Empresa de Youssef ajudou Bertin a comprar térmicas

CSA Project, do doleiro, procurou vencedores de leilões para fazer venda de participações à Cibe, dos Bertin e da Equipav

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2014 | 02h04

Em 2008, o Bertin firmou uma sociedade com a empresa Mitarrej e criou a MC2. Essa MC2 ganhou num leilão de energia 21 térmicas, capazes de gerar o equivalente a meia hidrelétrica de Itaipu. Eles tinham nas mãos um grande negócio. Em 2011, porém, a sociedade foi desfeita e a disputa em torno da rescisão deu na briga narrada acima.

Recentemente, a operação Lava Jato mostrou que a relação entre todos os sócios não começou em 2008. Antes de constituírem a Mitarrej, os futuros sócios haviam participado de outros negócios com outra empresa dos Bertins, a Cibe. O que chamou a atenção da Polícia Federal é que a intermediação desses negócios foi feita pela CSA Project, uma empresa de fachada do doleiro Alberto Youssef.

A Mitarrej tem quatro sócios. Os empresários Marcos Antonio Grecco e Nelson Belotti dos Santos têm experiência na iniciativa privada do setor de energia. Os engenheiros Marco Antonio Vaz Capute e Valter Luís Macedo de Carvalhaes Pinheiro fizeram carreira na Petrobrás. Capute foi por nove anos diretor na BR Distribuidora e Pinheiro, seu subordinado.

Para a Polícia Federal, uma empresa de Grecco (a Genpower) e outra empresa que foi criada por Belotti (Ellobras) pertenceram à CSA de Youssef e representaram os interesses do doleiro no leilão da Térmica de Suape II. Esta representação estava num acordo entre Youssef e a BR, que fez parte do mesmo consórcio. Para a polícia, outro indício de proximidade é o fato de Belotti ter feito depósito numa conta bancária da CSA.

Versões. Os sócios da Mitarrej têm outra versão. Grecco diz que sua empresa nunca pertenceu ao doleiro e que não o conhece. Belotti, por sua vez, confirma que tiveram contato com a CSA, mas não pelas razões citadas na Lava Jato: "Eu e os demais integrantes dos consórcios que ganhamos as térmicas de Arembepe e Suape II fomos procurados pela CSA Project e pelo Banco Ficsa para vender as participações à Cibe. Fechamos negócio sem nunca saber que a a CSA era desse Youssef", falou em entrevista ao Estado.

Essas operações ocorreram em 2007 e 2008. Nas duas, a Cibe se tornou sócia da BR Distribuidora. Na época, a Cibe era uma sociedade entre Equipav e Bertin. Em 2011, a parceria foi desfeita e os ativos de energia ficaram com o Bertin. O Ficsa, por sua vez, era da Equipav. Hoje, a Equipav tem um terço da instituição. Procurados, os Bertins negaram que a CSA tenha feito a intermediação desses negócios. O Ficsa, porém, confirmou que recebeu mandato da Ellobras e da Genpower para vender as suas participações à Cibe, em Suape II, e que trabalhou com a CSA apenas naquele negócio, sem saber que ela tivesse relação com algum doleiro.

Histórico. Para entender melhor a cadeia de acontecimentos, é preciso voltar no tempo. Belotti abriu ao menos três empresas que tiveram relações com o Bertin. A primeira, criada em 2006, foi a Ellocin. Com ela, ganhou o leilão para construir a térmica em Camaçari, na Bahia. O projeto recebeu o nome de Arembepe. Também participaram dele a BR e Grecco. Belotti explica que o negócio foi bom para os dois lados. Os Bertins conseguiam ingressar no setor comprando participações. Ele, por ter conseguido uma térmica vencedora no leilão com perspectivas de retorno, recebeu um ágio de 105.000% por sua parte. "O depósito que fiz na conta da CSA foi para pagar a intermediação", diz Belotti. "A operação foi legal."

Em setembro de 2007, Belotti abriu a Ellobras. No mês seguinte, ela estava no consórcio que ganhou a térmica de Suape II. Novamente, entre os sócios estavam BR e Grecco. Novamente a Cibe comprou as participações por intermédio da CSA. Em 2012, os Bertins venderam a sua parte em Suape II para Carlos Mansur - o mesmo que, em 2007, havia vendido para eles a empresa de lácteos Vigor.

Em janeiro de 2008, Belotti também abriu a Mitarrej. Em junho, os demais sócios se juntaram a ele. Quem incentivou a sociedade foi a Cibe. Ela convidou Capute e Pinheiro para sair da Petrobrás. "Estavam estruturando a empresa para disputar leilões e a proposta era interessante", diz Pinheiro. "Tanto era que ganhamos 21 térmicas. O problema é que depois pediram para a gente sair." / A.S e J.G.

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