Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Emprego fica mais difícil na construção

Em janeiro e fevereiro, foram eliminadas 35,5 mil vagas em todo o País, e as perspectivas são de ano complicado para o setor

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

05 de abril de 2015 | 03h00

A desaceleração econômica está provocando uma onda de demissões na construção civil. O setor, na verdade, sempre teve uma elevada rotatividade, mas a diferença fundamental é que o saldo entre admissões e demissões era positivo no passado – ou seja, os demitidos conseguiam recolocação. Nos primeiros dois meses de 2014, por exemplo, houve abertura de 63,1 mil postos formais no setor. No mesmo período deste ano, porém, foram destruídos 35,5 mil postos formais.

“As obras iniciadas em anos passados estão terminando. Agora, precisamos de novas decisões de investimento para absorver a mão de obra”, afirma Eduardo Zaidan, vice-presidente de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). “Mas a política de restrição fiscal, a inflação mais alta e os juros mais altos deixam a política de novos investimentos bastante restrita.” 

O momento que vive o setor é ilustrado pelo número alto de demissões sem justa causa – que são os cortes mais diretamente ligados às dificuldades financeiras das empresas: entre janeiro e fevereiro, 73% dos trabalhadores desligados na construção foram demitidos sem justa causa, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). As outras categorias de demissões apontadas no Caged são saídas espontâneas, término de contratos, por justa causa, aposentadoria e morte (ver quadro). Como comparação, na agropecuária, por exemplo, as saídas sem justa causa representaram 56,68% do total. Na indústria, um pouco menos: 56,53%.

Freio. O desempenho da construção civil também tem sido afetado pela Operação Lava Jato, que investiga corrupção em contratos da Petrobrás. Com a operação, as construtoras tiveram crédito cortado e estão sem caixa para tocar as obras pelo País. Nos Estados com grandes obras de infraestrutura em andamento, fica evidente como o emprego tem sido afetado.

Em Pernambuco, do total de desligamentos na construção civil, 86,99% foram computados como demissão sem justa causa. Com o envolvimento de várias construtoras na Operação Lava Jato, as obras da Refinaria Abreu e Lima diminuíram o ritmo, e algumas empresas demitiram os trabalhadores. 

Na Bahia, vários trechos da Ferrovia da Integração Oeste-Leste (Fiol) estão parados por causa da falta de dinheiro das empreiteiras envolvidas na Lava Jato. Além disso, o estaleiro Enseada Paraguaçu reduziu o ritmo das obras e desacelerou a atividade de construção das sondas de exploração de petróleo. No Estado, 85,68% dos desligamentos foram por demissão sem justa causa.

“A Operação Lava Jato causou um desemprego na construção civil, especialmente naquelas empresas que estão envolvidas ou fazendo obras para a Petrobrás”, afirma o presidente interino da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop), Carlos Zveibil. “As coisas estão ruins de uma forma geral, e a Lava Jato é só mais um ingrediente”, afirma.

Por ora, a expectativa é de um ano difícil para o emprego na construção civil. O forte ajuste fiscal e a baixa confiança na economia brasileira devem retardar o crescimento e uma consequente melhora do mercado de trabalho. As projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano têm sido reduzidas com frequência. Segundo o último relatório Focus, do Banco Central, a retração será de 1% em 2015.

“A crise não vai ter uma solução muito rápida. As medidas precisam ter um tempo para ter efeito e trazer uma restauração na confiança”, afirma Zaidan, do Sinduscon-SP. 

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