudo passa a ser um limitador para um ritmo mais forte (de recuperação do turismo)", diz Tobler.

Atratividade

Sexta geração de uma família circense, Sandy Bartholo, 30 anos, mudou-se há cerca de um ano para Gramado, na Serra Gaúcha, atraída pelas oportunidades de emprego com a reabertura do turismo na cidade. Desde que a pandemia baixou a cortina para a Trupe Bartholo, Sandy ocupou-se por certo tempo como nutricionista numa clínica em Balneário Piçarras, em Santa Catarina, até ficar definitivamente desempregada.

“Tudo parou para a classe artística com a pandemia. Shows foram cancelados, festas de formatura e de aniversário. Minha irmã estava morando em Gramado e falou que tinha mais oportunidades, por causa dos parques, do turismo, que estava retomando”, diz Sandy, que está empregada em uma nova atração da cidade, o parque Escola de Magia, interpretando uma das professoras de poções inspiradas na saga de Harry Potter.

Dono da atração Escola de Magia, o empresário Anderson Torres diz que a retomada do turismo na cidade e a abertura de novas atrações tornaram mais escassa a oferta de mão de obra qualificada na cidade. “Para conseguir profissionais, é preciso treiná-los e remunerar bem, até porque os aluguéis na cidade são altíssimos”, relata o empresário. “Dos 30 funcionários que tenho, metade nunca tinha trabalhado como ator antes.”

Gramado deve ganhar nos próximos meses novas atrações, o que deve manter aquecida a procura por pessoal. É o caso de um parque temático da NBA, a liga de basquete americana, com 4 mil metros quadrados. Outra novidade é o novo parque da Turma da Mônica, que está em construção e tem previsão de inauguração em outubro deste ano. Gramado conta atualmente com 67 parques e atrações.

A recente recuperação do turismo também provocou aumento da oferta de vagas em Porto Seguro, no litoral da Bahia. Depois de um ano desempregada, a gaúcha Lea Wengrat, de 49 anos, foi contratada como governanta do resort Ondas Praia Resort, recentemente inaugurado no distrito de Trancoso.

Mãe de duas crianças, ela estava sobrevivendo de bicos após as pousadas da região fecharem as portas com as restrições impostas por decretos municipais. “Trabalho como governanta em Porto Seguro há 27 anos. Para a gente, a retomada dos hotéis foi muito importante. E esse empreendimento aqui não tem muita baixa temporada e tem porte grande”, disse Lea.

O Ondas Praia Resort conta com 484 apartamentos e foi inaugurado há quase um ano, com 230 funcionários. Segundo Walter Luiz, gerente geral em empreendimento, a ocupação ficou na faixa de 70% em janeiro. A expectativa agora é que, na temporada de julho, possa atingir picos de lotação - o que elevará o quadro para 260 funcionários. “O mercado de turismo está reagindo bem aqui e em todo o Brasil”, disse o gerente.

Segundo a empresária Andréa Balmant, dona de uma agência de viagens no distrito de Arraial D’ajuda há 23 anos, mesmo com as restrições na Bahia por causa da pandemia, o turismo se manteve aquecido em Porto Seguro. Assim, a retomada mais forte das atividades econômicas só impulsionou ainda mais setor.

“Esse último fim de ano foi um 'boom', e eu percebo que nós tivemos um crescimento do turismo e, consequentemente, de mão de obra. Pelo menos dobrou o número de pessoas que vieram para o local na comparação entre o verão de 2021 e o de 2022”, diz Andréa, que destaca a alta lotação de hotéis e restaurantes nos últimos meses.

Vacinação e dólar caro incentivam turismo doméstico

O avanço da vacinação da população contra a covid-19, a melhora da pandemia e o dólar ainda valorizado em relação ao real incentivaram o brasileiro a viajar mais pelo País, segundo Manoel Linhares, presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional). Os destinos de praias, serras e hotéis-fazenda lideraram a recuperação do turismo doméstico.

“O turismo de lazer já se recuperou, com essa maior opção do brasileiro pelos destinos nacionais. Já o turismo de negócio ainda está se recuperando. Os eventos agora estão voltando, como as feiras”, contou Linhares. “Esperamos que daqui para frente o turismo se recupere e volte ao patamar de 2019.”

O retrato até fevereiro é promissor para o setor, acredita Fabio Bentes, da CNC. Ele alerta, porém, que a deterioração das condições econômicas pode frear esse ritmo de recuperação. A inflação elevada e os juros altos podem dificultar o consumo de serviços turísticos pelas famílias, o que faria o restabelecimento do emprego nessas atividades evoluir de forma mais lenta.

Estoque de vagas

No total do País, o estoque de vagas formais cresceu 12% entre julho de 2020 e fevereiro de 2022, o equivalente à abertura de 4,441 milhões de empregos com carteira assinada. A CNC aponta ainda que, no ranking dos 20 maiores criadores de vagas, destacaram-se também as expansões do emprego com carteira em regiões marcadas pela atuação da indústria extrativa mineral, como os municípios de Canaã dos Carajás/PA (66% de avanço no estoque de trabalhadores no período, o equivalente a mais 7.370 vagas) e Parauapebas/PA (24%, ou mais 12.067 vagas).

Açailândia/MA (27% de alta, ou mais 3.149 vagas) é um polo produtor de ferro-gusa - resultado da absorção do carbono por minério de ferro em altos-fornos. Os municípios de Pederneiras-SP (23%/2.590 vagas) e Santo Antônio de Jesus-BA (23%/4.152 vagas) se destacam pelas produções de açúcar e ns citricultura, apontou Bentes.

O estudo da CNC mapeou, entre os 5.570 municípios brasileiros, somente os que empregavam ao menos 10 mil trabalhadores formais em junho de 2020. O objetivo era evitar variações muito extremas no estoque de vagas em consequência de uma amostra muito pequena e não de um dinamismo do mercado de trabalho local. / COLABOROU SHAGALY FERREIRA

 

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