Emprego e incerteza

Emprego e incerteza

As condições do mercado de trabalho estão em rápida transformação, mas é melhor esquecer as soluções radicais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2016 | 22h00

Nos Estados Unidos, aqui no Brasil e no resto do mundo vai prevalecendo o ponto de vista – equivocado – de que o fechamento de postos de trabalho está sendo determinado, em último caso, pela forte entrada de mercadorias estrangeiras, especialmente asiáticas. Daí o discurso protecionista pelo desmonte de acordos comerciais.

A ideia é a de que ao comprar produtos asiáticos, mais baratos porque são produzidos por mão de obra de baixo custo, o consumidor ocidental está concorrendo para aumentar o desemprego no Ocidente. “Cada tênis, cada aparelho ching-ling que você compra é um emprego que você está ajudando a fechar em seu país”, resumem algumas advertências que comparecem com frequência nas redes sociais dos países avançados.

Para quem pensa assim, a redução do fluxo comercial global, tal como pretendida pelos protecionistas, tende a trazer de volta as fábricas que se deslocaram para fora do país e, portanto, a reabrir postos de trabalho.

Esse ponto de vista repetido à exaustão nos meios de comunicação foi um dos mais importantes motes eleitorais do empresário Donald Trump.

Os Estados Unidos apresentam hoje um baixo nível de desemprego, de menos de 5% da força de trabalho (veja o gráfico), índice considerado muito próximo do pleno-emprego. E, no entanto, a sensação geral é de que as condições do mercado de trabalho estão piorando; os salários, murchando; e o futuro ficando cada vez mais nublado.

Os eleitores imaginam que, uma vez entronizado no Salão Oval da Casa Branca, Trump chamará os CEOs das grandes empresas americanas, passará um sabão e os intimará a trazer de volta as siderúrgicas, as fábricas de veículos e as montadoras de celulares e de aparelhos eletrônicos.

Esta é uma ideia equivocada, por algumas razões, mas fiquemos com apenas duas. Primeira razão, é muito baixa a probabilidade de que a indústria que se despachou para o México e para a China volte para os Estados Unidos, mesmo com a prometida redução de impostos, porque teria de produzir a custos mais altos de mão de obra. E, segunda razão, mesmo que volte ou mesmo que as fábricas remanescentes continuem nos Estados Unidos, também é altamente improvável que a produção seja retomada com o mesmo nível de utilização de mão de obra.

A indústria moderna é altamente tecnificada. Prevê aumento do emprego de Tecnologia da Informação, de internet das coisas, sistemas cyber-físicos, impressoras 3D, análises de big data, controles logísticos programáveis e outras tantas novidades que hoje compõem a nova revolução industrial. Toda essa traquitana é altamente poupadora de mão de obra e, quando emprega, exige pessoal treinado e qualificado, e não a mesma tigrada de macacão azul que ocupava os chãos de fábrica há alguns anos.

Enfim, as condições do mercado de trabalho estão em rápida e radical transformação. O que será, nessa nova ordem, dos sistemas de previdência e dos esquemas de financiamento do Estado do bem-estar social é questão igualmente relevante para a qual ainda não há solução fácil. Mas, por enquanto, esqueçam que protecionismo e o desmanche dos acordos comerciais serão providências eficientes para restabelecer o emprego.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução dos preços do petróleo no mercado internacional.

As negociações da Opep

O pretendido acordo dos membros da Opep com o objetivo de reduzir a produção e aumentar os preços afunda em contradições. Se não der certo, os preços do petróleo continuarão em queda ou se manterão muito baixos. Se for minimamente bem-sucedido, haverá aumento de preços. Assim, melhorarão as condições de mercado para a produção do óleo de xisto americano e os preços terão novas razões para voltar a cair, com uma agravante: a Opep perderá participação de mercado.

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